1º Semestre de 2024

Argumento da Seção Clínica

Maria Wilma S. de Faria - Diretora Adjunta da Seção Clínica

 

 

As especificidades da clínica hoje

 

 O convite para o trabalho de investigação no primeiro semestre de 2024 visa debruçar sobre o que é único, próprio e mais singular de cada núcleo, no âmbito das pesquisas realizadas pelo Instituto de Psicanálise e Saúde Mental, em seus inúmeros campos. A saber:

Se os Núcleos não são lugares de especialistas, quais seriam então as especificidades inerentes a cada um deles? Onde eles dialogam e onde se afastam? O que poderíamos pinçar como específico de cada campo. Partiremos dessas perguntas.

No dicionário Houaiss[1] o significado da palavra específico é: “próprio de uma espécie; peculiar; destinado ou pertencente exclusivamente a um indivíduo ou a um caso, uma situação; especial; exclusivo; próprio; inerente”. Tal definição nos cai como uma luva, na medida em que, na especificidade, encontramos aquilo que é da ordem também de uma singularidade, o que é único, o mais próprio de cada falasser, algo que poderíamos localizar como próximo ao sinthoma. “O singular ‘como tal’, não se parece com nada: ele ex-siste à semelhança, ou seja, ele está fora do que é comum[2]”. A psicanálise, diferente das outras ciências, traz em seu arcabouço uma especificidade, na medida em que ela não trabalha com categorias, não se ocupa de generalizações, uma vez que o real da experiência analítica é o que se visa. Orientamos-nos pela clínica, e isso nos aponta que o conhecimento em psicanálise é construído de maneira singular frente a uma impossibilidade de enquadramento, de uma totalização ou de uma generalização. 

Se o singular de cada falasser nos aproxima da segunda clínica, podemos também nos servir da particularidade, uma vez que esta abraça as categorias, as estruturas da primeira clínica. “Que os tipos clínicos decorrem da estrutura, eis o que já se pode escrever”[3]. Tomando como exemplo, o Homem dos Ratos enquanto caso paradigmático, ele nos serve como modelo para ilustrar a neurose obsessiva, porém, nem todos obsessivos são como Ernst Lanzer. Cada obsessivo opera de acordo com seu gozo de maneira única, em que pese que, como falasser, ele esteja também em articulação com o particular e com o universal dessa categoria.

De tal forma, o convite é para que possamos fazer um giro, certo retorno, revisitando elementos clássicos e tentando localizar nos dias de hoje, o que teria de específico em cada Núcleo. Quais seriam os pontos com os quais nos deparamos ao lidar com o mal-estar de cada clínica? Como operar com a interface, por exemplo, entre o UM do sinthoma e o Outro da família, escola e outras instâncias institucionais?

No Núcleo de Psicose, poderíamos indagar se a partir da categoria clínica lacaniana psicose ordinária[4], ocorreu uma proliferação de diagnósticos de psicoses? Frente a um não saber estariam alguns, precipitando e se confortando com a utilização do termo psicose ordinária, banalizando-a? O que seria mais específico hoje no Núcleo de Psicose? E as psicoses extraordinárias, seriam as mesmas de antes?

E no campo da medicina? Há, no contemporâneo, um chamado cada vez maior em relação aos especialistas. Estes, absorvidos pela tecnologia, exames, imagens, protocolos, deixam de lado o espaço da subjetividade. Movidos pelo discurso do mestre ou universitário a medicina tenta obturar tudo que seria da ordem da falta. Assim, como acessar os médicos? Que articulações têm sido possíveis para que sejam permeáveis ao Discurso Analítico? Como se dão os acontecimentos de corpo próprios à sexualidade feminina na clínica com obesos, anoréxicos? Como conectar cada sujeito com o corpo, com o Outro, possibilitando alguma localização em meio ao excesso a que se entregam?

No Núcleo de Toxicomania, também a partir da categoria clínica lacaniana psicose ordinária, caberia indagar sobre o que aconteceu com o chamado “toxicômano verdadeiro”? Ele existe? No contemporâneo, todo toxicômano seria psicótico?  Onde estariam os toxicômanos neuróticos nos dias de hoje? Poderíamos indagar se existiria uma toxicomania transitória? Como lidar com o Outro da família, das instituições, que pretendem dar respostas rápidas, em sua maioria, preconizando o ideal de abstinência? Há aqui também uma pressa, um ideal de inclusão a todos que se encontram de alguma maneira, desconectados do laço social?

Na clínica com crianças esbarramos com os desatentos, os sem limites, os agitados, os que fracassam na escola, os infratores, entre vários outros marcados como os novos diagnósticos, “tipos clínicos” em nossa contemporaneidade. Elas (as crianças) são cada vez mais avaliadas, medicadas e tratadas por várias práticas terapêuticas, em especial pelo saber das neurociências. Para além do sintoma que as fazem sofrer, seria este mesmo sintoma o que provoca uma divisão no par parental[5]. É corrente escutarmos na clínica que um atendimento de uma criança se desdobra em inúmeros outros atendimentos. Há que intervir na escola, na família. Enfim, o que haveria de específico nesta clínica?

Já na clínica ligada ao direito, onde as dimensões do ato e da transgressão estão colocadas, como lidar com as questões da responsabilidade, do sentimento de culpa, assentimento, uma vez que estes não retornam mais sobre os sujeitos, como se estivessem forcluídos de alguma forma? Continuando com a investigação do último semestre, como o direito tem lidado com as crescentes demandas de transição de gênero em crianças e jovens e como tem sido possível uma interface entre a medicina e a psicanálise?

Quanto ao Núcleo de Investigação em Psicanálise e Saúde Mental, em uma instituição de S. M. haveria ainda lugar para a singularidade dos casos? O discurso analítico tem operado e participado da circulação discursiva inerente a todo trabalho em equipe multiprofissional? Tem sido possível fazer valer as diferenças e se pautar sobre o saber extraído de cada paciente? Por que as instituições e serviços de S. M. têm sido refratários à clínica e recorrido mais ao social? Aprendemos com Beneti[6] que “o analista contemporâneo deve intervir nos sintomas de seu tempo (...) numa posição de ‘ajuda’ à civilização, com respeito à articulação entre o universal das normas e o singular, o ‘menos-um’ das particularidades do sujeito”.

Assim, o convite é para que também possamos nos debruçar sobre o que nos ensina e o que pode ser transmitido em uma análise, ou mais propriamente, o que pode ser extraído do encontro de um falasser com um analista nos dias que correm. Trata-se de dar testemunho daquilo que fazemos em nossa prática clínica. E para, além disso, buscar a dimensão clínica do que operamos no interior de nossas atividades, do que transmitimos na articulação entre psicanálise pura e aplicada, no que se refere aos praticantes e profissionais de saúde mental vinculados ao Instituto no que diz à formação de cada um.

 

 

[1]  HOUAISS, A, e VILLAR, M. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

[2] MILLER, J-A. O inconsciente e o sinthoma. Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 55, 2009. p. 35

[3] ?

[4] Cf.: MILLER, J-Alain. Efeito retorno à Psicose Ordinária. BATISTA, Maria do Carmo; LAIA, Sérgio (ORGS). A Psicose Ordinária. Belo Horizonte. Scriptum Livros, 2012. p.399.

[5] Cf.: LACAN, J. Duas Notas sobre a Criança. Opção Lacaniana 21.

[6] BENETI, A. Por que Instituto de Psicanálise e Saúde Mental? Disponível em: https://www.institutopsicanalise-mg.com.br/index.php/2-uncategorised/39-psicanalise-saude-mental

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