Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
 
 

> Publicações
Almanaques: 01 - 02 - 03 - 04 - 05 - 06 - 07 - 08 - 09 - 10

Almanaque 04 - Ano 03


Almanaque de Psicanálise e Saúde Mental

Editorial: "Escola e Instituto: uma parceria sintomática?"
"A clinica da urgência"
"Segregação"
"A significação do falo: panorama e constrastes"
"Questões sobre o tratamento possível na toxicomania e alcoolismo"
"A contribuição da mãe e a preservação da mulher"


Editorial

Escola e Instituto - uma parceria?
Márcia Rosa

No momento em que o Curso de Formação em Psicanálise forma a sua primeira turma - turma que conclui com uma média de 85% dos participantes inicialmente inscritos e que, ao final de dois anos de um trabalho entusiasmado e sério, começa a escrever as suas monografias de final de curso, - uma reflexão se nos impõe sobre o ensino que se faz em um Instituto.

Assinalamos que tem havido um tensionamento bastante frutífero entre a Escola e o Instituto e que ele tem possibilitado que a teoria e a clínica psicanalíticas procurem encontrar modos de exposição, de sistematização e de formalização que, preservando o "rigor" e a "clareza", sejam "inventivos" e "originais", isto é, que sejam menos afeitos a jargões e que possam tomar os aforismos lacanianos tal como os matemas, isto é, como convites a que o leitor, à diferença de uma leitura puramente acadêmica, repetitiva ou mesmo jornalística, coloque das suas experiências, das suas dúvidas, surpresas, críticas, expectativas, etc.

Concluímos também que o tensionamento Escola-Instituto, ao presentificar um tensionamento inerente à própria psicanálise, ou seja, a sua vocação ao mesmo tempo científica e ficcional, coloca o ensino e a transmissão da psicanálise como fundamentais à manutenção do discurso analítico e de sua eficácia no nosso mundo contemporâneo. Tais constatações não deixam de nos recolocar a importância da questão da formação do analista, questão com a qual Freud se deparou em vários momentos e respondeu de modos diferentes no decorrer de seu texto. Em A questão da análise leiga - conversações com uma pessoa imparcial (1926), por exemplo, ele afirma que a sua tese principal é a de que a questão importante não é se um analista possui um diploma médico (poderíamos acrescentar, ou mesmo de psicólogo, de terapeuta ocupacional, de assistente social, etc.), "(...) mas se ele recebeu a formação especial necessária à prática da análise." Tal afirmação, conta-nos ele, "(...) serviu de ponto de partida para uma discussão, que foi avidamente adotada, quanto qual é a formação mais adequada para um analista. Um esquema de formação para analistas ainda tem de ser criado," continua ele, "deve ele abranger elementos das ciências mentais, da psicologia, da história da civilização e da sociologia, bem como da anatomia, da biologia e do estudo da evolução." (ESB, vol. XX, p. 286) Muitos anos depois J. Lacan, em Acerca de la experiencia del pase, y de su transmisión (1973) dirá nunca ter falado de formação psicanalítica mas de formações do inconsciente já que diz "da análise se depreende uma experiência, que é completamente errado qualificar de didática. A experiência não é didática". (Ornicar?, Ed. Petrel, n.º 1, p.37)

Deste modo, a propósito da formação do analista temos a formulação freudiana da análise leiga, formulação importante porque ao laicizar, isto é, ao ultrapassar a dimensão religiosa ou eclesiástica, Freud reclama a autonomia da psicanálise, não apenas face à medicina mas também a uma frequentação religiosa ou mesmo sacralizante. Com Lacan, à medida que a dimensão descoberta pela psicanálise é o contrário de algo que progride por aproximação, por aperfeiçoamento e que levaria o sujeito a aprender a dizer a coisa certa, na hora certa, do modo certo, trata-se em uma formação analítica de manter presente a dimensão faltosa, equívoca e até mesmo descontínua que o desejo inconsciente implica. Assim, aos didatas da IPA Lacan contrapôs a mestria do inconsciente em suas formações.

Neste sentido a existência - necessária e, além disso, bem-vinda - de um Curso de Formação em Psicanálise e da certificação de conclusão de sua primeira turma não deixa de ser uma ocasião oportuna para evocar a ironia de qualquer garantia quando se trata de psicanálise. Evocamos a propósito as garantias dadas pela Escola de Lacan aos seus Analistas Membros de Escola (A.M.E.), garantias que recolocam o sintoma, s(A), na posição de "alma" (ame) da Escola, ou melhor, que não são senão uma proposição de que o sujeito possa fazer da Escola uma parceira sintoma.

Sabemos que o Instituto não forma analistas, e que não cabe a ele autorizar ou não o exercício da prática psicanalítica - autorização e exercícios que são matéria de trabalho da Escola - mas podemos dizer aos participantes que concluem o Curso de Formação que eles podem relançar a sua pergunta sobre a formação do analista à Escola, que Escola e Instituto são parceiros sintomas.
ao topo


A clínica da urgência

Ram Avraham Mandil

Caberá, aqui, uma exploração desse "campo da urgência" que, seguindo a tradição médica e, por extensão, a psiquiátrica, indica situações que clamam por uma ação imediata. A origem latina, urgere, fornece o estofo etimológico que caracteriza essa atividade: empurrar, pres-sionar, impelir. Um rápido paralelo permitiria aproximá-la da clínica das pul-sões, conceito-limite construído por Freud para dar conta daquilo que o sujeito experimenta como um impulso incontrolável que, pare-cendo agir à sua revelia, não teria outro objetivo além de satisfazer-se. É sobre esse terreno que a psicanálise pode fazer incidir a sua orientação, ao propor uma linha demarcatória a ser traçada entre as urgências objetivas e as urgências subjetivas, estas últimas não necessariamente caracterizadas pela dramaticidade da cena, mas atestadas pelo testemunho do sujeito de estar diante do impossível de suportar1. O campo das urgências subjetivas nos leva a distinguir a categoria de "sujeito" que a clínica freudiana, a partir de Lacan, não nos permite confundir com o indivíduo, ou com aquele que, ao dizer "eu", imagina estar de posse de uma identidade sem conflitos2.

No terreno das definições, nos interessa também distinguir as "urgências sociais". Se, por um lado, ela aponta para uma intervenção imediata sobre uma situação coletiva - seja na família, seja numa comunidade - ela interessa, justamente, por nos apontar para aquilo que, do sujeito, é determinado pelos laços sociais, sobretudo quando esses laços tomam a forma de um discurso. Sem denegar a imbricação social da clínica da urgência, nem compartilhar com o preconceito cientificista que procura excluir o efeito social das suas ações, nos desafia pensar a dimensão subjetiva da urgência nas mais diversas situações em que ela emerge.

O TEMPO

Não há como ignorar a presença do tempo nas urgências uma vez que a ação a ser feita deve ocorrer de forma imediata. Normalmente, o tempo é acoplado ao objetivo em vista, que é, via de regra, o de reestabelecer uma continuidade rompida, ou de reequilibrar a homeostase alterada. Nesse sentido, conhe-cemos as ações urgentes para a manutenção dos sinais vitais como ponto de partida para qualquer urgência médica. Também poderiam ser incluídas, aqui, as ações que visam a continuidade da ordem pública nas chamadas urgências sociais. No entanto, a consideração pelo tempo avaliada desde a perspectiva do sujeito não se confunde com o tempo cronológico nem desconsidera a sua capacidade de produzir sintomas. Nesse sentido, a tríade temporal proposta por Lacan é imprescindível: o instante de ver, o tempo de compreender e o momento de concluir permitem distinguir uma lógica na experiência subjetiva do tempo. Nesse contexto, caberia examinar a hipótese da urgência como um curto-circuito entre o instante de ver e o momento de concluir. Seria o tratamento da urgência a oportunidade de construir o tempo para compreender que precipitou o sujeito à conclusão? Nesse sentido, o tempo torna-se uma dimensão ineliminável das urgências subjetivas, da qual fazem parte decisões, juízos e afirmações. Uma urgência, portanto, pode ser avaliada como um movimento que tem uma lógica, pela qual um sujeito precipita tanto o seu julgamento, quanto a sua saída (cf. Lacan em O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada). Nesse sentido, a clínica da urgência pode indicar que, contrariamente à idéia de estarmos diante de sujeitos perdidos em sua existência, na verdade nos deparamos com aqueles que fizeram a experiência de encontrar uma saída, ainda que problemática. Nesse sentido, a clínica das urgências torna-se um trabalho de construção das coordenadas do sujeito a partir da qual pode-se localizar a ruptura: como se, diante de um corpo celeste, nos coubesse criar as condições para que este pudesse calcular sua trajetória, ou mesmo a sua órbita3.

AS URGÊNCIAS SUBJETIVAS NAS PSICOSES

Se a psicanálise restitui a dimensão subjetiva às psicoses, considerando que ali também está presente a experiência do "ser falado" pela linguagem, ela irá interessar-se ainda mais pelo que, dessa dimensão, indica situações de urgência. Os testemunhos recolhidos nos atendimentos, bem como aqueles que surgem da construção dos casos clínicos têm, aqui, todo o seu valor. É nesse contexto também que se inserem as "apresentações de pacientes", oportunidade para um sujeito psicótico testemunhar e mesmo elaborar seu esforço de construção de um anteparo ao real. Aqui, caberá colocar à prova o vetor de orientação proposto por Jacques-Alain Miller no Conciliabule d'Angers: ENIGMA ? PERPLEXIDADE ? ANGÚSTIA ? ATO ? CERTEZA4. Trata-se de um vetor que, antes de mais nada, produz uma ordenação dos elementos da clínica que, à primeira vista, se apresentam de maneira caótica. Um vetor que parte das experiências enigmáticas para um sujeito até a produção de uma certeza, produção esta que não se faz sem a presença de um ato.

A CLÍNICA DO ATO

Será através da noção de ato, que conhece uma elaboração cuidadosa ao longo da obra de Lacan, que teremos condições de examinar a sua função de produzir uma certeza para um sujeito imerso em situações enigmáticas. É nesse contexto que a clínica da passagem ao ato poderá ser avaliada, como produção de uma certeza a partir de uma rejeição do saber. Aqui, cabe distinguir também a noção de "agressividade". A tendência a confundí-la com a passagem ao ato acaba por apagar uma distinção que convém preservar. A partir das indicações do ensino de Lacan, o estudo da agressividade abre a perspectiva de considerarmos a presença do imaginário no contexto das relações intersubjetivas, além de nos indicar o quanto esta dimensão imaginária poderá estar preponderando nos encontros do sujeito com o real. Acoplada a essa discussão está a complexa noção de "periculosidade", trafegando entre o campo do jurídico e o campo da psiquiatria.

A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NA CLÍNICA DA URGÊNCIA

O que fazer diante de uma urgência? O contexto psiquiátrico nos dá o enquadramento: trata-se de restabelecer as constantes, trata-se de recuperar o suposto equilíbrio perdido, trata-se de preservar a continuidade do que foi acordado como pacto social. Nesse sentido, a clínica psicanalítica da urgência jamais poderia apresentar-se como alternativa à ordem psiquiátrica. No entanto, ela nos impele a manter aberta a porta que conduz à consideração do sujeito e de suas produções frente ao encontro com o real. A Psicanálise jamais tomaria como perspectiva, para um final de urgência, a mera eliminação dos sintomas ou a restituição de uma realidade que antecedeu o momento de ruptura. A política do tratamento não visa cessar a urgência, mas transformá-la, modificá-la a partir do isolamento dos elementos nela presentes que poderiam levar o sujeito a prosseguir o seu tratamento. Desse modo, a urgência deve ser tomada como oportunidade para uma tomada de posição inédita de um sujeito às voltas com seus sintomas, posição esta que poderia levá-lo a lidar com esses sintomas de um modo distinto daquele que acabou por atirá-lo ao guichê de um hospital.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 François Leguil nos dá o testemunho de uma frase de Jacques Lacan proferida no Hospital Saint Anne, na qual define a urgência como "o impossível de suportar para um sujeito que já não se diverte com mais nada". LEGUIL, F. Reflexiones sobre la urgencia. In: Grupo de Investigación y Asistencia Sobre la Urgencia. El Psicoanalista en la Práctica Hospitalaria. Buenos Aires: Ricardo Vergara Ediciones, sd, p.26.
2 François Regnault distingue na necessidade do cumprimento de um dever, na fuga e na angústia algumas das formas de apresentação das urgências subjetivas. REGNAULT, F. Une urgence subjective. In: Association de La Cause Freudienne - Ile de France. Les urgences subjectives. Paris: Bibliotheque Confluents, 1995, p.11-16.
3 Seguindo aqui a metáfora criada por Eric Laurent junto ao "Grupo de Investigación sobre las Urgencias". Op.cit, p.20.
4 MILLER, J.A. La mort du sujet. In: IRMA. Le Conciabule d'Angers. Paris: Agalma/Le Seuil, 1997, p108.
5 LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p.242.
ao topo


Segregação

Célio Garcia

Segregação está associada ao racismo, aos campos de concentração. Na era do pós-guerra, duas perspectivas surgiram em nosso horizonte conturbado. Por um lado, a fraternidade, o movimento comunitário dos anos 60, prometiam o amor, pensando, com isso, afastar a guerra. Por outro lado, as minorias (raciais, sexuais), quando contempladas com o devido reconhecimento político, davam a impressão de representatividade no seio da comunidade.

Atualmente, somos advertidos pela Antropologia: é "difícil escapar da segregação presente em todo sistema simbólico; a exclusão é inerente a todo sistema classificatório".

A hipocrisia da ideologia multiculturalista, fundamento da promoção das minorias, ocultava formas de racismo e segregação. Deparamo-nos, na etapa atual, com a diferença, mais uma vez. Como tratar com a diferença, se não recorremos às soluções costumeiras, baseadas sabidamente na noção de identidade? Essa orientação é que nos levou à presente nota.

Surpreendido pela riqueza do material que nos oferecia recente debate na França, todo ele documentado pela imprensa parisiense, já não era só o racismo que nos ocuparia quando nos debruçamos sobre a segregação. Vamos acompanhar, passo a passo, o tratamento dado à questão da "identidade" (sexual) em oposição à "tendência" (sexual), termos que mobilizaram os jornais e representantes de correntes as mais diversas, todas elas convocadas pela questão.

De repente, era a Psicanálise de Freud que se via solicitada a tomar parte na discussão sobre identidade, identificação, modos de gozar, função paterna e seu declínio, pondo à prova noções que ela mesma havia contribuído a construir e fazer valer. Considerando o século XX como marcado, mais de uma vez no seu transcurso, pelo radicalismo de um "fim que era desejado" e de um "recomeço que se auspiciava" como único, a questão da violência com que se deu o combate ao semblant, violência com que pretendíamos retirar a máscara, completando a Psicanálise, igualmente, seu primeiro centenário, era bem este o momento para uma avaliação do que tinha se transcorrido desde a fundação da Psica-nálise, sem perder de vista o tema que nos ocupa.

Se, por um lado, o real, tal como é concebido, pode ser tido como tal e não passar de um semblant, como nada mais do que um sistema de ficções, por outro lado, a depuração vai se tornar a palavra-chave em muitas situações do século. Reforçar o partido (revolucionário, ou não) vinha a ser depurá-lo. A arte, também, adotou a depuração. A teoria, também, foi escoimada de toda carga ilusória. Depurar é afastar o semblant.

A paixão do real supõe o exercício da decidibilidade, como se fosse sempre possível decidir frente ao semblant, para nos encontrarmos, no passo seguinte, a braços dados com a destruição. Partindo dos termos "Identidade", "Tendência", constantes nas discussões registradas nos jornais, logo me dei conta da pertinência em trazermos, para o confronto, outros termos, tais como "depuração" (racial, religiosa, partidária, e outras), "comunidade" (e seu eventual fundamentalismo, ou refúgio comunitário para onde acorríamos, amedrontados, após os processos movidos por acusação fundada em argumentos partidários), "função paterna" (como, referência e seu constatado declínio) e, enfim, "pequena diferença" (susceptível de afastar os maciços parâmetros e pesados emblemas fornecidos pela identidade e pela identificação). Todos esses termos povoaram, queiramos ou não, um século de Psicanálise ou a Psicanálise do século.

Identidade, fonte de segregação X tendência, marca de uma dimensão genérica

O Pacto Civil de Solidariedade (PACS), discutido no parlamento francês durante todo o ano de 1999, tem sido motivo para explicitação de aspectos não muito esclarecidos até então. O PACS foi ocasião para que se discutisse o quadro jurídico a ser assegurado em se tratando da homossexualidade e diversas situações dela decorrentes. "Instituir o sexual" foi o termo postulado para dar nome aos princípios que seriam adotados.

Logo os opositores às pretensões do Movimento Gay argumentaram que, sendo a identidade sexual destinada a socializar a sexualidade de cada um através das relações "sustentáveis na realidade", tenables dans la réalité, não era compreensível que se decidisse a partir, agora, das tendências sexuais, ao se confundir a simbólica dos dois sexos com o unisexo, ou com um terceiro sexo mais livre, mais criativo, mais generoso. As tendências de cada um, seus gostos, suas aspirações, enfim, sua subjetividade, não seriam uma referência para instituirmos, com elas, laço social, fazendo crer que um particularismo, uma orientação pulsional valem como realidade universal. Só a pessoa é sujeito de deveres e direitos, concluem: isso não é o caso de uma tendência sexual.

"Como organizar, ou pensar em organizar, uma tendência sexual", foi o enunciado formulado, claramente, pelos opositores às pretensões do Movimento Gay e de seus simpatizantes. Como contar com uma tendência que, na realidade, reativa o que há de mais primitivo na sexualidade, simplesmente repetindo a pré-história afetiva, limitada ao mesmo e ao semelhante? Desconhecem, os opositores ao Movimento Gay, a dimensão genérica susceptível de acolher uma tendência que poderá se ampliar, sem que, por isso, devesse criar nova identidade ilusão fundadora de comunidade, dimensão genérica cujo alvo não será o universal como fonte de identidade. Aliás, o singular, com o qual trabalha a Psicanálise, no dizer de Lacan, veio para desbancar o universal. Genérica é a dimensão que convém ao singular. Universal é a dimensão na qual se adapta o particular.

Anotei algumas situações que vão nos proporcionar alguma intimidade com o genérico. Este é o fundo de idéias e enunciados a partir dos quais se discutem a união de duas pessoas do mesmo sexo reconhecida perante a lei, a adoção de filhos por um casal constituído por pessoas do mesmo sexo. Além dessas questões aqui identificadas de forma bastante prática, há um aspecto a ser posto em relevo, pois diz respeito aos fundamentos de uma identidade tal como ela é pensada, ou seja, seu caráter universal. Em outras palavras: como seria possível coletivizar, ou pensar, para toda a coletividade, um dispositivo de lei?

Sabemos que o grande Outro, ou que nome tenha (Deus para os que têm uma crença, Universo panteista para os que constróem assim uma Referência máxima), foi, desde sempre, uma via de passagem (o passador), que articula o singular ao coletivo. Se já não dispomos de uma via de passagem (a religião, a tradição, o pai, os mais velhos...) que nos dissesse como ir do um para o coletivo, quais as novas formas de referências que estão surgindo, longe da tradição, com o declínio da função paterna? Há o que podemos chamar identificação horizontal, susceptível de dar origem ao que já foi chamado rule girls (Anthony Giddens): um fenômeno bem situado em moças que seguem comportamento bastante consistente em sua conduta sexual sem que estejam se referindo aos pais, pois já nem moram em casa da família, nem parecem ligadas a práticas ou ideologia tradicional.

A noção de subtração

Outras saídas serão aqui lembradas, em vez de um só caminho:
1) a depuração, tal como foi descrita;
2) o caminho oferecido pela noção dita "subtração".
A "subtração" nos remete ao estatuto do objeto contemporâneo em termos de "ausência", ausência a ser encontrada no ready-made de Duchamp (a roda de bicicleta), no "quadrado branco sobre fundo branco" de Malévitch (Ver livro de Gérard Wajcman: L'objet du siècle). Objetos que pensam e que fazem ver, diz Wajcman. Objeto sutil, apenas visível, o objeto do século, do século dos objetos, nele esbarramos, mesmo passando ao largo, conforme Wajcman trata no "quadrado branco sobre fundo branco". Seria o máximo da depuração em se tratando de pintura, pois que se elimina a cor, a forma, mantendo-se unicamente um índice formal? Mas não, ao contrário, diria que conseguimos uma diferença evanescente. Podemos trabalhar com essa hipótese de um pensamento subtrativo, ou seja, funcionando com uma diferença mínima entre as coisas, evitando-se, assim, a destruição. Não se trata de interpretar, ou explicar, a destruição da pintura. Trata-se de uma assunção por subtração, próxima ao gesto de Mallarmé em poesia que consistia em tirar partido da diferença mínima, isto é, poetizar a diferença entre o ter lugar e o lugar. Essa diferença é o "quadrado branco sobre fundo branco": como ponto de indecidibilidade máxima que apaga todo contorno.

Por que podemos dizer que Malévitch aponta para outra coisa que não a segregação fonte de destruição? Porque, de uma certa maneira, em vez de tratar o real como identidade, ele é tratado como diferença ou distância entre uma coisa e outra. Em outras palavras, vamos abordar a questão entre o real e o semblante não por força de uma depuração que isolaria o real como tal, gerando processo infinito de destruição, mas admitindo que a distância é real, e que o real é "quadrado branco sobre fundo branco", isto é o momento em que alcançamos a distância mínima.

A diferença nos modos de gozar, seus paradigmas, vem a ser a questão da "tendência sexual", objeto de debate na França a propósito da discussão sobre um pacto de solidariedade civil (PACS). No caso, interessa-nos especialmente o reconhecimento, o estatuto jurídico a ser atribuído, o tratamento que será dado, pelo Estado, às questões de identidade sexual. A Psicanálise será partie prenante nesse debate, por ela esperado desde sempre.

O que se segrega, diria, seria o real a que se pretende chegar pela ruptura, no caso, um real identitário. A pequena distância que diferencia (tendência sexual, modo de gozar) não passa pela ruptura e pode estar incluída no coletivo, sem menção ao universal.
ao topo


A significação do falo: panorama e contrastes

Sérgio de Mattos

Ler um Escrito de Lacan, é sempre um desafio estimulante para todos aqueles que são tocados por seu ensino. A perspectiva de decifrar um texto de estilo complexo, que parece velar sempre algo precioso, acrescido da promessa latente de adquirirmos uma nova potência operacional utilizável em nossa prática analítica, torna seus Escritos encantadoramente atraentes.

Entretanto, há sempre, principalmente naqueles que começam a se aventurar nessa leitura um misto de entusiasmo, perplexidade e inibição. Retirado o véu das primeiras dificuldades, o leitor transferido pelo texto, se assemelha em geral aos participantes daquela história, cujos personagens viam uma bela dançarina ir tirando gradualmente seus véus e, após ser tirado o último deles e revelada a sua nudez, continuavam pedindo que tirassem os outros....

Em A Significação do Falo, notamos o mesmo estilo de elaboração complexo que aparece nos outros escritos de Lacan, a saber: um pensamento que por um lado segue uma lógica rigorosa de desenvolvimento, características da exigência de formalismo de um homem da "ciência", e por outro, se apresentar como um fluxo vigoroso e multifacetado, características da manifestação exuberante da própria vida, correspondendo à condição de Lacan, enquanto homem de desejo.

Portanto dois aspectos - a lógica do significante e o fluxo da vida - que parecem a meu ver, enfatizados neste escrito por uma espécie de ressonância com o próprio assunto - A Significação do Falo - que Lacan se propõe a tratar.

Esta ressonância como veremos adiante, se apresenta como o que talvez seja a grande questão deste texto - ao lado evidentemente das questões paradoxais colocadas pela sexualidade feminina: Onde está a vida? Ou melhor, onde está o elemento vivo na ordem significante?1
Esta interrogação não é entretanto muito visível numa primeira leitura, não se mostrando naquilo que se poderia chamar de panorama do texto, onde se revelam as linhas gerais de desenvolvimento dos argumentos, seus grandes recortes e subdivisões contidos neles. Mapear o panorama de um texto, é entretanto sem dúvida, uma condição fundamental para sabermos nos orientar nele.

Neste pequeno artigo, só poderei apresentar este mapa de maneira sucinta.


PANORAMA

Numa visão ampliada o texto se divide em três grandes partes ou recortes.

1) Na primeira parte Lacan centra sua perspectiva no complexo de castração. Primeiro para dizer que só podemos ler o que significa um sintoma, se pensarmos nele como resposta à experiência do sujeito frente à castração da mãe. Em segundo lugar para dizer que, os "tipos sexuais" - masculino ou feminino - se definem como posições tomadas, também frente ao complexo de castração.

Contudo, a vertente da definição da posição sexual feminina, se destaca como uma espécie de centro de debate do texto, um debate sobre aquilo que Lacan considera ser uma situação paradoxal. Qual é o paradoxo em questão? É que, como nos diz Freud, "nossa experiência nos mostra que também na mulher e não apenas no homem o falo está no centro". O paradoxo se apresenta se pensarmos o falo do ponto de vista "naturalista", isto é, o falo identificado ao pênis. Neste ponto de vista, como entender que a mulher não o tendo, ainda assim o coloca no centro de sua vida?

Aqui Lacan, diferentemente de alguns autores da época, relança o conceito de falo para sua dimensão simbólica. Vale a pena ainda ressaltar que, neste ponto, é também extremamente significativo, que Lacan introduza a discussão sobre o falo justamente pelo viés dos problemas colocados pela sexualidade feminina.

2) Um segundo recorte nos mostra o debate de Lacan com vários autores pós-freudianos que se ocuparam apaixonadamente pela questão da fase fálica buscando resolver o paradoxo da constituição da sexualidade feminina. No fundo, o que Lacan nos mostra, é que esses autores - Helene Deutsch, Karen Horney e Ernest Jones, para citar os mais eminentes - tropeçam na solução desse problema tanto em sua teorização quanto em sua prática, por lhes faltar a noção de significante. Em outras palavras, o que está em perspectiva é que a solução dessa questão depende da definição que se dará do falo enquanto significante.

3) O terceiro recorte começa portanto com Lacan promovendo como necessário à articulação de qualquer fenômeno analítico a noção de significante. É a partir deste ponto, que ele define "o falo como o significante destinado a designar em seu conjunto os efeitos do significado." Em outras palavras, o falo torna-se a medida do que tem valor de desejo para um sujeito, o falo é o que significa tudo aquilo que é desejável para ele. É em torno desse ponto que ele dará diversas outras definições do falo: "o falo como o que dá a razão do desejo, o falo como algorítimo, o falo como a média e razão extrema da divisão harmônica, o falo como o significante da marca onde a parte do Logos se conjuga com o advento do desejo".

Desse momento em diante, Lacan prossegue num movimento constante de aplicar esta tese a várias dimensões da experiência analítica: diferenciando necessidade, demanda e desejo, examinando as consequências dessa definição na determinação de comportamentos típicos de cada um dos sexos, e na determinação de estruturas a que estão submetidas as relações entre eles. Em seguida Lacan define a posição da sexualidade feminina como a de ser o falo, isto é, não tê-lo, opondo assim a feminilidade como máscara da mascarada feminina.

Para terminar, Lacan conclui este escrito desembocando no que ele chama da relação mais profunda do falo: "aquela pela qual os antigos encarnavam o Nous e o Logos".


CONTRASTES

Agora um pouco de atenção aos contrastes. São contrastes porque de certo modo se destacam das argumentações lógicas do restante do texto, são detalhes às vezes singulares, que se apresentam como sinais raros, tênues, furtivos, que tecem solidariedades insuspeitas e evoca-doras. Vou me concentrar aqui em apenas duas dessas expressões singulares. A primeira provoca curiosidade por uma discordância entre o que Lacan escreve e o que encontramos no texto por ele citado.

A segunda porque revela um novo centro de coerência do texto. Este novo centro é a meu ver como um polo fecundo, desde onde se projetam problemas novos e fundamentais bem como intuições do que serão temas de futuros desenvolvimentos do ensino de Lacan. É nesse contexto que o Falo se distingue como um significante especial, pois traduz em termos simbólicos o que é vivo, tornando-se neste momento de seu ensino o símbolo mesmo do ser vivo.

1) Curiosidades

- Na página 694, encontramos uma referência de Lacan à iniciação amorosa e sexual de Dafné e Cloé. Trata-se de um romance pastoral do terceiro século DC, de autoria de um escritor grego chamado Longo. Cito Lacan:
"Essa ignorância é bastante suspeita de desconhecimento, no sentido técnico do termo. Não estaria ela 2 apenas de acordo com a fábula em que Longo nos mostra a iniciação de Dafné e Cloé subordinada aos esclarecimentos de uma velha senhora?"

Na fábula3 não encontramos a tal iniciação subordinada a uma velha senhora. O que parece discordante é que encontramos na verdade um velho, o velho Filetas, que revela ao jovem casal o significado de seus ardores e anseios desconhecidos: "Se não foi em vão que meus cabelos embranqueceram, e se, ao envelhecer, não perdi a razão, é ao Amor, meus filhos, que sois consagrados, e é o Amor que vela sobre vós"... Mais adiante encontramos a iniciação sexual de Dafné,4 porém, não se trata de uma velha, mas de Licenion "uma mulher jovem, em pleno vigor, e mais delicada do que uma camponesa".

Portanto o que vemos é que Lacan condensa o velho Filetas com a jovem mulher. Esta condensação parece entretanto evocar a idéia de que o Falo, " condensa" em si, o poder de decifração do significante - o velho Filetas - e a imagem do poder do vigor da vida - a jovem Licenion - o que é similar, como veremos, com o sentido da última frase da Significação do Falo.

2) Solidariedades
Lacan conclui seu texto com a frase sequinte:

"A função do significante fálico desemboca aqui, em sua relação mais profunda: aquela pela qual os antigos nele encarnavam Nous e Logos".

Esta frase se situa exatamente, após falar pela primeira e única vez - daí seu caráter de singularidade - neste texto do conceito de Libido. Por que introduzi -lo neste momento articulado ao Falo enquanto encarnação de Nous e Logos?

Digamos que até a instância da letra, ao tentar dar conta da libido pela cadeia significante e pelo significado, Lacan deixa de fora a vida, tudo se passa enquanto puro jogo das combinatórias e conexões significantes, funcionamento que independe de um corpo vivo para sustentá-lo. J.-A. Miller, comenta que nesse ponto de seu ensino, Lacan obtém como consequência do puro funcionamento significante, um desejo morto, o que reclamaria por um complemento de vida. 5

É nesse ponto que aparece o falo como um significante paradoxal. Por um lado, é o significante que ordena o que é desejável para o sujeito e, por outro é a imagem do impulso, do fluxo vital. Em ressonância a essa dupla face do falo, o Logos era para os gregos não simplesmente a ordem, a relação de uma coisa com outra,que poderíamos facilmente remeter à ordem significante, mas era também, o vigor imperante da natureza. Este vigor não significava apenas um impulso, mas que esse impulso aparecesse e se revelasse, e fosse reconhecido. O Nous traduzido normalmente por intelequia, seria a "parte" perceptiva do próprio Logos, - a ordem - que se compreenderia em relação ao modo como ele aparecesse - vigor imperante - como aparência na natureza. Assim, ao encarnar no falo Logos e Nous, Lacan retoma a parte viva da libido em conjunção com o significante, e é por isso que ele afirma que a libido é masculina. Porque neste ponto de seu ensino a libido só se dá a conhecer e só se ordena a partir desse poder do falo de copular a vida com o significante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 MILLER, J.-A. Cours n0 11. 28/02/96, pg 169.
2 A ignorância aí se refere à tese freudiana do desconhecimento da vagina como lugar de penetração genital até o declínio do complexo de Édipo em ambos os sexos. Diferentemente da fábula, para Lacan não haveria uma ignorância, mas o que ele chama de desconhecimento, ou seja, uma recusa de reconhecer uma coisa pelo que ela é. Então se trataria aí na verdade não de uma ingenuidade como parece pretender Longo, mas de colocar um véu, velar algo que se recusa a admitir.
3 Dáfnes e Cloé. Edição da Blibioteca Universitária da U.F.M.G, Pontes Editores, 1990, SP.
4 Idem. pg 62 livro III
5 MILLER, J.-A. Curso 1995/96. lição XI, 29/02/96
ao topo



Questões sobre o tratamento possível na toxicomania e alcoolismo

Cristina Sandra Pinelli Nogueira

As drogas e o álcool sempre foram utilizados pelo homem em vários contextos: social, econômico, médico, religioso, entre outros. O consumo de drogas é um fenômeno cultural - não há sociedade que não tenha as suas drogas, recorrendo ao seu uso para finalidades diversas.

Quando falamos em toxicomania hoje, falamos de uma escala fenomenal jamais vista na história; um fenômeno de massa comprometido com o discurso da ciência e do capitalismo. As drogas têm introduzido "gozos eróticos sucessivos" 1. Exemplo disto é em Belo Horizonte a escala assustadora do uso de drogas como o crack, que denuncia um consumo fora dos limites. Esta situação lembra-nos a guerra do ópio, onde um sintoma foi produzido 2 - os Ingleses impuseram aos Chineses este objeto: o ópio, que convinha às finalidades de dominação. Não temos o ópio, nem os Chineses, porém temos "o traficante", a guerra do tráfico 3.

A toxicomania encontra suas origens na psiquiatria a partir da discussão sobre a mania aplicada à problemática dos atos impulsivos (Séc. XIX); não havia portanto uma entidade clínica que representasse estes casos. Mesmo no texto de Freud o uso de drogas não aparece ligado a uma única estrutura clínica. Aparece como defesa na neurose obsessiva 4, como hábito patológico 5, como substituto da masturbação 6, como solução para o mal-estar 7, etc.

Para Lacan o êxito da droga em nossa época concerne à função de artifício metódico para descartar os efeitos devastadores do gozo da mãe. O artifício da droga opera segundo o registro de um símbolo, sendo este ponto o que constitui a verdadeira ignorância do ato toxicômano 8. Não tem, portanto, a dimensão de metáfora, de construção significante com estrutura de mensagem.

Falar da possibilidade do tratamento psicanalítico nos casos em que o sujeito apresenta um uso grave de drogas e/ou álcool é um desafio, como o é para qualquer abordagem. Nos encontramos diante de sujeitos que se nomeiam a partir de um modo de gozo, um gozo cínico que não passa pelo corpo do Outro; se inscreve na rubrica do auto-erotismo 9. O gozo presente no toxicômano vem no lugar da falha do Nome do Pai.

A grande maioria dos casos graves onde estes objetos de consumo se tornam o centro da vida, apresentam uma dificuldade da produção inconsciente; esta nova concepção de sintoma se aproxima de um "modelo psicótico" 10, além da dificuldade clínica nos casos onde a estrutura é psicose (questão que abre a discussão da droga como suplência) 1. Não sendo uma formação do inconsciente, estes comportamentos apontam uma nova forma de sintoma, que tem aumentado muito nas últimas décadas. Sendo um "contra-sintoma", as entrevistas com o analista podem possibilitar a construção de um sintoma (Ex.: um sujeito que duran-te 8 anos tomava 8 comprimidos diariamente - o que se constituiu como "sintoma" foi ejaculação precoce).

Muitas vezes são necessários encaminhamentos à clínica médica, psiquiátrica, oficinas, Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), etc. A maneira desses profissionais intervirem é fundamental; o acolhimento e o atendimento na crise possibilitam o trabalho do analista. Neste percurso pode se constituir uma demanda de tratamento, já que estes casos apresentam transtornos da demanda. A toxicomania pode surgir em qualquer uma das estruturas clínicas: neurose, psicose ou perversão; a adição às drogas não recobre nenhum sentido, indicando que o uso da droga se constitui como um recurso face a um sofrimento intolerável, que não possa ser tomado em uma dimensão simbólica. Como nos demonstra a clínica, alguns toxicômanos "escondem" a estrutura a tal ponto, que se torna muito difícil localizá-la 12.

Estamos em um momento histórico da clínica psicanalítica com estes casos. Há 20 anos atrás eles eram, em sua maioria, vistos como casos de polícia. A partir dos impasses advindos destas questões, foi criado em 1976 um serviço ligado à Secretaria de Segurança Pública (Serviço de Recuperação Social). Paralelamente começaram a crescer serviços alternativos da assistência à saúde (Movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira).

Um conhecido de todos nós, César Rodrigues Campos, contribuiu mais uma vez ao concluir junto com a comissão designada pelo Secretário da Saúde, naquela ocasião (1983), para que se decidisse pela criação de serviços específicos nesta área, ligados porém à Secretaria de Saúde, FHEMIG 13. Ocasião em que o citado serviço foi transferido para a Secretaria de Saúde, passando a chamar-se Unidade de Reintegração Social (que deu origem ao Centro Mineiro de Toxicomania - CMT).

Atualmente os casos chegam aos Centros e Postos de Saúde, consultórios particulares, escolas, hospitais, Fóruns, Juizados, etc. Percebemos que já há por parte de alguns colegas um interesse em acolhê-los, e aprender, pois como nos lembra J.-A. Miller - é uma clínica que exige a modéstia14. Atender um toxicômano é também suportar as repetições que vão surgir: vir ou ligar alcoolizado, abstinência, atuações, risco de vida.

Entretanto é possível a reconstrução do que foi o "tornar-se alcoolista ou toxicômano"; podemos constatar nos tratamentos, importantes efeitos vindos destas construções. Conforme Hugo Freda menciona, podemos pensar em "tempos da cura". Ele cita o caso de um sujeito que tomava heroína, depois passou ao neocodeon e depois à cafeína 15. Mesmo que ainda esteja em questão uma "dependência", faz diferença se trata do uso de crack ou de maconha, ou se isto se transforma durante um tratamento; uma clínica entre a solução e o ser, cujo primeiro trabalho é romper a imaginarização do ser 16.

Em alguns casos, o fato do sujeito ter alguém que o escute, produz efeitos terapêuticos sem necessariamente ocorrer uma entrada em análise. Outros casos nos deparamos com limites e dificuldades em intervir e propiciar qualquer mudança no que se repete. Entretanto só se justifica a oferta, por constar que para alguns somente a psicanálise pode intervir, e que é um tratamento que marca uma diferença no discurso daqueles que a ela se submetem, e na sua vida. É uma prática que introduz a clínica do sujeito e propõe um trabalho sobre o gozo a partir do significante, possibilitando que a saída toxicômana possa converter-se em questão sobre o desejo.

Referências Bibliográficas

1 LAURENT, Eric. Tres observociones sobre las toxicomanias; Sujeto, goce y modernidad II, ed. atuel-TyA, 1994.
2 MILLER, J.-Alain. O Outro que não existe e seus comitês de ética. Seminário de 21/05/97. Inédito.
3 Reportagem do Estado de Minas. Jovens matam e morrem como soldados do tráfico, 12/03/00.
4 FREUD, S. Cartas à W. Fliess. Manuscrito K. Vol. I, 1896.
5 FREUD, S. Tratamento psíquico ou mental. Vol. VII, 1905.
6 FREUD, S. Cartas à Fliess nº 79- Vol. III, 1997.
7 FREUD, S. O mal-estar na civilização. Vol. XXI, 1930 (1929).
8 SANTIAGO, Jésus. El artificio de la droga...o la metonimia de la muerte. Sujeto, goce y modernidad III. Ed. atuel, 1994.
9 MILLER, J.-Alain. Para una investigación acerca del goce autoerótico; Sujeto, goce y modernidad. Ed. atuel, 1995.
10 VIGANÓ, Carlos. Conferências realizadas em B.H., 1998.
11 BENETI, Antonio. Toxicomania e Suplência. VIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, 1998.
12 FREDA, Francisco Hugo. Conclusion. Sujeto, goce y modernidad III. Ed. atuel, 1997.
13 CAMPOS, César Rodrigues. Prefácio: A entrada no tratamento - Publicação do Centro Mineiro de Toxicomania, 1992.
14 MILLER, J.-Alain. Encerramento. Coletânea de textos sobre toxicomania e alcoolismo. Publicação do Centro Mineiro de Toxicomania, setembro de 1993.
15 FREDA, Francisco Hugo. Da solução ao sintoma. Coletânea de textos sobre toxicomania e alcoolismo. Publicação do Centro Mineiro de Toxicomania, setembro 1993.
16 FREDA, Francisco Hugo. Da solução ao sintoma. Coletânea de textos sobre toxicomania e alcoolismo. Publicação do Centro Mineiro de Toxicomania, setembro 1993.
ao topo



Texto dos participantes do Curso de Formação em Psicanálise
A contribuição da mãe e a preservação da mulher

Rosilú de Ferreira Barbosa

Muito se tem dito sobre o pai. Seja na análise do Pequeno Hans e do Homem dos Ratos, seja na formalização lacaniana do Nome-do-Pai, da metáfora paterna. Lacan, no Seminário V, lembra-nos a história da Psicanálise salientando a importância do pai: o lugar do pai está no centro do Édipo. Ao contrário, pouco se tem dito sobre a importância da "fase pré-edipiana", que precede e possibilita a vivência edipiana, quando se estabelecem as relações de objeto ou do desejo neurótico, a partir da relação entre a mãe e o seu bebê.

É fundamental, segundo Lacan, que a criança seja amada; este é o fundo sobre o qual se exerce tudo o que se desenvolve entre a mãe e a criança. A mãe existe inicialmente como objeto de amor. É apenas por ocasião da frustação que ela começa a se realizar como mãe simbólica, em razão de um certo número de choques e de particularidades que se produzem nas relações entre a mãe e a criança. A mãe, objeto de amor, pode ser, a cada instante, a mãe real, na medida em que ela frustra esse amor. Lacan mostra-nos que a criança pode se apresentar à mãe como sendo o falo, atestando que pode satisfazê-la quanto ao desejo, ou seja, quanto àquilo que lhe falta.

Segundo Miller, a lição do Seminário 4 de Lacan é a de que aquilo que permanece desconhecido, quando se concentra a atenção na relação mãe-criança - concebida de uma forma dual, recíproca -, não é somente a função do pai, cuja incidência sobre o desejo da mãe é, sem dúvida, necessária para permitir ao sujeito um acesso normativo à sua posição sexual. É, também, o fato de a mãe não ser, retomando a expressão de Winnicott, "suficientemente boa" ou, segundo Lacan, quando ela apenas veicula a autoridade do Nome-do-Pai. É preciso que a criança não sature, para a mãe, a falta em que se apoia o seu desejo. Isso que dizer que a mãe só é "suficientemente boa" se não o é em demasia, se os cuidados que ela dispensa à criança não a desviam de poder desejar como mulher: é preciso que a mãe não seja dissuadida de encontrar o significante de seu desejo no corpo de um homem. A metáfora paterna remete-nos a uma divisão do desejo: o objeto-criança não é tudo para o sujeito materno. Quer dizer que há uma condição do não-todo, que o desejo da mãe deve se dirigir para um homem e ser atraído por ele. Portanto, isso exige que o pai seja, também, um homem.

Winnicott afirma que a saúde mental do ser humano é construída na mais tenra infância pela mãe, que fornece um ambiente no qual os processos complexos mais essenciais do self podem chegar ao seu termo. A "boa mãe comum" de Winnicott deve desempenhar uma tarefa para que o bebê seja capaz de começar a se tornar um ser, a se integrar e a se tornar coerente, estabelecendo um contato com a mulher que é sua mãe. O amor de mãe pode conhecer suficientemente o seu bebê de forma a fornecer um enriquecimento bem graduado, necessário para fomentar a capacidade crescente e, ainda assim, não suficiente para engendrar confusão. Cabe, a cada indivíduo, empreender a longa jornada que leva do estado de indistinção com a mãe ao estado de ser um indivíduo separado, relacionado à mãe e, também, ao pai e à mãe enquanto conjunto, enquanto par parental. Parece que o padrão da saúde mental foi, desde o início, estabelecido por uma mulher, que fez de modo satisfatório aquilo que tinha que fazer, num estágio em que, para ser significativo, o amor só pode se expressar fisicamente.

Pouco se sabe sobre a mãe de Hans. Sabemos que "ficou doente com uma neurose como resultado de um conflito durante sua meninice" e, em razão dessa doença, recebeu ajuda de Freud. Sabemos, também, da sua alegação de ter um "pipi" e de sua intenção de cortar o "pipi" de Hans, caso continuasse a manipulá-lo. A partir da relação pré-edipiana com sua mãe "permissiva", Hans experimentou uma intensificação do estado de excitação sexual através das tentativas de seduzi-la. Houve, também, a experiência de gratificação através da masturbação, fantasias de identificação ou tentativas de tomar posse da mãe. Subitamente, a excitação sexual transformou-se em angústia, e o objeto fóbico veio socorrê-lo, preenchendo sua função sobre o fundo da angústia.

O papel preponderante, inicial, da mãe na vida e na saúde mental da criança abre caminho para a intervenção/interdição do pai: já estão estabelecidas as condições para a metáfora paterna, para a simbolização e a formação de sintomas. Freud sugere que Hans produziu sua fobia para seu próprio benefício, pois sua fobia dirigiu a atenção dos seus pais para as dificuldades inevitáveis com as quais uma criança é confrontada quando, no curso de sua formação cultural, é solicitada a superar os componentes instintivos inatos da sua mente. O problema apresentado por Hans levou seu pai a assisti-lo.

A mãe é, também, mulher se, inicialmente, como objeto de amor de seu bebê, garante a possibilidade de simbolização. Depois, pela função viril da paternidade, ao viver o não-todo do desejo feminino, permite, na criança, que a identificação fálica dê acesso à significação fálica na modalidade da castração simbólica, fazendo fracassar a metáfora infantil do falo e estabelecendo a saída do Édipo, de onde o sujeito (criança) sai renovado e mobilizado pelo "ideal do eu". O "ideal do eu"exerce sua função sobre o desejo e a normatividade sexual coloca o sujeito sobre o eixo do que deve fazer como homem ou como mulher.

O que o inconsciente revela, no princípio, é, acima de tudo, o Complexo de Édipo. A amnésia infantil incide sobre a existência dos desejos infantis pela mãe e sobre a própria posição da mãe enquanto mulher que deseja. Esses desejos - que são primordiais - não são apenas reprimidos, como se pudéssemos esquecer do quanto eles são primordiais. Esses desejos são recalcados e, dessa forma, estão sempre presentes. É daí que se parte em uma análise. É a partir daí que se articula um certo número de indagações clínicas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 LACAN, J. As formações do inconsciente. In: O Seminário livro 5 (1957-1958). RJ: Jorge Zahar Ed., 1999.
2 LACAN, J. A relação de objeto. In: O Seminário livro 4. RJ: Jorge Zahar Ed., 1995.
3 WINNICOTT, D.W. Textos selecionados: da pediatria à psicanálise. SP: F. Alves, 1993
4 WINNICOTT, D.W. A família e o desenvolvimento individual. SP: Martins Fontes, 1993.
5 WINNICOTT, D.W. A criança e o seu mundo. Guanabara Koogan, 1982
6 WINNICOTT, D.W. Tudo começa em casa. SP:Martins Fontes, 1989
7 FREUD, Sigmund. Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos (O Pequeno Hans). RJ: Imago, 1999. 8 MILLER, Jacques-Alain. A Criança entre a Mulher e a Mãe. In: Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. SP:Eolia, 1998. volume 21.
9 LEMINSK, Paulo. Distraídos venceremos. SP: Editora Brasiliense, 1995.
10 MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do Seminário 5 de Lacan. RJ: Jorge Zahar Ed., 1999


ao topo


 

Almanaque 04
abril de 2000

EBP-MG - Rua Felipe dos Santos, nº 588 - Bairro de Lourdes, Belo Horizonte/ MG - Brasil. Telefone: 55(31)3275-3873

© 2007, Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de MG. Todos os direitos reservados. Design por João Carlos Martins.