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Almanaque 09
Índice
Editorial
"Ciência e Arte na transmissão da Psicanálise."
Márcia Rosa
A construção de casos e o real da clínica
"Nota sobre a construção do caso"
Pierre Malengreau
Os relatos psicanalíticos de casos médicos, casos de criança e de toxicomania
"Sobre o caso clínico: uma contribuição à metodologia de pesquisa em Psicanálise"
Suzana Faleiro Barroso.
"Um caso de constipação na neurose obsessiva de uma mulher"
Francisco Paes Barreto (relator)
"O caso clínico na psicanálise com crianças e seus efeitos de transmissão"
Cristina Drummondd
"Considerações sobre a construção do caso na clínica das toxicomanias"
Lilany Vieira Pacheco (relatora).
Casos clínicos e figuras do Outro Institucional
"Construir o caso clínico, a instituição enquanto exceção"
Wellerson Duraes Alkmim
"A construção do caso"
Carlo Viganò
"Pontuação Hum, (A apresentação do caso clínico na instituição)"
Antonio Beneti
A exposição do caso clínico
"Um problema psicanalítico na exposição de um caso clínico"
Pierre Naveau
"A voz inscrita de James Joyce"
Yolanda Vilela
Epistemologia do campo clínico
"O relato de caso, crise e solução"
Éric Laurent
"Da querela à arte do diagnóstico"
Sérgio de Mattos
Questões sobre a publicação
"Deslocamento no domínio das publicações"
Philippe La Sagna
Como Adquirir seu exemplar?
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Editorial
Ciência e Arte na transmissão da Psicanálise.
Ao apresentar suas impressões sobre as apresentações de enfermos conduzidas por Lacan, Jacques Alain Miller retomou o comentário feito por Lacan sobre Clérambault. Com o automatismo mental, esse psiquiatra francês realizou "uma extraordinária simplificação da clínica das psicoses", clínica que ele leu de modo oblíquo, desfazendo entidades que passavam como bem estabelecidas, comenta Miller. [1]
Como se sabe, o "único mestre" de Lacan em psiquiatria era mecanicista -mecanicismo que o discípulo leu com o mecanismo da metáfora, e que não deixou de lhe possibilitar a articulação do simbólico à cibernética de Wiener. No entender de Miller, a proximidade de Clérambault com aquilo que se podia apresentar de uma análise estrutural, fez com que a sua construção fosse lacaniana o bastante para que do seu S se ousasse "(...) fazer a inicial da palavra estrutura (structure). A estrutura desnudada -pelos seus celibatários".
Com a produção do homem de ciência, o procedimento formal de redução de uma síndrome à uma letra, S, operou um corte com o psicologismo, com o sentido e com a referência à personalidade, vigentes na psiquiatria da época, produzindo efeitos que remanejaram o campo clínico -efeitos de criação, portanto. Já com a montagem do artista plástico Marcel Duchamp, "A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo", constatamos que a dimensão mecânica (em certo sentido, estrutural) e as dimensões plástica e poética podem coexistir em uma mesma construção. O savoir y faire do artista, que permite ultrapassar o caráter universalizante e anônimo do discurso da ciência, deixa à mostra o modo singular como cada um se vira com o "não há" da relação sexual. Aí, isso fala, isso goza, e nada sabe.
Assim, é dessa aproximação entre o discurso da ciência e as construções da arte que extraímos o campo no qual nos interessou retomar a discussão do tema: "o caso clínico em psicanálise: construção, apresentação, publicação, etcetera". Se queremos ultrapassar o caráter standard de nossas classificações, faz-se necessário dar lugar aos efeitos de criação na construção e transmissão do campo clínico em psicanálise. Que esses efeitos sejam poéticos e/ou estéticos -introduzindo uma "estetização do sintoma" [2] (Miller) ou mesmo uma "inestética" [3] (Alain Badiou) -, fica por conta da "arte de que cada um é capaz" [4] .
Se é verdade que cada um tem seu estilo próprio de se virar com o objeto, o impossível não deixa de entrar sempre no jogo. O artista deu seu jeito de indicá-lo ao colocar a noiva em parceria com os celibatários, esses uns que não são sequer pretendentes. O discurso analítico também tem seu modo próprio de dizer do objeto, (causa do desejo e mais-gozar), e, em especial, do objeto clínico. É o de que você, leitor, poderá se certificar com os artigos que se seguem.
Márcia Rosa
[1] Miller, J. A. "Enseignements de la Presentation de Malades". Ornicar? n.10, juillet 1977. pp.18-20.
[2] Miller, J A. "El ruiseñor de Lacan". del Edipo a la Sexuación. Bs. As.:Paidós, 2001, p.261.
[3] Badiou, A Pequeno manual de inestética. São Paulo:Estação Liberdade, 2002.
[4] Lacan, J. Joyce, o sinthoma. Seminário inédito, lição de 18/11/1975.

Almanaque 09
novembro de 2003
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