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Almanaque 01
Editorial
Tese sobre o Instituto do Campo Freudiano
A propósito do ensino no Instituto
A saúde mental na formação do analista
Editorial
Francisco Paes Barreto
Em 1964, no Ato de Fundação da Escola, Lacan concebeu três seções. 1) A Seção de Psicanálise Pura, que se encarregaria da doutrina da psicanálise pura e de sua práxis como formação (psicanálise didática), bem como da supervisão (controle). 2) A Seção de Psicanálise Aplicada, que se encarregaria da articulação da psicanálise com projetos de tratamentos, tais como os da área médica e psiquiátrica. 3) A Seção de Recenseamento do Campo Freudiano na qual estaríam compreendidas três sub-seções: comentário do movimento psicanalítico, articulações com ciências afins (conexões) e ética da psicanálise, ou seja, a práxis de sua teoria. Nesse momento, Lacan priorizou o trabalho: introduziu o cartel como órgão de base, falou de "transferência de trabalho" e de "trabalhadores decididos".
Em 1967, tivemos a "Proposição de 9 de outubro" quando a distinção hierarquia-gradus foi apresentada como a solução do problema da garantia na sociedade psicanalítica. O essencial é que ela produz a disjunção da função Analista Membro da Escola (AME) e da função Analista da Escola (AE). O AME como analista reconhecido ao olhar do corpo social e o AE como analista resultante do passe, ou seja, aquele que conseguiu dar provas de seu final de análise. AME e AE são ainda, como frisa Miller, títulos que respondem a duas lógicas distintas: O AME, assim como o cartel, está na lógica do "todo", e o AE, assim como o passe, na lógica do "não-todo".
Outras datas: em 1968, Lacan fundou o Departamento de Psicanálise da Universidade Paris VIII. Em 1976, Miller anexou, com o apoio de Lacan, a Seção Clínica, tendo por objetivo um ensino que pudesse corresponder a uma definição lacaniana da clínica e estabelecer conexões, comportando entrevistas, cursos e uma prática de apresentação de enfermos. Em 1979, Lacan criou a Fundação do Campo Freudiano, abrindo um espaço diferente daquele da instituição analítica e daquele da universidade para a difusão da psicanálise. Por fim, em 1987, Miller fundou o Instituto do Campo Freudiano, para desenvolver a tarefa de ensino e investigação da psicanálise, levando-a a outros países.
Como ordenar essa profusão de nomes?
Uma das maneiras é privilegiar os significantes Escola e Instituto.
A Escola mantém como objetivo o que Lacan havia proposto para a Seção de Psicanálise Pura. Contando com dois dispositivos fundamentais, através do cartel ela procura responder à pergunta O que é a psicanálise? E através do passe procura responder à outra pergunta O que é um psicanalista? A Escola é a instituição psicanalítica propriamente dita. Entretanto, como observa Miller, o discurso analítico, com a suposição de saber que o suporta, tende a fechar sobre si mesmo, autodestruindo-se, quando não confrontado com outro discurso. A contraposição do Instituto à Escola é importante para que o saber exposto faça barra. O instituto funcionaria como "aguilhão" da Escola. Instituição para-universitária, abrange as duas outras seções inicialmente previstas no plano Lacan: a Seção de Psicanálise Aplicada e a Seção de Recenseamento do Campo Freudiano.
Entre Escola e Instituto, deve haver tanto intervalo como articulação. A oposição entre eles estabelece certa tensão entre saber suposto e saber exposto, entre trabalho de transferência e transferência de trabalho, entre psicanálise em intensão e psicanálise em extensão, sem que se possa restringir inteiramente cada um desses aspectos a um ou a outro.
Como propõe Germán García, da cidade dos analistas se encarrega a Escola; ao Instituto interessa os analistas na cidade.
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Tese sobre o Instituto do Campo Freudiano
Jacques Alain Miller
1- Nosso ponto de partida é isso: O Instituto não é a Escola.
2- A Escola é uma instituição analítica, o Instituto uma instituição para - universitária. Isto dá "vantagem" à Escola.
3- E também: a Escola é uma associação regida pela lei; ela tem membros, seus membros têm direitos; para serem os direitos compatíveis entre eles o Sujeito suposto Saber é votado, valendo um voto tanto quanto outro; há permutação; etc. É o regime do "para - todo - x".
4- O Instituto não é uma associação; não tem membros, o saber está com o cargo de comando, um voto não vale outro, o talento predomina, o trabalho teórico, a competência intelectual, a pesquisa.
5- Sabe - se porque é necessária a Escola. Porque é necessário o Instituto?
6- Havia outrora a Sociedade analítica e o Instituto, a saber: de um lado a associação dos membros, e do outro, a instância dos "didatas". No lugar desse binário, Lacan coloca a Escola.
7- Porque então constituir um novo binário? A mesma necessidade comanda, que levou Lacan, em 1976, a renovar o Departamento de Psicanálise, a fim de ¾cito¾ "estimular sua escola, servir-lhe de aguilhão".
8- Insistência de Lacan: renovar o Departamento (1975); querer um DEA, um doutorado (1976); criar a Seção Clínica (1977).
9- O Instituto, eu o inventei a fim de prosseguir, na França e alhures, nessa via, que é de Lacan.
10- Porque isso é necessário? Porque o discurso analítico tende invencivelmente a se destruir, ele mesmo. O saber suposto, que suporta a psicanálise, também a corrói. Por isso é necessário um Instituto de onde o saber exposto faça barra.
11- O Instituto é esse lugar. Aí se verifica por excelência a transferência de trabalho.
12- O Instituto conserva sempre alguma coisa de atópico. Quanto mais a Escola se particulariza, esposa os contornos de cada cidade, região, país, tanto mais o Instituto, em todos os lugares, tenta ser o mesmo - tal o Matema.
19 - 12 -1991 (Tradução: L.S.D.F.)
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A propósito do ensino no Instituto
Márcia Rosa
Partindo da "Tese sobre o Instituto do Campo Freudiano" , dois pontos concernentes ao ensino da psicanálise no Instituto nos interessam em especial:
1- O fato do Instituto ser uma instituição "para-universitária", na qual "o saber está em posição de comando" e na qual se verifica, por excelência, a "transferência de trabalho", e
2- A posição atópica do Instituto, posição que lhe confere uma "vocação matêmica".
O SABER EM POSIÇÃO DE COMANDO
Em principio, o ensino no Instituto se faz nos moldes do que Lacan denominou Discurso Universitário, discurso que faz série com o Discurso do Mestre, o Discurso da Histérica e o Discurso do Analista.
S2 -> a
S1 // S
No Discurso Universitário, o saber (S2) está em posição de agente, de comando, sustentando "a fantasia de um saber-totalidade", de um "tudo-saber". Posto nesta posição, ele constitui uma espécie de herdeiro, de resíduo do Discurso do Mestre. Assim como dizemos que "o supereu é o herdeiro do Complexo de Édipo", o saber, no Discurso Universitário, é o herdeiro do Discurso do Mestre. Ele surge aí com um caráter de "imperativo categórico", de mandamento, que Lacan formula nos termos: "Continua a saber!", imperativo que só pode gerar mal-estar, já que é próprio ao supereu emitir uma ordem sem levar em conta se é possível ao sujeito acatá-la ou não.
Se é o imperativo do supereu que está na base do mal-estar na civilização, Lacan falará, a propósito do Discurso Universitário, em mal-estar dos estudantes; "mal-estar dos astudados", diz, fazendo um jogo significante entre o estudado e astudado, ou seja, mostrando que o estudante vem no lugar do objeto 'a'. Se no Discurso do Mestre é o escravo que vem no lugar do objeto a, no Discurso Universitário é o estudante que está posto na posição de escravo, de escravo do saber! Identificado ao objeto 'a' o estudante produziria o quê? A dificuldade está aí, diz Lacan, já que o que se produz nesta relação de escravidão ao saber é um sujeito dividido, S.
Lacan retoma Freud, dizendo que educar é impossível à medida que o sujeito pensa aonde não se pensa pensar; o pensamento é pensamento inconsciente e daí só se pode produzir um sujeito dividido em relação ao saber. Não nos esqueçamos que o S barrado ou dividido é também o matema do sintoma, o que nos permite dizer que o próprio do Discurso Universitário é produzir sintomas. É mesmo enquanto sintoma que Lacan lê a crise da Universidade que caracterizou o movimento de contestação de maio de 68; deste modo podemos dizer que o próprio do Discurso Universitário é produzir um sujeito em crise na sua relação ao saber.
A "tirania do saber", a "fantasia de um saber totalizador" torna opaco o que está em questão, torna impossível que a verdade apareça. Nesse sentido, "o sinal da verdade é produzido [pelos estudantes] que, produzindo um sintoma, no caso de maio de 68, um sintoma social, vão mostrar que é a mestria, o S1, que está no lugar da verdade.
Se no Discurso Universitário o saber é posto como imperativo, fato que leva à produção de sintomas, a solução do que se produz aí surge a partir de uma mudança na relação do sujeito ao saber, ou, para usar os termos de Lacan, surge a partir de um giro no discurso. Neste giro, o saber deixa de ser posto como imperativo, para ser formulado como desejo: desejo de saber. Nesse giro o sujeito se desloca do "imperativo de saber" ao "desejo de saber", e "o desejo de saber, afirma Lacan, não tem relação com o saber, (ou mesmo com uma pulsão epistemofílica, como quis Freud): o que conduz ao saber é o Discurso da Histérica. Posto isso, pode-se observar que, se o Discurso da Histérica é um dos modos através dos quais Lacan designa o discurso do analisante, ficam já assinaladas duas posições na relação do sujeito ao saber: uma posição universitária e uma posição analisante.
INSTITUTO: UMA INSTITUIÇÃO PARA-UNIVERSITÁRIA
Retomemos então a nossa questão inicial, i.é, o ensino da psicanálise no Instituto. Se concluíssemos, um pouco apressadamente, que este ensino se faz apenas nos moldes do Discurso Universitário chegaríamos a alguns impasses que nos levariam, necessariamente, a uma mudança de discurso, ou de posição em relação ao saber. Isso já está, de algum modo, assinalado nesta outra expressão: o Instituto é uma instituição "para-universitária". O prefixo grego par(a) designa "proximidade", "estar ao lado de", designa um "elemento acessório, subsidiário". Indo nesta direção, podemos dizer que o ensino da psicanálise no Instituto não está senão "ao lado", não está senão "próximo" a uma formação universitária ¾ou seja, ele não eqüivale a¾, ele surge aí como "um elemento acessório, subsidiário" e que não deixa de introduzir aí contradições e mesmo questionamentos. Por exemplo: fica em questão, logo de início, a fantasia de um saber-totalidade, fantasia que agencia o Discurso Universitário.
A psicanálise se prende a um modo particular de transmissão já que não é constituída simplesmente por um saber, mas por um saber que é atravessado pelo desejo inconsciente. Se podemos falar de dois tipos de saber, de um saber calcado no desejo consciente e de um saber atravessado pelo desejo inconsciente, no ensino e na transmissão da psicanálise esses dois tipos de saber se entrelaçam, se sustentam um ao outro e terminam por, de algum modo, convergir na formulação e na formalização da teoria e da clínica psicanalíticas. Cabe lembrar também que, em certos momentos, esses dois tipos de saber entram em conflito e se impedem mutuamente.
Podemos fazer uma breve menção ao modo como este saber circula na relação transferencial de Freud a Fliess. Se nos valemos dos termos e da formalização lacaniana, podemos ler aí um primeiro tempo da transferência no qual Fliess é posto no lugar do Sujeito suposto Saber (S.s.S.), no lugar de um grande Outro (A), e um segundo tempo, introduzido pelas queixas cardíacas, no qual, ao colocar em dúvida a competência de Fliess, Freud se depara com a falta no Outro, i.é, com o S de A barrado, S(A). Pode-se dizer que Freud atravessa a "fantasia de um saber-totalidade", que ele constata, sob transferência, a incompletude do Outro e, por conseguinte, a incompletude do saber.
No decorrer desse processo vão ocorrendo giros nos quais o saber ocupa, a cada vez, um lugar diferente. Vejamos quatro dos lugares possíveis:
- o saber está no Outro, esteja este Outro apresentado em um sonho, ou encarnado em Fliess, posto no lugar de mestre (Discurso do Mestre);
- o saber é produzido, giro no qual Freud fica em uma posição histérica e faz as suas queixas de problemas cardíacos (Discurso da Histérica);
- o saber está no lugar da verdade, Freud vai além das suas queixas e se dá conta de que a verdade do Outro implica a incompletude (Discurso do Analista);
- a constatação da incompletude mostra que a totalização do saber, fantasia que surge quando o saber está em posição de agente, não opera senão como um semblante, i.é, como uma ficção (Discurso Universitário).
Pode-se, pois, concluir que o Instituto não faz senão um "semblante de universidade", ou mesmo de universalização. No entanto, o enlaçamento entre o universal, o particular e o singular nos indica um outro ponto no qual podemos nos deter um pouco antes de concluir, ou seja, a vocação matêmica do Instituto.
A VOCAÇÃO MATÊMICA DO INSTITUTO
A formalização da psicanálise, empreendida por Lacan, nasce junto com o seu ensino e com o seu projeto de retorno a Freud no início dos anos 50, e está posta até o último momento deste ensino. Assim, ao ler Lacan, nos deparamos com esquemas, grafos, fórmulas, figuras topológicas, etc.. Em um dos seus últimos Seminários Lacan chega mesmo a afirmar que "a formalização matemática é nosso fim, nosso ideal porque só ela é matema, quer dizer, capaz de transmitir integralmente". Mas, ele acrescenta logo a seguir: "A formalização matemática é a escrita, mas que só subsiste se eu emprego, para apresentá-la, a língua que uso. Aí é que está a objeção-[ à uma transmissão integral ]- nenhuma formalização da língua é transmissível sem o uso da própria língua".
Assim o matema, a "vocação matêmica", está ligada à transmissão da psicanálise. Ela nasce junto com o ensino de Lacan à medida que a situação da psicanálise nos anos 50, no tocante à formação do analista, deixava evidente que o uso e a significação dos conceitos freudianos não servia mais a nada; embora associados, os analistas "se dispersavam na confusão de Babel". Assim, pela via do escrito de fórmulas, de grafos, etc., Lacan visava uma transmissão integral da psicanálise. Esta transmissão não se sustenta na suposição de que é possível uma transmissão sem perdas ou restos. Lacan mostra que o aquilo que está escrito de modo matêmico implica a leitura, implica a língua que reintroduz aí o mal-entendido. Assim o matema "é feito para permitir um sem-número de leituras diferentes, multiplicidade admissível", diz ele, "desde que o falado continue preso à sua álgebra".
Em Televisão, Lacan fala no "dom do matema" . A palavra dom poderia nos fazer pensar em dádiva, presente; mas não é este o sentido do dom do matema, pois ele implica algo mais: implica uma produção na qual cada um, enquanto leitor, possa pôr-de-si. Pode-se, pois, concluir, que a vocação matêmica do Instituto é, em si-mesma, um convite a que cada um coloque algo de si.
Texto da Aula Inaugural, apresentada na Abertura das atividades do Curso de Formação em Psicanálise, em 10/08/98.
MILLER, J A . "Tese sobre o Instituto do Campo Freudiano". In: Almanaque de Psicanálise e Saúde Mental. Ano 01- Número 01, novembro de 1998. Publicado pelo Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, Belo Horizonte.
LACAN, Jacques. o avesso da psicanálise, O Seminário, livro 17. Rio de Janeiro: JZE, 19xx.
pp..97-99.
Ibid., p.30.
ibid., p.21;100.
Para esta questão conferir o já clássico artigo de Octave Mannoni, "El análisis original". In: La outra escena, claves de lo imaginario. Bs. As.:Amorrortu editores, 1969. pp.87-98.
LACAN, Jacques. mais,ainda, O Seminário, livro 20. Rio de Janeiro: JZE, 19xx. p. 161.
LACAN, Jacques. "Subversão do sujeito ". Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 1998. p. 830.
LACAN, Jacques. Televisão. Rio de Janeiro: JZE, 1993. p. 75.
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A saúde mental na formação do analista
Antônio Beneti
I
O título nos faz pensar na saúde mental como algo prévio à formação do analista, desde seus antecedentes, desde sua formação universitária, algo como um campo onde o analista teria uma freqüentação importante para a sua formação, para seu percurso, e ainda como um campo onde o analista teria, por dever analítico, que intervir, sobretudo nesses tempos de globalização e discurso da ciência. Ou seja, um campo onde mais do que nunca o analista deveria freqüentar como imperativo ético no que concerne a orientação lacaniana para o próximo século. E, aí, não se trata mais da questão colocada há algumas décadas de estar nos serviços públicos, nas instituições de saúde mental para ir de encontro à clínica da psicose", de um "não recuo diante da psicose" ou ainda, pela questão da clínica psicanalítica com crianças. Estamos num outro tempo, e devemos ter clareza sobre nossa posição e participação nesse campo, a partir de diretrizes que a orientação lacaniana nos permite traçar. No Brasil, tivemos um primeiro ciclo marcado por um instante de olhar ao redor da difusão do ensino de Lacan através dos grupos, um tempo de elaborar com a construção de uma clínica, e um momento de concluir com a construção da Escola e introdução do dispositivo do passe, onde ainda estamos, enfrentando dificuldades concernentes ao real enquanto efeitos de grupo. Mas, já se abre um outro ciclo, com o tempo de criação dos Institutos, numa transmissão que passe por convênios com a universidade e com as instituições de saúde mental, com uma inserção ativa dos analistas lacanianos nesses serviços. Os institutos se constituem como instrumento fundamental para a entrada do discurso analítico nos campos da universidade e da saúde mental.
De qualquer forma, desde que a saúde mental está excluída dos antecedentes do analista nas suas formações prévias universitárias, vamos nos deter no tempo do analista em formação e de sua participação nesse campo já enquanto analista praticante.
Alguns textos que pudemos ter acesso, tais como "O analista cidadão" (E. Laurent), "Saúde Mental e ordem pública" (J.-A Miller) e duas frases de Lacan em "...ou pire" e "L'insu..." além de nosso próprio percurso nesse campo, nos dão aqui a orientação lacaniana e nossa posição.
Esses dois textos nos dão com bastante clareza a definição, a partir da psicanálise, do campo da saúde mental e da posição do analista de hoje, de orientação lacaniana, com relação à sua participação nesse campo.
II
Com Miller, encontramos a definição da saúde mental enquanto ordem pública. O desenvolvimento que encontramos dessa conceituação nesse texto, a partir de nossa leitura do mesmo, se inicia com a noção de responsabilidade e sujeito-resposta, sujeito de pleno direito. O psicanalista, desde que não é um trabalhador da saúde mental, não pode prometer e nem dar ou garantir a saúde mental definida enquanto ordem pública. À ordem pública interessa saber dos trabalhadores da saúde mental, quais indivíduos podem circular livremente pelo espaço do social e quais não podem; quais não podem se responsabilizar por seus atos nesse espaço, e que teriam que ser definidos como sujeitos de não-pleno direito pelos trabalhadores da saúde mental, a partir de seu comportamento. A psicanálise se endereça aos doentes mentais donde tem um sujeito de pleno direito. O que já nos coloca a primeira questão sobre o lugar e a função do analista na instituição de saúde mental, quando nos lembramos da "moral lacaniana" proposta pelo mesmo J.-A. Miller, onde afirma que "tem um sujeito no doente", para nós, responsável por seus atos. Contrariamente à posição de outros profissionais nesse campo, por exemplo, com relação às passagens-ao-ato psicóticas.
Pouco mais adiante, no texto, a saúde mental será associada como uma perturbação estrutural do físico, do mental e do social. Teríamos aí um retorno ao doente enquanto ser bio-psico-social? Não, desde que, enquanto analistas teríamos que pensar essa tríade considerando-a como corpo biológico - sujeito do inconsciente - Outro do Social, da Cultura. Miller, com Lacan fará alusão ao mental como um órgão que se interpõe entre a realidade e o real: um "guia de vida", dizendo que o mental está em nós dede o início, ressaltando que o inconsciente não é o mental. O texto termina afirmando a saúde como o "silêncio dos órgãos" e a psicanálise como sendo de grande eficácia para colocar em desordem o mental e o físico uma vez que o inconsciente, campo de ação do analista, difere radicalmente do mental enquanto psiquê, enquanto alma. A psicanálise não tem nenhuma necessidade desse conceito, desde que o inconsciente tem a estrutura da linguagem.
Essa última afirmação nos coloca de cara a questão de nos perguntarmos qual a função do analista nesse campo do mental: coloca-lo em desordem? Se a psicanálise tem essa eficácia teríamos uma posição contrária à ordem social e não teria razão alguma para o Estado - através dos gestores de saúde, nos serviços públicos - abrirem as portas para os analistas ou suporta-los no seu espaço, quando sua presença fosse detectada através dos efeitos de seu discurso.
III
No outro texto, "analista-cidadão" é o significante que ordena a posição contemporânea do analista no campo da saúde mental, na orientação lacaniana no mundo globalizado, movido pelos discursos capitalista e da ciência, nestes tempos de declínio do pai e dos ideais que comandavam o sujeito na sua relação com o Outro da cultura.
O que nos traz aí Eric Laurent?
Houve uma época em que o analista enquanto "máquina de desidentificação" construiu um ideal de marginalização social da psicanálise, um ideal de analista concebido como o marginal, inútil, que não serve para nada, somente para uma posição de denúncia de todos que servem para algo. O analista vazio, desprovido das identificações, apagado, morto. Quase como um "toxicômano da psicanálise", diríamos nós, a se sustentar numa posição cínica a exemplo do toxicômano na sua relação de oposição, via denúncia do discurso capitalista. O analista contemporâneo deve intervir nos sintomas de seu tempo, produtos do discurso da ciência e capitalista, saindo da posição do analista especialista da desidentificação para a posição do analista cidadão. O que implica o trabalho com a diferença, através do trabalho conjunto com outros cidadãos profissionais conectados ao campo da saúde mental. Numa posição de ajuda à civilização com respeito à articulação entre o universal das normas e o singular, o "menos-um", das particularidades. O lugar da psicanálise nas instituições se especifica pela distância que ela sabe instaurar, introduzir, em relação aos ideais psicoterápicos diversos, individuais ou coletivos, para fazer surgir a particularidade do sujeito: (U-1). O analista, mais além das paixões narcisistas da diferença, tem que ajudar, porém com outros, sem pensar que é o único que está nesta posição. No nosso mundo contemporâneo, se os analistas são os únicos que escutam, devem saber transmitir a particularidade, o "menos-um" de cada cura, caso-acaso. Torna-se então necessário pedir, propor, lutar, trabalhar pela construção de uma rede assistencial sustentada pelo matema da clínica (U-1). Considerando, sempre, que nesse mundo de hoje só resta, diante da queda dos ideais, o debate democrático O campo da cultura mudou com a globalização.Devemos participar dos comitês de ética e, no campo da saúde mental, das equipes multidisciplinares.
Assim, foi possível construir e dirigir, juntamente com Jésus Santiago, um serviço público de tratamento para toxicômanos orientado analiticamente, sob a forma de ambulatório e hospital-dia, que se mantém já há cerca de 14 anos. Ali instalamos um programa de ensino com discussão de casos clínicos, seminários, supervisões regulares e jornadas. Além de reuniões semanais com técnicos e funcionários.
Foi assim que na direção clínica de um hospital psiquiátrico público foi possível introduzir a clínica sob transferência uma enfermaria, no setor de urgências e no hospital-dia, além das supervisões e apresentações de enfermos regulares. Na verdade, trata-se de trabalhar no sentido de instalar a transferência e, a partir daí, tratar dos seus efeitos com os recursos que a teoria psicanalítica nos oferece.
O analista, nos diz E. Laurent, deve fazer declarações na cultura, no campo das opiniões, participando dos debates e refutando por sua vez as críticas à psicanálise, demonstrando a experiência e enfrentando o fantasma das avaliações, eficácia e estatística nos serviços públicos de saúde mental. Considerando sempre que a ciência modifica os ideais.
Trata-se de demonstrar sempre que a boa lei, a boa regra será sempre furada pelo real, pela falta no campo do Outro.
É a partir dessa orientação que, em Minas Gerais, está sendo construído o Instituto de Psicanálise e Saúde mental. Notem bem que o significante saúde mental vem atrelado ao significante psicanálise, já para marcar uma posição daqueles analistas que aí transmitem com relação ao campo da saúde mental. No instituto temos uma Seção Clínica estruturada em quatro Núcleos de Trabalho teórico-prático, totalmente inseridos no campos da saúde mental através de estágios clínicos e apresentação de enfermos: psicose, toxicomania, criança e medicina. Tentaremos também, além dos convênios com as instituições públicas de saúde mental, convênio com a universidade. Estão aí os analistas junto aos outros profissionais, os trabalhadores de saúde mental, os médicos, a escutarem os chamados doentes mentais e os doentes propriamente ditos, a transmitirem a singularidade de cada cura, caso-a-caso.
IV
Por fim, em ".ou pire", na lição de 21/06/72, Lacan nos dirá que "a saúde mental não é uma entidade nosológica" e que a mentalidade tem falhas. Falhas que em "L'insu." na lição de 17/05/77, irá nos alertar para o fato de que o discurso da ciência, por mais fascinante que possa parecer, não recobre. Há um furo que a ciência ou a boa lei, a boa regra ou norma não recobrem nunca. É aí que a aposta do analista encontra seu respaldo, sua sustentação. Para tal torna-se necessário, diríamos, que os analistas despertem de seus sonambulismos, de seu automaton não restringindo o discurso analítico à prática clínica privada e à prática na Escola. Deve-se ir mais além.
Nesse texto, nessa mesma lição, Lacan definirá "a doença mental como o inconsciente que não de desperta" (Ornicar? N.17/18 pg.21). Aí Lacan nos aponta um automatismo mental cotidiano de todos nós.
O lugar do analista na instituição de saúde mental poderia, através do seu discurso, ser o lugar da tiquê, ao mesmo tempo em que a saúde mental poderia para o analista funcionar enquanto tal: um encontro faltoso. Da mesma forma que a clínica da psicose funciona como em êxtimo da clínica da neurose, a clínica da saúde mental poderia funcionar como um êxtimo da clínica psicanalítica? Se falamos em tiquê podemos falar de despertar. De um despertar do automaton do sonambulismo. Não há mais lugar para o analista sonâmbulo. Mas, com a ressalva de que nesse mesmo texto Lacan dirá que o problema é despertar o sonâmbulo.

Almanaque 01
novembro de 1998
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