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Almanaque 10
Índice
Editorial
Psicanálise e cultura - Márcia Rosa
Ilusão, verdade e real
Freud, a religião e lembranças -
Sérgio de Castro
Perspectivas freudianas sobre guerra
Helenice Saldanha de Castro
Superstições e premonições:
a visão freudiana
Mônica Campos Silva
Os desafios da psicanálise em relação aos sintomas atuais
Ana Maria Costa Lino Figueiró
As patologias do ato
Jorge A. Pimenta Filho
Da soberania do inútil
Antônio Teixeira
Um bom uso da angústia:
A hora da estrela e a estetização do objeto
Ana Maria Clark Peres
Pascal Quignarg e Lalangue
Yolanda Vilela
Antonin Astaud:
o trabalho da tradução
Márcia Rosa
O delírio como signo para a arte contemporânea
Juliana Mairelles Motta
Um comentário de "Kant com Sade"
Yasmine Grasser
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Editorial
Psicanálise e cultura
Se Freud abordou a civilização através de um mal-estar, cujas raízes mostrou estarem fundadas nos imperativos do supereu, ao se referir à cultura Lacan apresentou-a, sucessivamente, como "um empilhamento de mundos que se sucederam, uma loja de destroços" (1962), como "um esgoto" (1971) e, finalmente, acabou por associá-la à agricultura e à ebulição (bouillon), o que lhe permitiu concluir que "seria melhor chamar de cultura um caldo de linguagem" (1977) [1].
Ao tratar das relações entre psicanálise e a cultura, os artigos desse número do Almanaque não apenas retomam as formulações mencionadas, mas também discutem as relações da psicanálise com a religião, com "o lado bélico que existe na neurose", e com os fenômenos do ocultismo e das premonições. Se Freud tomou como horizonte de suas contribuições a subjetividade de sua época, os autores nos convidam a considerar também o que há de atual nos sintomas e nas patologias do ato e mostram como a cultura muitas vezes favorece que o sujeito se localize do lado das respostas, se esquive de formular questões.
Os artigos nos propõem ainda uma discussão sobre a civilização em suas manifestações artísticas, tanto aquelas que são fruto de uma "fascinação táctil pelo objeto" e que resgatam a discussão freudiana sobre a "viscosidade da libido" bem como aquelas outras nas quais a letra e suas vicissitudes entram em jogo como um objeto específico. Nesse contexto, poderemos ler comentários sobre as contribuições de Clarice Lispector, Bispo do Rosário, Antonin Artaud e Páscal Quingnard.
Por fim, o instigante comentário do texto de Jacques Lacan, "Kant com Sade" [2], torna evidentes as implicações éticas que as várias versões do objeto propostas pela cultura, e examinadas nesse debate, comportam.
Os textos deste Almanaque interrogam, cada um a seu modo, as consequências clínicas que interlocução entre a psicanálise e a cultura suscita. Vale a pena conferi-los.
Márcia Rosa
Diretora de Publicações do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais (IPSM-MG)
NOTAS
[1] Para as três leituras lacaianas da cultura, conferir Jacques Lacan no Seminário, livro 10: a angústia (Lição de 28/11/1962), no texto "Lituraterra" (em Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2004, p. 15) e o Seminário, livro 24, L'insu que sait de l'une bueve s'aile à mourre (Lição de 19.04.1977).
[2] Conferência realizada por Yasmine Grasser na Escola Brasileira de Psicanálise (EBP-MG) em 2004.

Almanaque 10
junho de 2005


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