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Papéis de Psicanálise


Papéis número: 01 - 02

:: Papéis de Psicanálise 02


As pequenas invenções psicóticas

Editorial
Em homenagem a Sigmund Freud
Em uma entrevista concedida a um periodista, G. S. Viereck, em 1926, Sigmund Freud, nessa altura
um setuagenário, diz não estar muito preocupado com a posteridade e nem com qualquer desejo de imortalidade. Se “o rio mais cansado, deságua tranqüilo no mar”, tal como diz o poeta, se “tudo o que vive perece, por que deveria o homem constituir uma exceção?”, indaga. No entanto, podemos dizer que nesse “duelo entre gigantes”, constituído pelos conflitos inerentes às forças de vida e de morte, com a invenção da Psicanálise, a força de vida parece ter tomado a dianteira.

Assim, com esse segundo número dos Papeis de Psicanálise, nós, participantes do
Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais (IPSM-MG), queremos nos unir às
homenagens rendidas a Freud, neste mês de maio de 2006, pelos 150 anos de seu nascimento.
Se, ao longo deste volume, podemos partilhar a escuta atenta e ética, bem como o cuidado
com os quais os profissionais dos Serviços de Saúde Mental acompanham as pequenas
invenções feitas pelos sujeitos psicóticos, muitas vezes ao modo de artefatos, de forma a
poderem suportar essa “vida severina”, “comprada a retalhos”, isso, certamente, só é possível
a partir do corte introduzido pela psicanálise no tratamento da loucura.

Se tudo o que é vivo traz em si a possibilidade de sua morte, a própria psicanálise não
está a salvo desse jogo de forças, nem tem, pelo simples fato de ter nascido, direito garantido
à imortalidade. Por isso também, torna-se importante o fato de ser possível reunir em uma
publicação os trabalhos clínicos e teóricos com o campo das psicoses, trabalhos orientados
pelo corte freudiano e pela proposta ética feita por Jacques Lacan, aquela de que o
psicanalista não deve recuar diante das psicoses. Esse Papéis de Psicanálise, “As Pequenas
Invenções Psicóticas”, é uma prova, viva, disso.

Márcia Rosa


APRESENTAÇÃO

Na apresentação de suas memórias, Schreber oferece sua história à ciência e à
religião. Ele justifica-se explicando que o que ele experimentou jamais até então qualquer
homem havia experimentado. O estudo de sua biografia por cientistas e religiosos teria assim
grande valia para a humanidade. Dessa forma, logo nas primeiras palavras de seu escrito,
Schreber oferece ao mundo sua exceção. James Joyce, por sua vez, não nos oferece apenas
um relato de sua experiência. Ele faz de seus escritos uma experiência. Escrevendo um inglês
que até então jamais havia sido escrito, desafia os universitários a decifrarem-no, tarefa que,
ele antecipava, para ser finalizada, demoraria pelos menos os próximos trezentos anos. Joyce
faz de seus escritos uma exceção.

Schreber e Joyce vêm, há anos, funcionando como paradigmas para o estudo da
psicose. A partir das memórias do Presidente Schreber, Freud estabelece o estatuto do que
seria o sujeito para a psicose. A partir da obra de Joyce, Lacan reformula sua clínica, criando
a noção de Sinthoma, ampliando o campo de atuação da psicanálise para além do sentido. Não
deixa de ser curioso que os dois casos paradigmáticos da psicanálise para a clínica da psicose
jamais tenham sido atendidos por algum psicanalista. Mais do que como um desmerecimento
para a psicanálise, devemos tomar tal fato como um reconhecimento desta de que a psicose
tem seus caminhos, que, muitas vezes, passam à revelia do psicanalista, mas que, quando o
psicanalista é procurado, é preciso testemunhá-los, acolhê-los, aprender com eles.

Por sua própria insistência, Schreber e Joyce tornaram-se casos, e, por insistência
da psicanálise, tornaram-se casos da psicanálise. Esta, localizada em um furo do saber, furo
não contemplado nem pela religião, nem pela ciência e universidade, ocupou-se dessas duas
exceções, buscando formalizar o que como exceção tinham a nos ensinar.

Este número de Papéis de Psicanálise traz uma pequena amostra do trabalho
desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa em Psicose do IPSMMG em seus pouco mais de sete
anos de existência. Como pudemos ver, a psicose tanto interrogou como ensinou a Freud e a
Lacan, e, a partir dessa constatação, é possível delimitar dois eixos de atuação do núcleo ao
longo desses anos. O primeiro, fazer avançar a clínica psicanalítica das psicoses pela
produção de saber provocada por suas interrogações. O segundo, aproveitar essa faculdade da
psicose de ensinar à psicanálise para que esse mesmo ensino repercuta nas instituições de
Saúde Mental com as quais nos conveniamos na estruturação do núcleo, permitindo que algo
dessa clínica psicanalítica das psicoses mantenha também sua virulência nessas instituições.
Assim, em nosso trabalho, prosseguimos tendo a oportunidade de investigar vários
pontos relativos a essa clínica, buscando a especificidade da psicanálise em sua relação com a
psicose através de seminários teóricos, discussões de caso e apresentações de paciente. Essas
atividades foram sempre desenvolvidas, tendo como assistência não somente os psicanalistas
e alunos do instituto, como também um bom número de funcionários, médicos, psicólogos,
assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e enfermeiros das instituições conveniadas, mais
especificamente a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais e a Secretaria Municipal

de Saúde da Prefeitura de Belo Horizonte através de sua Coordenação de Saúde Mental.
Nos serviços de saúde mental, muito dificilmente encontramos pacientes com a
genialidade de um Schreber ou de um Joyce, e, se essa genialidade existe, ela se faz
silenciosamente. Encontramos, entretanto, pacientes que apresentam suas soluções que
delimitam um campo digno do que Miller nos propõe chamar psicoses ordinárias. Muitas
vezes, deparamo-nos com pacientes delirantes, com delírios pouco produtivos, mas que se
enquadram muito bem em uma clínica do sentido, em que o Outro existe, como em Schreber.
Outras vezes, deparamo-nos com soluções sinthomáticas, tratamentos diretos no corpo, ou
pequenas produções, que nos aproximam da clínica continuísta, em que o Outro não existe,
como em Joyce. Com esses pacientes nem tão extraordinários, o que encontramos são
pequenas invenções, as pequenas invenções psicóticas.

Em nossas reuniões no Instituto Raul Soares da FHEMIG e no CERSAM Noroeste
da PBH, nossa investigação vem-se ocupando em acolher, testemunhar e aprender com essas
pequenas invenções. A cada caso, buscamos encontrar a exceção, a singularidade do caminho
escolhido, e discutir formas de como a instituição pode-se apresentar para viabilizar um
caminho não devastador para cada solução psicótica.

Nesse segundo volume dos Papéis, encontraremos textos que se ocupam de saídas
clínicas singulares, contingências na condução de um caso, manejos institucionais, um pouco
das variáveis presentes na interlocução da psicanálise e da saúde mental. Aqui, os diversos
participantes do Núcleo de Pesquisa em Psicose buscam formalizar um pouco dessa
experiência, no intuito de transmitir aos psicanalistas e demais interessados na clínica das
psicoses as interrogações e a produção de saber que elas provocam.

Restaria agradecer à FHEMIG e à PBH a possibilidade de parceria de trabalho ao
longo de todos esses anos, apostando em sua continuidade.

Henri Kaufmanner
Coordenador do Núcleo de Psicose

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