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Almanaque 07 - Ano 04
Índice:
Editorial
Metodologia Científica e Orientação de Monografias
Soluções Psicóticas: O Delírio, A passagem ao ato e a Produção
O mito, a religião e sua relação com a psicanálise
Sobre a devastação: a menina e sua mãe
Editorial
Antonio Beneti
O mundo mudou!
E, nele, o da psicanálise também...
Com repercussões no nível da clínica da direção do tratamento, dos coletivos analíticos e, consequentemente, da própria formação do analista.
Não estamos mais na época do analista silencioso, restrito ao seu cotidiano, na solidão em seu consultório. Em outro Almanaque, fizemos menção ao "analista-cidadão", o analista atento às questões de sua época e participante ativo dos debates da cidade nos vários campos do saber. O momento atual nos traz a questão da formação do analista.
Por um lado, a regulamentação da prática psicanalítica é objeto de estudos e de tratamento político pelo Estado. No caso do Brasil, com propostas de formação e autorização que escapam ao rigor conceitual e sustentam interesses de vários grupos, inclusive os religiosos. É assim, que tramita no Congresso Nacional, um projeto de regulamentação da formação e autorização do analista, sustentado por grupos evangélicos, que têm se dedicado à "formação de analistas" com fornecimento de diplomas. Uma mobilização em nível nacional já se encontra articulada, fazendo obstáculo a tais pretensões. A própria Seção Minas/EBP participa dessa luta e a ela o Instituto irá se somar.
Por outro lado, recentemente na França, um analista da IPA (International Psycoanalisis Association) criticou a formação dos analistas lacanianos e a sua autorização, causando uma resposta de Miller e o desencadeamento de um movimento de articulação dos grupos lacanianos entre si, além de um debate entre lacanianos e analistas da IPA.
As consequências imediatas desse movimento foram sobretudo três: a criação de uma sociedade de estudos lacanianos, composta por analistas de várias instituições lacanianas de Paris; a autorização por parte de Miller, da publicação das estenografias dos seminários de Lacan e um Encontro, com a presença de analistas lacanianos e analistas da IPA francesa, promovido pela revista Ornicar? intitulado Vers la réunification du mouvement psychanalytique - em direção à unificação do movimento psicanalítico.
Enfim, as coisas estão acontecendo e seus reflexos chegarão até nós...
Portanto, torna-se necessário e urgente, que o Instituto verifique sua política e estratégia nesse novo contexto de mudanças e acontecimentos, considerando sempre sua relação com:
1) a Escola, em sua função de "aguilhão" desta;
2) a cidade, como cenário dos efeitos desse novo mundo;
3) com os cidadãos, em suas novas relações com a angústia e o gozo;
4) com os profissionais da dita Saúde Mental, a manejar suas demandas de alívio do mal-estar.
Em recentíssimo evento comemorativo do centenário de nascimento de Jacques Lacan, sobre Psicanálise e Cultura, pudemos testemunhar a preocupação do público não-analista, com relação à participação do analista, no enfrentamento dos problemas da cidade. Perguntas endereçadas aos analistas, que compunham uma das mesas do evento, traziam questões referentes ao urbanismo.
Teríamos, aí, a emergência do significante "analista-cidadão", às voltas com os problemas da cidade, que tocam os cidadãos como sujeitos.
Nosso Instituto já articula esse significante através de seus Núcleos de Investigação, sobretudo no nível de seus convênios com as Instituições inseridas nos campos da saúde mental, medicina, educação e jurídico.
Nesses campos, temos um trabalho efetivo, problematizando, atualmente junto aos trabalhadores da Saúde Mental, questões como o tratamento dado pelo jurídico ao psicótico e ao toxicômano; as relações desses sujeitos com a Lei (no jurídico e no analítico); o "fracasso escolar", a "debilidade mental", e a "educação sexual"; o médico e o "efeito-sujeito" na sua prática, o médico e as "máquinas", a "dessuposição do saber" do médico, etc...
A Diretoria de Ensino têm cumprido bem e aprimorado cada vez mais a transmissão dos conceitos fundamentais da psicanálise, o que é testemunhado pela demanda crescente de candidatos aos seus cursos. É a hora e a vez da Seção Clínica assumir o desafio que se coloca para o Instituto: o da transmissão da psicanálise no campo da extensão e da interlocução dos psicanalistas com a cidade.
Assim, poderia uma Jornada da Seção Clínica do IPSM-MG, constituir-se num "ponto de estofo" conclusivo dessa etapa de trabalho realizado, e, ao mesmo tempo, marcar a abertura e o início de um trabalho orientado a partir das mudanças a que aqui nos referimos?
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METODOLOGIA CIENTÍFICA E ORIENTAÇÃO DE MONOGRAFIAS
Maria das Graças Sena
A proposta fundamental do Curso de Formação em Psicanálise, promovido pelo Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, é que a clínica seja o fio que nos oriente em relação à apresentação, fundamentação, sistematização e formalização da teoria psicanalítica.
A proposta do Instituto, acima explicitada, configura-se como um grande desafio para todos aqueles que se dispõem a investigar a sua prática, à luz da teoria psicanalítica. O próprio Freud, ao apresentar o caso Dora,1 nos fala das dificuldades que encontra para a apresentação do mesmo:
"Descreverei agora o modo como superei as dificuldades técnicas de elaborar o relatório desta história clínica. As dificuldades são muito consideráveis quando o médico tem de realizar seis ou oito tratamentos psicoterapêuticos dessa natureza num só dia, e não pode tomar notas durante a sessão em vigência com o paciente, pelo receio de abalar a confiança dele e perturbar sua própria visão do material sob observação. Na verdade, ainda não consegui solucionar o problema de como registrar para publicação a história de um tratamento de longa duração". (FREUD, 1905:07)
Dessa forma, há que se considerar que o trabalho escrito, a ser apresentado no final do curso, deverá ter a clínica como seu eixo norteador, além de cumprir as exigências que são específicas de um trabalho de cunho científico.
Para isso, torna-se necessário que o aluno do Instituto, no momento da elaboração de seu trabalho final, esteja atento às normas e referências que configuram um trabalho acadêmico, tanto no que se diz respeito ao conteúdo trabalhado, quanto à forma de apresentação do mesmo.
Cuidados e exigências de um trabalho científico
Alguns princípios que fundamentam a disciplina Metodologia Científica poderão nos servir de referência na elaboração de um trabalho acadêmico. Há que se considerar a especificidade que envolve cada trabalho e, principal-mente, o estilo pessoal que marca a produção de cada um de nós. Nesse sentido, as notas abaixo não têm a pretensão de servir como modelo mas, apenas, como referências que podem facilitar a elaboração da monografia de final de curso.
Umberto Eco, em sua obra Como se faz uma tese (1983)2, pondera que a precisão na escolha do tema, ou seja, a delimitação do objeto a ser investigado, constitui uma das principais etapas no processo de elaboração de um trabalho científico. Esse autor nos chama atenção para os riscos que se corre de se fazer uma tese panorâmica:
"A primeira tentação do estudante é fazer uma tese que fale de muitas coisas. [...]Teses desse tipo são perigosíssimas. [...] quanto mais se restringe o campo, melhor e com mais segurança se trabalha". (ECO,1983:7-10)
Por outro lado, as condições concretas, que o aluno tem para fazer o trabalho, constituem um ponto de referência para a tomada de decisões. Dentre essas, a familiaridade com o tema selecionado, a profundidade com que se pretende investigá-lo e, principalmente, a disponibilidade de tempo para investir na elaboração do trabalho - tendo em vista o prazo definido pela instituição para a entrega do mesmo - são pontos essenciais a serem considerados pelo aluno. A não-consideração de qualquer um desses itens pode inviabilizar a concretização do trabalho.
Também a figura do orientador - como um leitor provável e, conseqüentemente, um interlocutor privilegiado - constitui uma peça fundamental na elaboração de uma monografia. Segundo ECO (1983:15):
..."uma boa tese deve ser discutida passo a passo com o orientador, nos limites do possível. E não para lisonjear o mestre, mas porque escrever uma tese é como escrever um livro, é um exercício de comunicação que presume a existência de um público: e o orientador é a única amostra de público competente à disposição do aluno no curso de seu trabalho".
A definição do objeto a ser identificado deverá estar articulada com a questão da acessibilidade das fontes. É preciso saber onde podem ser encontradas, se são facilmente acessíveis e se o pesquisador está em condições de manipulá-las. Por exemplo, a falta de domínio da língua estrangeira, na qual essas se apresentam, pode constituir um impedimento concreto para a realização do estudo.
Outro ponto que deverá ser bastante enfatizado no início da redação do trabalho é, sem dúvida, a necessidade de se explicitar a quem está endereçada a leitura do trabalho. O leitor imaginário definirá tanto a forma expositiva, quanto a clareza e profundidade das idéias expostas.
Lacan, na Abertura dos Escritos3, explicita o que se espera de um leitor (que também ele se implique nesta tarefa):
"Queremos, com o percurso de que estes textos são os marcos e com o estilo que seu endereçamento impõe, levar o leitor a uma conseqüência em que ele precise colocar algo de si". (LACAN,1998)
Após ser definido a "quem" se escreve, cabe agora decidir "como" se escreve. O rigor científico exige que citações de autores sejam transcritas de uma forma diferenciada, a fim de se evidenciar o uso que se faz de suas idéias e, dessa forma, evitar que seja configurada uma situação de plágio.4
O mesmo autor aconselha que uma das primeiras coisas a se fazer para começar a trabalhar numa tese (o que pode-se estender também para a elaboração de uma monografia), é escrever o título, a introdução e o índice final:
- quanto à elaboração do título, ainda que seja provisório, esse poderá explicitar que ponto específico você pretende abordar na área temática já selecionada previamente. Assim, o título, que pode algumas vezes ser transformado em pergunta, torna-se parte essencial do plano de trabalho;
- a elaboração de uma introdução tem como objetivo a organização e a estruturação de algumas idéias que deverão nortear o desenvolvimento da temática propriamente dita. Ainda que ela se constitua em um ponto de partida para a elaboração do trabalho, sendo, provavelmente, revisada e modificada diversas vezes, servirá para mostrar ao orientador o que se pretende fazer e, principalmente, para demonstrar se as idéias já estão organizadas;
- quanto ao índice, Umberto Eco ainda recomenda:
"Melhor ainda se ele for um sumário onde, para cada capítulo, se esboce um breve resumo. Assim fazendo, esclarecerá para você mesmo o que tem em mente. Em segundo lugar poderá propor um projeto compreensível ao orientador. Em terceiro lugar, verá se suas idéias já estão suficientementes claras". (IDEM: 81/82)
Diante dos argumentos de alguns que questionam a provisoriedade que acompanha a elaboração desses itens, esse autor jusitifica que estas estratégias servem para definir o âmbito da tese:
"Objetar-se-á que, à medida que o trabalho avança, esse índice hipotético se vê obrigado a reestruturar-se várias vezes, talvez assumindo uma forma totalmente diferente. Certo. Mas a reestruturação será mais bem feita se contar com um ponto de partida". (ECO,1983:81)
Assim, a elaboração de um plano de trabalho, contendo uma proposta de estruturação do mesmo, é uma condição básica para que seja possível se produzir um trabalho científico com uma certa racionalidade e, conseqüentemente, com economia de tempo e investimento. Além disso, quando bem elaborado, o conteúdo desse projeto poderá ser aproveitado no corpo do trabalho.
Como ilustração pode-se pensar em alguns itens que deverão constituir esse plano,
- a temática a ser investigada, ou seja, a delimitação do objeto de estudo;
- uma justificativa explicitando o significado e a importância de tal investigação;
- alguns objetivos que se pretende alcançar ao realizar esse estudo;
- as estratégias metodológicas que se pretende utilizar para a realização do mesmo;
- uma bibliografia básica que constituirá o ponto de partida e uma referência teórica para a pesquisa;
- o cronograma, explicitando uma previsão de quanto tempo será necessário para cada tarefa, objetivando, assim, o término do trabalho no prazo estabelecido pela coordenação do curso.
As recomendações acima expostas significam apenas uma tentativa de se realizar um trabalho científico, mas não estão baseadas, de forma alguma, na ilusão de se realizar um trabalho que não tenha imprecisões e equívocos. Pelo contrário, um trabalho científico deverá nos possibilitar a problematização de nossa prática, sem que isso se configure numa pretensão de esgotar a sua formalização.
Lacan, no Seminário 5,5 no capítulo referente à Transferência e Sugestão, nos oferece valiosas referências relativas à questão metodológica:
"Às vezes é mais importante sustentar o problema levantado do que resolvê-lo. Não há absolutamente nada de obrigatório em fazermos uma idéia qualquer de uma possível solução da questão proposta. Essa questão talvez seja a questão central, a questão aquém da qual estamos sempre condenados a ficar, a que constitui o ponto axial. Convém que exista em algum lugar, porque onde quer que nos coloquemos para considerar que todas as questões foram resolvidas, restará sempre a questão de saber por que estamos ali - como foi que chegamos ao ponto onde tudo fica claro?" (LACAN,1958:99)
Finalmente, além do desejo de produzir um trabalho que tenha um sentido em nossa formação, se consideramos uma ética da e na Psicanálise, temos a convicção de que todos somos responsáveis pela sua transmissão e que cabe a nós colocar nossa prática para ser problematizada e formalizada, a fim de que tenhamos a oportunidade de avançar em nossa clínica.
NOTAS:
1. FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas. Rio de Janeiro: Imago, vol.VII, 1976.
2. ECO, U. Como se faz uma tese. São Paulo: Perspectiva, 1983.
3. LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1998.
4. A citação de referências bibliográficas, assim como outras exigências de um trabalho acadêmico, deverão seguir as normas estabelecidas em manuais da Associação Brasileira de Normas e Técnicas (ABNT).
5. LACAN, J. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.
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SOLUÇÕES PSICÓTICAS:
O DELÍRIO, A PASSAGEM AO ATO E A PRODUÇÃO
Helenice Saldanha de Castro
Podemos dizer que existe, nas psicoses, uma fronteira entre a enfermidade propriamente dita e as tentativas de solução produzidas pelos sujeitos para o tormento causado pelos fenômenos que tal enfermidade produz2. As soluções encontradas pelos psicóticos seguiriam duas grandes vertentes: aquela que lança mão de um simbólico como suplência e uma outra que procede de uma operação do real sobre o real do gozo, não articulado nas redes da linguagem.
Em Schreber, encontramos o clássico exemplo da solução buscada pela vertente significante, onde a escritura de uma atividade delirante permite a construção de uma ficção que conduz o sujeito até um ponto de estabilização. O gozo em excesso encontra um sentido e uma legitimação na tarefa de ser o responsável pela criação de uma humanidade futura. Na impossibilidade de realizar a significação fálica, devido à forclusão do Nome-do-Pai, aparecerá uma significação de suplência: ser A mulher de Deus.
Na segunda vertente, aquela do tratamento do real pelo real, localizaríamos as passagens ao ato auto ou heteromutiladoras, em que o ato, em proporção à falta de eficácia da castração, emerge como tentativa de se produzir uma negativização do gozo. Mas, ainda nessa segunda vertente, além das passagens ao ato, podemos também incluir a produção de objetos que buscam condensar o gozo.
Se temos em Schreber, como já vimos, o paradigma da solução psicótica pela vertente simbólica através da construção de uma cadeia de significações, é com os escritos de James Joyce que veremos o significante ganhar o estatuto de real com sua "letrificação" e com "uma verdadeira forclusão do sentido".3 O escrito, em Joyce, "exatamente por assassinar o Outro do sentido", passa a ter a função de objeto que se impõe como real, agindo como localizador de gozo, lá onde o Nome-do-Pai se encontra forcluído.
Encontramos, nesses dois exemplos paradigmáticos, os extremos das soluções tomadas pelo psicótico para tratar o real, lembrando, porém, como nos diz Elisa Alvarenga em seu texto O trabalho criativo e seus efeitos na clínica da psicose, que "entre o excesso de significação de Schreber e a falta de sentido em Joyce, teremos toda uma gama de exemplos onde, em cada caso, a solução encontrada é particular".4
A lógica do delírio5
Partindo do conceito de delírio, que o ensino de Lacan permitiu formalizar como "um processo de significação pelo qual o sujeito busca elaborar e fixar uma forma de gozo para ele mais aceitável",6 procurarei aqui demonstrar, seguindo de perto as elaborações de Jean Claude Maleval, a lógica existente no delírio e sua estrutura evolutiva.
Segundo Maleval, será possível depreender do ensino de Lacan uma lógica do delírio que se desenvolveria em quatro fases. Os quatro períodos do delírio serão detalhados tomando, entre outras referências, a elabo-ração que aparece no texto De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1955-56), sobre a redenção de Schreber. Ali, Lacan nos diz que, de um horror inicial à idéia de ser mulher, Schreber acaba aceitando tal idéia quando esta se torna um compro-misso razoável, gerando, posterior-mente, a decisão irreversível de uma possível e futura cópula com Deus, para que uma nova humanidade seja criada.
Os quatro períodos demarca-dos serão nomeados a partir do que cada um deles manifesta de específico. O primeiro será aquele da deslocalização do gozo e da perplexida-de angustiante; o segundo marcará uma tentativa de significação do gozo do Outro; no terceiro, buscar-se-á uma identificação do gozo do Outro, para, na quarta e última fase, tornar-se possível um consentimento ao gozo do Outro.
Deslocalização do gozo e a perplexidade angustiante
Nesse primeiro período, dito de incubação, marcado por inquietude e perplexidade, encontraremos duas características principais: o desen-cadeamento do significante e a deslocalização do gozo.
Com a ruptura inicial da cadeia significante, o psicótico assiste, espantado, a uma emancipação de seu pensamento, que ele não reconhece mais como sendo seu. Isso, que se coloca a falar sozinho, foi classificado, por Clérambault, como um fenômeno de automatismo mental, e não é raro constatarmos, no início de uma crise psicótica, uma progressiva autonomia da enunciação.
A origem, então, do sentimento de perplexidade, tão característico dessa fase, pode ser localizada exatamente na autonomia que o significante adquire, onde o sujeito não se vê como autor de seus próprios enunciados.
Já em relação à deslocalização do gozo, veremos como o corpo do psicótico, nessa fase, se presta a sediar uma série de fenômenos diversos, que poderão ser agradáveis ou penosos, voluptuosos ou agonizantes. Encontraremos, inclusive, as queixas hipocondríacas como sinal da entrada na psicose.
Antes do fim de 1893, Schreber apresen-ta um esgotamento nervoso, invadido por crenças hipocondrí-acas. Seria preciso esperar alguns meses, até o início de 1894, para que a intuição segundo a qual "seria belo ser uma mulher na hora da copulação", surgida desde o verão de 1893, ganhasse um sentido. Essa significação enigmática emerge no real e vem perturbar o sujeito. Tal pensamento, para um homem de moralidade austera, só pode lhe parecer incongruente e inacei-tável. A estranheza em relação à consciência do sujeito é fruto da autonomia do signifi-cante no real, e o gozo, aí desenfreado, apresen-ta-se naquela imagem surgida na intuição do "seria belo".
Portanto, desde a origem de seus problemas, o presidente Schreber nos orienta em direção aos fundamentos estruturais da psicose. Sabemos que serão precisos longos anos de trabalho do significante para criar formações imaginárias que tornem aceitável a enigmática intuição inicial e que permitam realizar, então, uma precária limitação do gozo.
Significação do gozo deslocalizado
Com o objetivo de deter a angústia extrema vivida pelo sujeito no desencadeamento da psicose, um trabalho de mobilização do significante desenvolve-se, tornando possível ao delirante construir uma explicação própria para justificar o que o invade.
Em Schreber, vemos uma primeira tentativa de significação do gozo deslocalizado ao atribuir a origem da intuição por ele vivida no verão de 1893, ou seja, de como "seria belo ser uma mulher", a um complô planejado contra ele pelo professor Flechsig. Verificamos, porém, que essa primeira tentativa se mostraria ineficaz para suprimir a angústia, pois deixa o sujeito à mercê das iniciativas de um perseguidor todo-poderoso. Se tal problemática não fosse modificada, Schreber seria forçado a permanecer numa queixa paranóide sem saída.
O presidente passa, então, a uma outra construção, em que a figura de Deus assume o lugar central. Ele diz: "só muito mais tarde foi que me ocorreu a idéia de que o próprio Deus havia desempenhado o papel de cúmplice, senão de instigador, na conspiração em que minha alma deveria ser assassinada e meu corpo usado como o de uma rameira". Foi necessário que uma tal hipótese fosse elaborada para levá-lo a "buscar um compromisso razoável", que é o que caracteriza essa segunda fase. A eviração só se tornaria aceitável a partir do momento em que fosse reconhecida como servidora dos desígnios de Deus. Ela implica passar por um sacrifício, testemunhado pela morte do sujeito.
Segundo Lacan, a interpretação edipiana feita por Freud do caso Schreber não lhe permitiu localizar o momento da morte do sujeito. Freud, ao acreditar que por trás das figuras criadas por Schreber estaria, na verdade, a figura paterna, situa a virada decisiva do caso na metamorfose do perseguidor: aquela que eleva Flechsig ao lugar de Deus. Daí em diante, o que era impossível de ser aceito por Schreber, a saber, "comprazer-se no papel de uma prostituta livre para o seu médico", torna-se aceitável através da "tarefa que lhe foi imposta, de dar a Deus a volúpia que Ele procurava". Lacan, diferentemente de Freud, localiza na dimensão do sacrifício o ponto de reversão da posição de indignação do Presidente. Tal sacrifício, tomado como um compromisso pelo sujeito, implica uma renúncia fálica.
A morte do sujeito, portanto, coloca em jogo uma negativização do gozo na psicose, graças à qual uma nova articulação significante se tornará possível. A partir daí, o sujeito psicótico não mais terá uma atitude passiva em relação às mensagens que lhe chegam do real, podendo, então, tornar-se o organizador daquilo que o invade.
Identificação do gozo do Outro
O gozo do Outro encontra-se desde então identificado, quer dizer, assentado no significante, que dará ao sujeito uma certa base para que ele se faça o organizador do que lhe chega. Porém, no seio do delírio que se sistematiza, um eco da violência operada pelas iniciativas do Outro subsiste e se traduz por intermédio de perseguidores que se encontram agora localizados.
A aceitação da feminilização progressiva em Schreber não implicou, entretanto, o desapare-cimento do sentimento de que uma violência lhe estava sendo infligida. Nesse terceiro período, Schreber ainda não pára de se sentir perseguido.
Consentimento ao gozo do Outro
Ao chegar nessa última fase do delírio, o psicótico não sofrerá mais das inquietações que o atormentavam até o período precedente. O sujeito não se sentirá mais perseguido, encontrando-se de pleno acordo com a nova realidade por ele construída. O consentimento ao gozo do Outro se dará a partir da certeza de que um saber essencial foi adquirido, saber esse que, na maioria das vezes, o psicótico acredita ter-lhe sido transmitido por uma toda-poderosa figura paterna, da qual ele se torna porta-voz ou até mesmo sua encarnação. O acesso a esse saber supremo ocorrerá de forma inseparável do desenvolvimento de temas megalomaníacos e do surgimento de construções fantásticas.
Maleval situa o início dessa última fase do delírio de Schreber no ano de 1897. O autor nos diz que o drama do sujeito se torna, então, o "motivo futuro de uma redenção interessante do universo", e, ao término de sua feminilização, é realizada a eviração, seguida por nada menos do que sua fecundação pelos meios divinos, com o objetivo de gerar "novos homens feitos do espírito de Schreber". A convicção ligada a esse tema fantástico aumenta, à medida que o sentimento persecutório diminui. A redação das Memórias, entre 1900 e 1902, e sua publicação em 1903 são a obra não mais de um paranóico perseguido, mas de um parafrênico que considera ter contribuído para "o triunfo grandioso da ordem do universo".
É importante ressaltar aqui algumas observações de Maleval. Ele nos alerta para o fato de que se alguns psicóticos chegam a elaborar uma defesa paranóide, outros não passarão de uma tentativa de construção delirante desordenada, enquanto raros serão aqueles que atingirão um apaziguamento parafrênico, como se deu com Schreber.
A passagem ao ato
Sabemos que, no período inicial de sua psicose, Schreber, invadido pelas alucinações e tentando escapar a um gozo desregulado, busca várias vezes a própria morte. A saída por ele encontrada, como vimos, é a construção delirante, na qual um sacrifício vem instalar uma negativização do gozo, permitindo que um ponto de estabilização seja alcançado. Porém, na clínica, encontramos com freqüência sujeitos que, diante da impossibilidade de produzir tal negativização do gozo através de um sacrifício inserido no trabalho do delírio, são levados a colocar em ato sacrifícios reais, como os suicídios, os assassinatos e as automutilações.
No célebre caso de Pierre Rivière, foi a imposição de um sacrifício, segundo Jean Claude Maleval,7 não possível de ser manejado pelas vias significantes, que levou esse sujeito a cometer o matricídio. Pierre Rivière relata de forma detalhada as razões que o conduziram, no dia 3 de junho de 1835, a assassinar a mãe, a irmã e o irmão mais novo. A mãe é descrita como uma mulher sem limites, que perseguia incessantemente seu marido.
Antes dos assassinatos, Rivière apresentava um delírio no qual a crença de que um fluido fecundante, que escapava sem cessar de seu corpo, poderia levá-lo a responder por crimes de incesto e outros ainda mais revoltantes. Tal crença fazia com que se afastasse das mulheres, causando-lhe horror qualquer proximidade maior da mãe, da avó e da irmã. Vemos, portanto, como a carência paterna deixou esse sujeito sem proteção diante da angústia do objeto incestuoso.
Em seu caso, será na A mulher, encarnada nessa figura materna que não dá paz ao pai, que se apresentará o Pai Gozador. Surge, então, a idéia de livrar o pai dos entraves que o impediam de estar à altura de sua função, ou seja, de enfrentar o gozo caprichoso e sem lei daquela mulher. Rivière, assim, golpeia a mãe, porque ela perseguia o pai, depois atinge a irmã, pois esta tomava sempre o partido da mãe nas querelas familiares, e, por fim, assassina o irmão. A morte deste último é justificada pelo fato de que o irmão mais novo era o filho dileto do pai e, com tal ato, o pai passaria a odiar Rivère e a desejar sua morte.
Maleval nos diz que esses homicídios foram cometidos a partir do saber de Rivière de que "para se separar de um objeto muito angustiante, para instaurar um corte pacificador, para fazer surgir um Pai segundo a lei, um sacrifício se impõe".8 O destino de Rivière não se distingue muito daquele dado a sua mãe, a sua irmã e a seu irmão. Ele escreve: "se eu não posso libertar meu pai, que eu morra por ele".9
Nesse caso, o delírio não pôde criar anteparos que impedissem o sujeito de passar ao ato. Podemos interrogar, então, se o delírio, ao produzir elaborações de sentido fechadas e inquestionáveis, não levará muitas vezes o sujeito a buscar uma saída pelo ato.
Na clínica da psicose, assim, a interpretação não é o que guia a prática do analista e, se há interpretação, será o próprio psicótico que se ocupará dela. Mas, como nos alerta Alfredo Zenoni,10 essa interpretação que se dá através da produção de significações pertencerá ao tempo de compreender e tenderá, mais cedo ou mais tarde, para um momento de conclusão que pode, com alguma freqüência, ocorrer através da passagem ao ato.
Se, em Schreber, acom-panhamos uma elaboração de sentido que produziu uma estabilização, foi porque, como aponta Lacan, o momento de concluir ganhou um caráter assintótico, ou seja, o momento da fecundação dele por Deus, com fins de gerar uma nova humanidade, foi adiado a um mais-além indeterminado. Podemos lembrar, também, que Maleval localiza essa estabilização na última fase da construção delirante, aquela na qual ocorrerá uma "parafrenização" do psicótico, o que, segundo o autor, é raro de se encontrar na clínica.
Portanto, diante da elaboração de saber produzida pelo psicótico, é melhor, indica Zenoni,11 que o clínico permaneça discreto, não incentivando seu desenvolvimento. A proposta será, então, de um investimento num outro plano da linguagem, aquele onde o significante possa ser tomado como real. Nesse plano, as práticas que se fazem na borda do sentido, impedindo o sujeito de abordar a zona do sentido, serão encorajadas. Dentre tais práticas, que são inúmeras, podemos citar, a título de exemplo, as palavras cruzadas, a internet, a matemática, o dicionário, onde o significante poderá aparecer de forma isolada, não produzindo, como disse acima, elaborações de sentido fechadas. Tal orientação clínica apontará que - ao evitarmos um tratamento do gozo no real através das passagens ao ato - possamos encontrar derivativos do tratamento do gozo pelo real, no qual acredito ser possível encaixar as produções do psicótico.
A produção
Na neurose, o objeto de arte criado, criação essa que poderemos chamar de "sublimação", se dará a partir do ponto de vazio deixado pela castração. Na psicose, ao contrário, a criação buscará fazer nascer algum esvaziamento, canalizando o gozo real e invasivo que não pôde ser negativizado devido à ausência da operação de castração. Se na neurose tal criação promoverá laço social, dando ao gozo mais íntimo uma dimensão universal, na psicose, muitas vezes, o objeto criado terá a dimensão de puro pedaço de gozo, inassimilável, não-analisável e absolutamente singular em relação ao sentido, não fazendo série.
Dessa forma, a criação ou a produção do sujeito psicótico poderá, às vezes, ser localizada no plano onde o significante será tomado como real, não fazendo cadeia, e, portanto, não produzindo sentido, mas isolado, ganhando aí um estatuto de letra, de número ou de objeto.
Dentro dessa proposta, cabe a indicação de que não se trata de encorajar o paciente a fazer algo artificialmente, mas de detectar alguma tentativa que o próprio sujeito esboce, incentivando um trabalho que o psicótico já tenha iniciado e que, na avaliação do analista, tenha chances de construir vetores de reorientação do gozo. Porém, apesar de "parecer evidente que a atividade criativa tenha efeitos na clínica da psicose, trata-se de ver, caso a caso, quais são esses efeitos".12
NOTAS:
1. Este texto foi apresentado no seminário de abertura do Núcleo de Pesquisa em Psicose, fruto do convênio do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais com a Secretaria Municipal de Saúde de B.H., que funciona quinzenalmente no CERSAM-Noroeste.
2. Cf. SOLER, C. El trabajo de la psicosis: Estudios sobre las psicosis. Buenos Aires: Manancial, 1989.
3. SOLER, C. El trabajo de la psicosis: Estudios sobre las psicosis, p18.
4. ALVARENGA, E. O trabalho criativo e seus efeitos na clínica da psicose: Curinga, n.13, p.119.
5. Ver MALEVAL, J. C. Logique du délire. Paris: Masson, 1996.
6. MALEVAL, J. C. Logique du délire, p.51.
7. Cf. MALEVAL, J. C. Parricide et forclusion du Nom-du-Père: Le souci de l'etre.
8. MALEVAL, J. C. Parricide et forclusion du Nom-du-Père: Le souci de l'être, p.89.
9. MALEVAL, J. C. Parricide et forclusion du Nom-du-Père: Le souci de l'être, p.89.
10. Ver: ZENONI, A. Revista de saúde mental do Instituto Raul Soares, n.0. Belo Horizonte: Abre Campos, 2000.
11. Cf. ZENONI, A. Revista de saúde mental do Instituto Raul Soares, n.0.
12. ALVARENGA, E. O trabalho criativo e seus efeitos na clínica da psicose: Curinga, n.13, p.119.
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(Texto de participante do Curso de Formação em Psicanálise)
O mito, a religião e sua relação com a psicanálise
Alessandra Tomaz Rocha
A estrutura fundadora da cura
Freud abriu caminho para um amplo debate entre psicanálise e religião, psicanálise e antropologia, psicanálise e literatura, à medida que "evidenciou uma analogia entre os mitos fundadores, os relatos romanceados modernos, os sistemas delirantes ou religiosos e um mecanismo fantasístico de natureza subjetiva".1
Lévi-Strauss foi o primeiro antropólogo de língua francesa a ler e comentar Freud. Partindo de uma abordagem estrutural da antropologia, considera as teorias antropológicas como mitologias comparáveis aos mitos elaborados pelo pensamento selvagem. Dentro dessa orientação, estabelece uma analogia entre a técnica de cura xamanista e o tratamento analítico. Ele compara, em seu texto A eficácia simbólica,2 a figura do xaman à figura do psicanalista, dizendo-nos que no caso da psicanálise, trata-se de um mito que o sujeito deve construir a partir de elementos fornecidos pela sua história pessoal; portanto trata-se de um "mito individual". No caso do xamanismo, um mito social seria narrado pelo xaman ao paciente e este iria reviver os acontecimentos de uma forma mítica, através da fala do xaman. Neste caso o paciente só escutaria. Ou seja, no xamanismo "o feiticeiro fala e provoca a ab-reação, isto é, a liberação dos afetos do enfermo, ao passo que na psicanálise esse papel cabe ao médico que escuta, no bojo de uma relação na qual é o doente quem fala". Além dessa comparação, Lévi-Strauss mostrou que, nas sociedades ocidentais, havia uma tendência a construir-se uma "mitologia psicanalítica" que fizesse, às vezes, de sistema de interpretação coletivo: "Assim, vemos despontar um perigo considerável: o de que o tratamento, longe de levar à resolução de um distúrbio preciso, sempre respeitando o contexto, reduza-se à reorganização do universo do paciente em função das interpretações psicanalíticas". Se a cura, portanto, sobrevém através da adesão a um mito, agindo este como uma organização estrutural, isto significa que esse sistema é dominado por uma eficácia simbólica".3
Podemos perceber que esse autor dá a sua devida relevância à função do mito, pois nos diz que este tem um papel central na cura e que se trata, em ambos os exemplos citados, de um "mito fundador da cura". Lévi-Strauss, com isso, faz uma aproximação entre a estrutura da psicanálise e a estrutura da "religião". Portanto, até aqui, parece que a psicanálise e a religião têm mitos fundadores em comum que, por sua vez, são mitos do pai.
Os mitos religiosos e a castração como punição
Os mitos religiosos cristãos são metáforas sobre o pai e estão dispostos como ensinamentos, como leis de Deus, do "Deus-pai". É o que poderemos perceber na Bíblia, (Gn 10-11),4 através do mito da Torre de Babel.
Nesse mito, a diversidade das línguas é uma forma de punição do homem pela infração à lei divina.
De acordo com Isaías Pessotti,5 na antigüidade clássica os deuses eram sentimentais como os homens, eram deuses caprichosos, pois, irritavam-se, zangavam-se quando os homens queriam se assemelhar a eles, tentando superar seus próprios limites. Uma das formas de demonstrarem sua irritação era retirar do homem sua razão, seu entendimento. A punição era a loucura.
Podemos perceber, aqui, uma proximidade entre as concepções do pai que os mitos religiosos nos trazem. No mito de Babel, quando Deus vem à terra e confunde os homens, multiplicando a língua deles, parece que esse, é também um Deus sentimental que, não suportando a pretensão dos homens, castiga-os. De acordo com os ensinamentos míticos da Bíblia sagrada,6 quem cometer um pecado será castigado pelo Deus-pai; quem infringir a lei de Deus, será condenado.
Assim, tanto nos mitos religiosos como nos mitos freudianos, uma interdição é operada pelo pai. Essa proibição funda uma lei que, por sua vez, é garantida através de uma ameaça ou castigo. Entretanto, será que poderíamos pensar, na psicanálise, que o que operaria a castração seria uma ameaça de punição ou um castigo? Parece que não, e é isso que Lacan vai tentar nos transmitir, ou seja, como é veiculada a castração pelo simbólico.
Nos mitos religiosos, a castração é transmitida como uma forma de punição. Ora, punir resolve o problema da culpa, mas não resolve o problema do gozo, que também está implícito no pecado. Os pecados são marcados por um excesso, um exagero do investimento ou desinvestimento libidinal em determinados "objetos". É o que podemos perceber através dos sete pecados capitais: inveja, ira, gula, luxúria, soberba, avareza e preguiça. Todos eles são marcas do real da pulsão, do gozo.
O mito individual do neurótico: um artifício
Para Lacan,7 "existe no seio da experiência analítica algo que é, propriamente falando, um mito". Entretanto, Lacan vai tratá-lo como um "artifício"8 para se transmitir a verdade, verdade essa que não pode ser "toda" dita. Desta forma ele resgata a importância do simbólico através do recurso à lingüística e ao estruturalismo, e concebe o inconsciente estruturado como linguagem. É a partir dessa concepção que Lacan irá reler o conceito freudiano de castração, retomando sua lógica desde o registro simbólico, o que lhe permitirá ir mais além do mito e articular as questões colocadas pelo gozo, na dimensão do real. Se, por um lado, os mitos são metáforas que nos facilitam a compreensão do impasse sexual, por outro, Lacan nos mostra que eles são insuficientes para abordar a perda de gozo gerada pela entrada do simbólico na assunção, pelo sujeito, de seu sexo, uma vez que não são capazes de conter o que diz respeito à pulsão.
O mito da libido: uma variante do mito do pai
Miller nos diz9 que o mito pulsional, na psicanálise, conta uma outra história, diferente do mito do pai. "O mito pulsional é como uma variante do mito paterno, que não nos conta somente o roubo da libido, de como ela teria sido roubada, transportada de um corpo que desde então fica condenado ao deserto de gozo, o mito pulsional fala das migrações da libido".
Nesse mesmo texto, Miller nos faz a seguinte alegoria:
"A Libido, uma vez roubada, transportada, não morreu enfim na prisão onde a mantinha o Pai. A Libido não morreu, mas se fez nuvem, água, riacho, inundação. Eu a derramei, depositei-a, diz o Pai, no tonel que eu possuo das Danaides, e ela está aí protegida. Mas nós sabemos aquilo que ele não sabia - que aquele não era um tonel que poderia contê-la. Não vês tu, Pai, que eu escapo, vazo, escôo, que eu acendo o incêndio? Não, o Pai não via que Libido se ia, e que no deserto mil oásis floresciam. O Pai acreditou ter sido enterrado junto com a Libido. E o sujeito também acreditou - que o Pai a possuía, segurava-a contendo-a na morte. Durante esse tempo, a Libido se metabolizara alegremente sem que ninguém a reconhecesse. E o sujeito estava feliz , e não sabia."
Essa bela alegoria nos mostra que o recurso ao mito, o recurso ao simbólico, ao falo, como um elemento apenas significante, não foi suficiente para abordar a libido. Lacan criou o conceito de objeto a para tentar dar conta das questões veiculadas pela libido freudiana, que o conceito de falo deixa de fora. Então, falo e objeto a, são duas modalidades da libido freudiana descritas por Lacan, com a diferença que uma é significante (falo) e a outra é não-significante (objeto a).10
Talvez seja por isso que Miller tenha dito,11 que "o objeto a é o segredo do mito de Babel".
Poderíamos pensar que, se o objeto a veicula o real do gozo implícito na castração, na lei simbólica, que se o objeto a, portanto, constitui-se como causa do desejo, ele é a causa também da pluralidade das línguas, é o que permite aos homens desejar. Então, podemos supor que a perda de gozo introduzida pela multiplicidade das línguas é o ponto que marca a castração operada por "Deus" no mito de Babel, que Deus seria, aqui, um dos nomes do real, no mundo dos homens. Parece que é como se o "Deus-Pai", o real, surgisse para mostrar que não existe o Uno, o absoluto neste mundo.
"O pai", aquele que teria o suposto saber-absoluto, que seria o pai universal, uno, não existe. O Nome-do-Pai, para Lacan, é o "exercício de uma nomeação que permite ao sujeito adquirir uma identidade",12 é apenas uma função, um lugar, uma posição, um "significante mudo, uma letra que nada sabe nem pode pronunciar".13
Se nos restringíssemos, a partir do texto freudiano, aos mitos, estaríamos então nos aproximando de um delírio, como o da religião. Contudo, como a religião não leva em conta o inconsciente, o pulsional, o que há de real nos mitos, ela se distancia da psicanálise.
NOTAS:
1. ROUDINESCO, E. e PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
2. STRAUSS, C-L. A eficácia simbólica (1949): Anthropologie Structurale, Paris: Plon, 1958, cap. 10, p. 205-226.
3. ROUDINESCO, E. e PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
4. BÍBLIA sagrada. Aparecida: Editora Santuário, 1986.
5. PESSOTTI, I. A loucura e as épocas. 2º Edição, Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
6. BÍBLIA sagrada. Aparecida: Editora Santuário, 1986.
7. LACAN, J. O Seminário, livro 8: A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
8. LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
9. MILLER, J-A. Petite introduction à l'au delà de l'Oedipe: Revue de la Cause Freudienne, n.º 21.
10. MILLER, J-A. O corpo e seu elemento de vida,(Silet, lição de 17/05/95 ): Correio; As Palavras e os Corpos, n.23/24, julho de 1999.
11. MILLER, J-A. Lógicas de la vida amorosa. Buenos Aires: Ed. Manantial,1991.
12. ROUDINESCO, E. e PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
13. MILLER, J-A. Comentário del seminário inexistente. Buenos Aires: Ed. Manantial, 1992.
BIBLIOGRAFIA
1. MILLER, J-A. O osso de uma análise: Revista Agente. Salvador, BA. Biblioteca, 1998.
2. LACAN, J. O Mito individual do neurótico: O mito individual do neurótico, Lisboa: Assírio e Alvim. Coleção pelas bandas da psicanálise, 2, 1980.
3. LACAN, J. O Mito Individual do Neurótico: Revista Falo, n.1. Salvador: Ed. Fator, 1987.
4. LACAN, J. A significação do falo: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
5. LAPLANCHE ET PONTALIS. Vocabulaire de Psycanalyse. Paris: Puf, 1971, p.1.
6. STRAUSS, C-L. A estrutura dos Mitos (1955): Anthropologie Structurale, Paris: Plon, 1958, cap. 11, p. 227-255.
7. STRAUSS, C-L. O feiticeiro e sua magia: Anthropologie Structurale, Paris: Plon, 1958, cap. 9, p.183-203.
8. FREUD, S. Moisés e o monoteísmo. Ed. Standard Brasileira das Obras Psicológicas de Freud. Rio de Janeiro: Imago Ed., Vol.23.
9. FREUD, S. Totem e Tabu. Ed. Standard Brasileira das Obras Psicológicas de Freud. Rio de Janeiro: Imago Ed., Vol.13.
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Sobre a devastação: a menina e sua mãe
Resenha por Denise Rigueira Rennó Lima
Monografia do IPSM-MG
Título: A menina e sua mãe da fase pré-edípica ao complexo de Édipo
Autora: Maria das Graças Sena
A monografia de Maria das Graças Sena, antes de tudo, faz jus ao ponto que ela extraiu e citou como sendo um dos objetivos do Curso de Formação: "abordar as ques-tões que a clínica a todo instante nos suscita e então, nesse exercício, não só esclarecer mas, ainda, renovar a própria psicanálise".
Essa é uma monografia que coloca a trabalho aquele que a lê, razão pela qual teci os comentários que se seguem.
O ponto ressaltado nesse trabalho é a relação da menina com o Outro primordial, a mãe, e a importância que esta primeira relação tem na constituição da sexualidade da criança e, depois, da mulher.
Algo da primeira fase permanece na passagem da fase pré-édipica ao complexo de Édipo, retorna e se coloca como um complicador na constituição da feminilidade. Isto porque há uma dificuldade diferente no caso das meninas, já que elas deveriam abandonar a mãe e tomar o pai como objeto de desejo, como aquele que poderia lhes dar aquilo que elas não têm: o falo, na forma de um filho. O que se torna uma dificuldade a mais para a menina é o fato que ela precisaria retornar ao objeto que supostamente abandonara, a mãe, e identificar-se com ela para, então, dirigir-se ao pai. Nesse retorno, ela reencontra a mãe do amor, a mãe fálica, a mãe admirada por ela e que se tornou sua rival.
A autora, citando Serge André, comenta: "Essa relação tem todos os traços de uma relação passional para a qual os parceiros não conseguem encontrar a saída, senão em termos de uma ruptura. A história de uma menina e sua mãe aparece como a história de uma separação sempre adiada. [...] Nesse senti-do, a relação com o pai não faz realmente desaparecer, para a menina, a relação primária com a mãe".
Para expli-citar algo dessa passagem, retomarei alguns pontos, começando pela seguinte pergunta: o que é uma mulher para um homem? Podemos dizer que Lacan, em continuidade a Freud, deixou clara a resposta: uma mulher é um sintoma para um homem. A pergunta que nos interessa, então, é: o que é um homem para uma mulher? Em Freud encontramos, como resposta mais freqüente, que um homem é, para uma mulher ou uma criança ou o substituto do pai. Lacan, entretanto, afirma em L'Etourdit. "A propósito da elucubração freudiana do complexo de Édipo, que faz da mulher peixe na água, já que a castração está com ela desde o princípio, contrastando dolorosamente com o fato que é na mulher, para a maioria, na relação com sua mãe, de quem ela parece esperar, como mulher, mais substância que de seu pai - isso que não combina com ele como segundo nessa devastação."1 E ainda, em 1976: "Pode-se dizer que o homem é para 'uma' mulher tudo aquilo que lhe satisfaça, a saber, uma aflição, pior que um "sinthome", vocês podem articular como lhes convenha, uma devastação mesmo..."2
A partir dessas afirmações de Lacan, pôde-se concluir que o homem é uma devastação para uma mulher, como a mãe é uma devastação para a filha.
Como podemos constatar, não é uma complicação qualquer aquela que uma menina tem que enfrentar; talvez, por isso, Serge André fale sobre a "história de uma separação sempre adiada".
Portanto, ainda é preciso perguntar por que uma relação mãe-filha é uma devastação. O que é, afinal, devastação no sentido da psicanálise?
Lacan utiliza esse termo para dizer de um espaço destruído, devastado por um Outro; um invasor, por exemplo. É o domínio do Outro sobre o sujeito. Lacan indica mais precisamente que é à medida que a demanda do Outro, o desejo do Outro ou, o gozo do Outro, separados, ou ao mesmo tempo, importam mais para o sujeito do que o que seria sua própria demanda, seu próprio desejo, seu próprio gozo. A devastação designa um sujeito à mercê da vontade do Outro. Há uma redução do ser do sujeito ao ser do sintoma que ele é para o Outro. E o mais sério, é que isso pode vir a fazer par com um gozo do sujeito em se aniquilar. No entanto, Serge André, comentando a relação primária da menina com a mãe, diz que não é sob aspecto algum uma fusão ou uma comunhão: ao contrário, é uma luta ferrenha, cujo objetivo, em última instância, é o de determinar quem vai devorar ou ser devorado.
A mãe é uma devastação para a filha porque ocupa o lugar do Outro da demanda de amor, demanda impossível, por ser uma demanda incondicional. Nesse lugar ela será necessariamente um objeto decepcionante, já que está encarregada de introduzir a criança nas primeiras exigências do discurso, ou seja, encarregada de civilizar e de educar. E isso, ela só o consegue impondo condições, enquanto a criança pede amor incondicional: "meu amor você o terá se..." Primeiro amor, primeiro lugar de gozo, primeiro lugar de todas as decepções originais: se foi possível dizer que a mãe tem efeitos de inconsciente é porque é ela quem possibilita à criança entrar no discurso.
Concluindo, em 1958, Lacan, conforme citado na monografia, nos dá uma orientação quanto ao tratamento: "O importante, com efeito, não é apenas a frustração como tal, ou seja, um mais ou um menos de real que tenha ou não tenha sido dado ao sujeito, mas é aquilo pelo qual o sujeito almejou e identificou o desejo do Outro que é o desejo da mãe. O importante é fazê-lo reconhecer, em relação ao que é um X de desejo da mãe, de que modo ele foi levado a se tornar ou não aquele que atende a esse desejo; a se tornar ou não o ser desejado".
Essa orientação, ainda que permanecendo válida, estaria presa na dialética do ser ou ter o falo. Estaria, se Lacan não tivesse ido além desse ponto de impasse com a construção do objeto a, o que abre a possibilidade de pensar num mais-além do complexo de Édipo.
A devastação, à medida que vai sendo tratada, possibilita a emergência de sujeitos que podem, então, fazer valer algo de sua demanda, de seu desejo, de seu gozo.
NOTAS:
1. LACAN, J. L' Etourdit: Silicet, n. 4, Editions du Seuil, Paris, 1973, p.21.
2. LACAN, J. Le Sinthome, Lição de 17 de fevereiro de 1976, inédito.
BIBLIOGRAFIA:
1. SENA, M. G. A menina e sua mãe: da fase pré-edípica ao complexo de Édipo. Belo Horizonte: Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, 2001(monografia).
2. FREUD, S. Conferência 34. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, Edição Standard Brasileira, v. 22, 1976.
3. SOLER, C. Variáveis do fim da análise. Campinas: Papirus Ed., 1995.
4. ANDRÉ, S. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1987.
5. LACAN, J. O Seminário, Livro 5: As Formações do Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.
6. LACAN, J. L' Etourdit: Silicet, n.4, Paris: Editions du Seuil, 1973, p. 21.
7. LACAN, J. Le Sinthome, Lição de 17 de fevereiro de 1976. Inédito.
8. NOMINÉ, B. O Sintoma e a Família: Conferências Belorizontinas. Escola Brasileira de Psicanálise, 1997.

Almanaque 07
novembro de 2001
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