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CIEN DIGITAL

Editorial — Nosso tempo
Apresentação — Nosso tempo, tirano. Por Beatriz Udênio
Hífen — Uma possibilidade para a ficção. Por Antônio Dutra
Entre-Vista — As respostas dos jovens. Por Fernanda Otoni Barros
Labor(a)tórios — A oferta da palavra hoje
Orbita — A manhã de trabalho do CIEN Brasil
Ponto de Vista — Tom Zé na escola
Cinecien— Quem quer ser um milionário? Por Cristiane Barreto
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Maria Rita Guimarães
Caro leitor,
Apresentamos-lhe um novo número do CIEN-Digital. Com a alegria de descobrir, ao concluí-lo, algo insuspeitado no início de sua concepção. Diferentemente dos números que o antecederam, esse não foi planejado em torno de uma temática. No entanto existe um fio comum que faz volteios pelos quais se desenha uma delicada discussão: nosso tempo. O tempo contemporâneo e suas exigências.
Na abundância de sentidos que a expressão nos permite, nosso tempo é o tempo de respostas às prementes exigências do relógio, entre as quais se inclui, na acelerada sucessão da informação, a de estarmos “in”, tal como se diz estar “por dentro”. Pois, caso contrário, já se está “out”, fora do tempo. Somos a versão do Coelho Branco de Lewis Carrol: “Ai, meu Deus, Ai meu Deus! Vou chegar muito atrasado!”
Em Apresentação, Beatriz Udenio, psicanalista e organizadora das próximas Jornadas do CIEN em Buenos Aires por ocasião do IV Encontro Americano que se realizará em agosto de 2009, nos diz que vivemos a “agudização desta cultura da celeridade, entendida como “enfermidade do tempo”. Tudo nos recorda as inesquecíveis imagens do grande Chaplin em seu genial “Tempos Modernos!” Vamos nos perguntar, como nos convida Beatriz Udenio, quais as conseqüências da tirania do tempo sobre as crianças e adolescentes e também para os profissionais que trabalham com eles. Que podemos ver refletido nos sujeitos e em suas experiências cotidianas?
Nosso tempo moderno também nos impele ao uso da palavra de forma abusiva, sob os argumentos de que falar faz bem, previne doenças eficazmente. Não engolir as palavras do outro é recomendado como vomitório próprio à época de culto à comunicação. Cabe aqui a expressão “enfermidade da palavra”.

As rubricas Entre-Vista, LABOR(a)tórios e Órbita ilustram como se distancia dessa enfermidade a “ política da palavra” na orientação lacaniana, apresentando a palavra dos jovens por eles mesmos e os resumos de trabalhos apresentados na Manhã do CIEN que se realizou no final do ano passado no Rio de Janeiro, anunciada no CIEN-Digital n. 5.

Adriana Varejão
Nosso tempo, subjetivamente vivido, é o tempo marcado por uma pulsação distinta da pulsação medida pelo relógio. Por ela se entrevê, no espaço de um instante, alguma coisa do não realizado, tempo de abertura e de fechamento, conjeturável apenas. Não será algo disso que nos diz Antônio Dutra na rubrica Hìfen?
“A ficção é antes de tudo tomar entre o papel e a caneta, ou computador e tela, a dimensão da finitude do homem no incontável tempo, vislumbrar um instante depois, depois do autor, lançando o narrador ou todo artefato narrativo como um último aceno aos vivos.”
Esse tempo particular, único, também vislumbramos nas palavras de Tom Zé: “Eu fui atingido por uma flechada em pensar que também podia sair dali alguma coisa que prestasse”. Um instante de ver, clarão trazido pela palavra de seu professor da escola primária. Tom Zé nos dá seu Ponto de Vista.
Em CINECIEN encontramos a pergunta: Quem quer ser um milionário?
Cristiane Barreto animou-se em responder. Vamos conferir
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JORNADA INTERNACIONAL
DO CIEN: A PRESSA EM RESPONDER
Buenos Aires, 26 de agosto de 2009
Beatriz Udenio
As viagens de longa distancia em ônibus são, habitualmente, uma experiência na qual o uso do tempo se coloca em questão: o que fazer, como conseguir que seja útil ou que passe rápido, são formulações habituais que abrem um leque de possibilidades ao viajante.
Constantemente me encontro nessa situação porque costumo viajar com freqüência e me dediquei a observar o que acontece durante esse tempo do percurso.
Em uma dessas viagens, meu companheiro de assento era um jovem camponês que ia para sua cidade natal. Quando soube qual era minha profissão me ofereceu um comentário pessoal que serve para nosso propósito nesta oportunidade.
Atualmente operário de um importante matadouro no litoral argentino, contou-me seu sofrimento após ter se separado de sua mulher e de sua pequena filha, porque não tinha tempo nem humor para compartilhar com elas. As quinze horas de trabalho extenuante liquidavam no para qualquer tipo de vínculo afetivo possível. O curioso é que decidiu aumentar seu relato para me explicar que isto havia ocorrido no último ano com 25% dos operários do matadouro e que, portanto, a instituição havia contratado uma grande equipe de psicólogos para tratar seus assalariados. Com que finalidade? Ajudá-los a refletir sobre seus problemas e implementar ações e soluções para, com isto, não afetar o nível de produtividade da empresa. Em nenhum caso falou-se em diminuir a jornada de trabalho.
Despedi-me do jovem com um aperto de mãos, desejando-lhe boa sorte ao mesmo tempo dizendo-lhe que talvez ele quisesse voltar a seu trabalho no campo...
Tempo, produtividade, velocidade, eficácia, destreza, rapidez são significantes que tomaram especial relevância nos últimos anos. Suas conseqüências sobre os sujeitos são analisadas por sociólogos, jornalistas, analistas políticos, científicos e personagens da cultura.

ViK Muniz
Algumas destas leituras(1) acentuam os estragos aos quais a pressa conduz, sobretudo no nível dos laços sociais. como víamos no exemplo de meu casual companheiro de viagem e indicam possíveis medidas paliativas para diminuir o ritmo da vida contemporânea. Ou seja, sublinham os distintos tipos de respostas que o coletivo social programa, entre as quais se podem destacar as variantes do chamado “Movimento Slow”, que buscam resgatar as virtudes de um tempo próprio (Eigenzeit), singular, “tempo giusto”, forma harmônica à qual cada um poderia aspirar.
Estas abordagens situam no nascimento da era industrial e no auge das idéias de Frederick Taylor a agudização desta cultura da celeridade, entendida como “enfermidade do tempo”. Tudo nos recorda as inesquecíveis imagens do grande Chaplin em seu genial “Tempos Modernos”!
Também chegam a sublinhar em seus termos discursivos como o hábito da velocidade pede maior rapidez: torna-se ávido, voraz, uma voz em off que exige: “Faça tudo mais rápido!”
Basta esta breve referência extraída destas aproximações ao problema para nos situar em nosso discurso, o psicanalítico e estender de alguma maneira nossas reflexões.
“Faça tudo o mais rápido!” abre a dimensão do Outro social que a época instalou, um Outro que exige que se consuma tempo e que todos consumam com rapidez no tempo. Silencioso ou vociferante, cego ou onividente, este Outro exige que o homenzinho o satisfaça(2).
As novas respostas coletivas tentam escapar dessa exigência, modificar essa presença
invasiva desse Outro voraz, que coage. O movimento Slow é uma mostra disso.

Sebastião Salgado
Ao mesmo tempo, “Faça tudo mais rápido” chama à tentação própria da pulsão, a esse empuxo que Freud denominou Drang, esse empuxo a satisfazer-se, sempre, sempre... Nisto, as respostas também surgem: são as que cada sujeito elabora frente a esta exigência íntima, premente, insaciável.
Neste ponto começamos a nos aproximar aos nossos propósitos de exploração desta tirania que concerne ao tempo e sua clara incidência sobre as crianças e adolescentes de hoje e aos profissionais que trabalham com eles. Como repercute sobre os mesmos este estado de coisas? Que podemos ver refletido nos sujeitos e em suas experiências cotidianas?
O talento de Freud detectou muito cedo como a infância e a adolescência se acompanhavam desse empuxo, dessa tormentosa exigência pulsional que os adultos deviam saber acompanhar. Um texto inesgotável que pesquisamos muitas vezes no marco do CIEN - Psicologia Escolar(3) mostra um Freud que insiste com os mestres e professores a se fazerem interlocutores de cada garoto em seu tempo próprio, esse Eigenzeit que pode surgir de certa detenção ou demora em relação aos tempos “comuns” da maioria.
Lacan também marcou em seu original escrito; “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada”(4) uma tensão inerente ao tempo e uma oscilação necessária entre pressa e espera, localizando um Tempo de compreender que pode ser variável e que não pode se apressar se pretende chegar ao Momento de concluir.
Miller, no campo mesmo da infância, anos atrás, em 30 de outubro de 1992, na Abertura das II Jornadas Nacionais do Centro Pequeno Hans(5), cunhou uma definição nova da criança, como aquele “sujeito cuja libido não se deslocou dos objetos primários”. O crucial é que decidiu indicar que, no que concerne à libido, é importante o fator temporal, uma temporalidade sempre variável que dá conta de como cada criança vai produzindo uma transformação desse lugar de pequeno a, em que nasce no discurso do Outro, até chegar a ser $.
São referências que deveremos percorrer, que indicam bem com que elementos doutrinários podemos oferecer um pensamento crítico frente esse apressamento contemporâneo que paira freqüentemente sobre as crianças e sobre os profissionais que estão com elas envolvidos em suas práticas.
As crianças estão cada vez mais impelidas:
- a serem juridicamente responsáveis por isso alguns propõem baixar a idade, baixar o tempo em que lhes podem tornar imputáveis de delito;
- a serem consumidores como vocifera a mídia “se espera,será muito tarde”:
- a serem eficazes exigência que se verifica no meio escolar;
- a serem sadias e bonitas.
E fazem sintomas chamados contemporâneos como modo de resposta, que implicam também o alto preço que pagam por se acomodarem a este estilo de vida apressado.
E os profissionais, igualmente impelidos, ressentem-se em seu trabalho e em sua possibilidade de aproximar-se e acompanhar esse tempo da infância, sempre único e próprio.
É o que nos propomos investigar nestes meses de preparação da próxima jornada internacional do CIEN, que acontecerá em Buenos Aires, na quarta feira, dia 26 de agosto de 2009, e que organizaremos de forma conjunta com as equipes do CIEN na Argentina e no Brasil.
Em ambos os países, nossos laboratórios do CIEN serão, ao mesmo tempo, o terreno e a fonte para este trabalho. Veremos, no final do mesmo, o que poderemos colher a respeito.
Tradução: Maria Rita Guimarães Revisão: Heloisa Telles
Notas
[1] Honoré, Carl. Elogio de la lentitud. Ed. Del nuevo extremo, 2007
[2] Lacan, Jacques. O aturdito, Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
[3] Freud, Sigmund. Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar (1914). Rio de Janeiro: Imago, 1974 (Edição Standard Brasileira das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 13).
[4] Lacan, Jacques. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
[5] Miller, Jacques-Alain. Desarrollo y estructura. In: Desarrollo y estructura en la dirección de la cura. Buenos Aires: Atuel, 1993.
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“Há autores que são microscópios, há autores que desprezam as paisagens, há aqueles que descrevem a paisagem, outros que precisam de movimentos amplos e outros há que são e esses são poucos que são a amplidão” AD, in Dias de Faulkner.
Ele é Antônio Dutra. Historiador, professor e escritor carioca. Escreveu o romance Dias de Faulkner, livro que consagra o nascimento de um autor.
Partindo da visita ao Brasil do escritor norte americano William Faulkner em 1954 - uns dos renovadores da prosa de ficção no século XX -, o autor resgata com detalhes e vivacidade a ambientação da cidade de São Paulo no início da década de 1950. Ele também nos leva a outros lugares e épocas, Chicago, Paris, em que o real e o sonho se misturam permitindo o reencontro de Falkner com Joseph Conrad e James Joyce, regados a delírios etílicos e lembranças da adolescência.
Sua narrativa, ancorada na pesquisa, nada tem de documental, ao contrário, ela nos revela com precisão e poesia um mundo recriado, tecido e recomposto pelas palavras.
Com seu romance ele venceu o VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana, promovido pela Casa de Escritores Estrangeiros e de Tradutores de Saint-Nazaire, na França (MEET: La Maison des Écrivains Étrangers et des Traducteurs de Saint-Nazaire), e além de ter seu livro publicado no Brasil e na França, Antônio Dutra hospedou-se dois meses no final de 2008 na Casa de escritores de Saint-Nazaire, casa considerada por ele “mítica” onde Harry Laus, Milton Hatoum, Caio Fernando Abreu também estiveram.
Foi nesta ocasião que ele também conheceu o editor de Terre Du CIEN, TDC - Jean-Luc Mahé e pode conhecer o trabalho do CIEN na França.
Antônio Dutra publicou no ano de 2002, em uma antologia, um texto sobre o papel do livro na cultura brasileira com o apoio da Academia de Letras, colabora desde então com o blog literário “Paralelos” e, desde 2006, tem uma crônica no caderno bis do jornal Tribuna da Imprensa.
O CIEN-Digital aproxima-se assim deste autor interessando-se também por sua prática como professor de adolescentes da escola publica Colégio Estadual Alexander Graham Bell.
Ele vai nos contar sobre sua experiência enquanto escritor, nos revelar aonde o escrito o leva e nos dizer qual a importância da ficção nos dias de hoje. Ele nos brinda com seu testemunho, um textomundo, ensinando-nos que escrever é descrever-se de seu mundo. Criar em si mesmo e no outro, Outra dimensão, ali onde, na impressão da letra, se passa o que não se escreve, o que escapa ao sentido.
Cristiana Pittella de Mattos
Antônio Dutra
A primeira decepção de um escritor é justamente perceber que ele não vai escrever os livros que ele mais admira. A sua fala a custo se transforma em texto precário, impreciso, fruto de um caminho que depois de feito, somente ele percebe as arestas, as trilhas, o suor e o precipício. O texto então nasce diante do choque entre o que vê e aonde imagina chegar; ora nesse sentido, a possibilidade da escrita para um escritor se instala quando esse sujeito ultrapassa a cópia dos modelos (não quer dizer que os supere), e se deixa ir, montando de palavras um desenho, a aquarela que só ele daí sim a primeira certeza fundamental poderia fazer. Como um pintor ou desenhista viajante dos oitocentos, notando rápido uma cena, mesmo que tomada por outro já se faz nova, o evento que depende dos olhos, como registro, aos poucos fixo, porém maleável como memória.
A segunda decepção é perceber que o texto não pode ser total, não há e espaço para um somatório hegeliano, um avante inscrito na marcha ou nas dores da humanidade quase tornada una, de fato, com o terrível medo que o planeta acabe. O texto como uma pausa entre a passagem natural das gerações, menor, um som, latente, incapaz de estabelecer a direção, apenas repondo no meio do público o que esse homem, admirador das narrativas, considera poder provocar, interrogar, enfim poder escrever. O texto nasce assim, cada vez sussurrando: “um pouco menos, um pouco menos”.
O escritor passa ao texto quando percebe a falta, a incompletude da experiência viva, percebe a distância entre o homem e o que tem a dizer, o indivíduo e as narrativas. Nesse sentido é preciso avançar se esmorecer passo a passo, descartando o que se perde sozinho, soltando farpas.

Mira Schendel (1919-1988)
Então o texto surge quando superada a ilusão de contar mais uma história no turbilhão do patrimônio humano, mas aquela que por ele deve ser escrita. Encontrar as palavras e mensurá-las, provar seu sabor, como pequenas pepitas jogadas umas contra as outras, liberando seu aroma, numa sinestesia inconfundível.
Formar um texto é mais do que se deixar arrastar pela corrente de enredo e personagens, talvez seja amalgamar, torcer, dilapidar, concentrando no gesto, montar os cubos, servindo dos pretextos, como ensina Autran Dourado e seu mestre imaginário, para bater a carteira do leitor.
A paisagem, o homem, o vento que sopra, a chuva, a fala, a escrita como fragmento do caos, da realidade, multiforme, capturados... Não há limite para se pensar nesse jogo de metanarrativa que a literatura pode propor, que o diga Borges e o jogo de espelhos e sonhos, que o diga Proust e a consciência do narrador, que como em Kafka, nos confunde no espaço dúbio entre a primeira e terceira pessoa.
A ficção é antes de tudo tomar entre o papel e a caneta, ou computador e tela, a dimensão da finitude do homem no incontável tempo, vislumbrar um instante depois, depois do autor, lançando o narrador ou todo artefato narrativo como um último aceno aos vivos.
Não se enganem: escrever é descrever o próprio afogamento de narciso.
A terceira decepção é saber quão tolo seria querer aprisionar o vivido, a escrita correndo sempre o risco de ser paródia, nota a mais, do que segue não dito, daí a impossibilidade do romance como percebeu Beckett nas páginas magras, o que cala o texto é a mensagem ou o protesto, para onde se anda é sempre o silêncio total.
O escritor aonde vá está sempre consigo.
O mais difícil nessa escritura é encontrar o tom, o traço do próprio livro, até que se chegue à música.

ViK Muniz
Como professor, procuro estar atento ao que me dizem os alunos, às vezes na expressão, idiossincrasia do ofício, perguntam-me sobre como é escrever, imaginando os louros da fama, em um mundo de instantes e celebridades, enquanto muitos esquecem as próprias vidas, explico que elaboro, rasuro, refaço o que pretendia, contrario os planos iniciais, e após um ou outro comentário vem o rotineiro “nossa, como o senhor é inteligente”, como houvesse degraus de inteligência, e não diferentes gostos e aplicações. Digo-lhes que sigam quem são, mas dá trabalho descobrir quem se é, quanto mais o que se pode ser... “não desanime, você tem tempo”.
E no meio daqueles jovens aprendendo a errar, ensaiando suas opiniões, por vezes parece que lhes apresentar mercantilismos e Índias é a coisa mais risível em meio a seus mundos marcados de violências, que o mais honesto seria quem sabe parar, fugir da engrenagem, humanizar mais do que ouvi-los, sugerir idéias, opções, vê mais nitidamente quem é esse jovem que me fala, entre os horários compartimentados, as disciplinas e avaliações, deixar que me fale de suas experiências, ou dessas com as quais se tornam sujeitos de suas próprias narrativas.
Talvez eu devesse apontar a cada colega o drama dessa contradição, vemos jovens, num ambiente e contexto que pouco podemos ouvilos, deveríamos ler seus traços e escritos, e apontar o que há de individual, que não se repete, para além desse mundo que se apresenta a eles bidimensional, partido, onde Darwin é o último exilado sabido.
Como professor e escritor é importante perceber os contornos de suas decepções, no magistério a cada dia se apresenta um novo desafio e a urgência de compartilhar humanidade com humanos, desculpe a inevitável redundância (porém real), a cada dia compreendendo toda a massa televisiva que sorvem e ela por si só parece que cria desejo, modelo, às vezes conhecimento, as vezes entretenimento e muitas ocasiões a pura ignorância, estar todos os dias com eles, é tratar-lhes com respeito, é compreender que ofertar caminhos é fazer indivíduos melhores que poderão desfrutar uma sociedade mais justa, aprendendo a dissociar cidadania e a simples sucessão eleitoral, indivíduos construídos por si e mais completos.
Como escritor, busco mostrar que nada me detém, com um pouco de sorte, quem sabe, nem mesmo a morte, quando tenho uma caneta nas mãos. Digo sempre somos todos da mesma matéria, nada além, nada mais. Mostro os caminhos que percorri, os textos que escrevi, as pessoas e cidades em que estive, seja Paris, Saint-Nazaire ou Rio, sempre comigo, e todos os sons, e pessoas trazidas entre os dedos e a tinta da caneta. Conrad e Céline, Drummond e eles também.
Lá se vão mais de dez anos de magistério, e nesse tempo, apesar da publicidade mais recente da vida de escritor, os alunos me perguntam muitas coisas, quase nunca a pergunta mais difícil: por que escrevo?
Como o presente texto prova, não saberia dizer numa frase ou outra, talvez dissesse uma coisa genérica e mudasse de assunto ou finalmente me poria seriamente a questão, nem que fosse preciso convocar essa conversa oculta entre inconsciente e o eu que amarra isso tudo, talvez risse e por vergonha falaria de qualquer coisa... não sei...
Espero que no fundo não tenham me perguntado, não por falta de interesse, é obvio que não se trata de indiferença, talvez também, por não terem se posto essa questão, já que cada vez mais vivem em um mundo já criado, estabelecido por alguém, ou algum programa de computador capaz de lhes poupar da angústia de não saber; admito que seria decepcionante.
Torço apenas que não tenham me perguntado porque entendem que é justamente isso que vai sem palavras, e eu não sei dizer, o motivo é sem verbo, apesar dele me servir para avançar, passo a passo, e é a vida inteira.

Adriana Varejão
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Fernanda Otoni Barros, responsável pelo Laboratório Entre as fronteiras das práticas sócio educativas.
Fernanda Otoni: Como é mesmo que acontece nesta moda do “ficar”? Um menino pode engravidar duas meninas ao mesmo
tempo, sem nem ter pensado em ser
pai?! Como é que fica?
Jovens: Acontece, né!... a gente nem pensa nisso. É provisório! Pegar e largar! Depois já passou, não tem nada a ver! A gente nem sabe direito como fazer com isto, é o corpo que agita. Falam que as meninas ficam de um jeito violento diante dos rapazes, se expondo, se mostrando; é o que falam que é a sexualidade, não é? São chamadas de “Periguete”.
Fernanda Otoni: Como? “Periguetes”? Que nome é esse? Os gêmeos Gustavo e Otávio Pandolfo

Jovens: (Riso geral) Ah! “Periguete” é uma mulher poderosa que não liga pra nada, gosta de dinheiro, gosta de bandido, do que o bandido pode dar pra elas. É só “Zoaçao” é só para curtir. Não é só sexo: tem a droga. Em troca de cocaína, elas se oferecem, se jogam e se dão. Essa é uma relação que é só pra curtir o momento.
Fernanda Otoni: Mas todas são “Periguetes?
Jovens: Tem mulher que se acha é na curtição e na droga. Na droga a mulher perde o que quer e se entrega; depois coloca a culpa na droga. A mulher não lembra o que fez no dia seguinte. Ela num ta nem ai! Ai o sexo é violento. Mas também é porque ela não sabe como se comportar que ela busca a droga e se joga deste jeito. Nas músicas que os meninos têm escutado a mulher é detonada, recebe o nome de “periguete” onde a palavra de ordem é “tem de pegar e destruir”. Essas periguetes seriam aquelas mulheres que dão para todos. A música fala o que acontece com elas, não com todas as mulheres! Parte delas são periguetes. As periguetes: é um nome, né, para a mulher que só quer saber de curtição.
Fernanda Otoni: Começamos a falar de gravidez e apareceram as “Periguetes”....
Jovens: (Risos) Pois é: Elas se jogam, se oferecem, se vendem, se lançam sem nada querer saber, vale aqui e agora, tem nada depois não. Falam que os filhos das periguetes são os “tiquim”. Sabe por quê? Se perguntarem quem é o pai, vão responder que é filho do “tiquim”. Um “tiquim” de cada um.
Fernanda Otoni: O pai é apenas um “tiquim”? Assim?! Um “tiquim”?
Jovens: Mulher de verdade quer um homem para bancar. Muitos homens entram no trafico por causa de mulher, roupa, etc. A briga de amante com a fiel, é relação de mulher com outra mulher, o cara é não tá com nada aí. Mas diante dessas meninas oferecidas, da mulher exposta, o homem desorienta, ele entra no crime: pra ele estar bem na fita, ele oferece droga e objetos bacanas. É isto que tem no malote do homem, é isto que a periguete quer: seu malote! Homem sem malote, não é homem!
Fernanda Otoni: Então é assim, o malote faz um homem?
Jovens: O homem na verdade é apenas um figurante nesta historia, ele não vale muito não, é um simples objeto, na verdade ele pode ser apenas um malote! É o “moleque piranha”, ou aquele com “o passinho do prostituto”.
Fernanda Otoni: O que é isto?
Jovens: A gente quando vê mulher fica à flor da pele. Muitas vezes a gente faz qualquer coisa para aparecer! O que elas vão falar dos homens se eles não cair matando, pegando todas, caindo na lama?
Fernanda Otoni: E as meninas, o que dizem?
Jovens: Muitas meninas acreditam que são “aquilo” que os meninos chamam elas: acho que é porque elas não têm ninguém do lado delas. Não tem, assim, um adulto que goste delas, um pai e mais importante ainda uma mãe que possa dizer pra elas que elas não são “periguetes” e ponto final. Se tivesse alguém do lado, que acreditasse e apoiasse, elas iam ser mais do que isto, elas poderiam mostrar que são diferentes desse nome que estão chamando elas. Quer ver? É a mesma diferença entre bandido e trabalhador: bandido bate na mulher, trabalhador conversa. Mulher que ele ama é tudo e ai ele trata bem. A amor do homem é reservado para as meninas que estudam, que vão ter um futuro na vida. São as meninas de família, de valor! Já as mulheres que tão ali só para zoar, curtir, atrás de droga, esta é uma cachorra, não é para tratar bem.
Fernanda Otoni: É sempre assim? É tão rígido assim?
Jovens: Bem, a gente conhece muita gente que pode ter sido bandido ou periguete, mas este nome pode mudar se acontecer de encontrar alguém, tudo muda. As periguetes podem encontrar alguma coisa no meio do caminho e largar o malote pra lá e ir cuidar da sua vida. Não é lugar fixo estar como trabalhador ou como bandido, periguete ou fiel. Isto pode mudar! Muda do outro lado também, ter uma vida toda fiel e de repente, algo aparece na frente e cai na lama. Não é fixo! Às vezes pode ser trabalhador e bandido, periguete e fiel... tenta deixar de ser e não consegue. Sei lá... Quantas vezes, ta sendo na vida periguete e bandido e acontece de ter um filho e mudar. Encontrar uma menina que quer um bom futuro e se apaixonar.... por isto tudo muda. O que muda é o amor! Amar alguém que cuida, que preocupa, que está do lado e não abandona! Alguém para ter filho que quer ter uma família e lutar por ela. A gente ama quem fica junto para buscar o que esta faltando para conseguir ser alguém na vida!
Fernanda Otoni: Ser alguém? O que é que isso?
Jovens: Tem que ter responsabilidade, não cair na lama. Se quer fazer somente para aparecer vai desaparecer rapidinho. Tem que ir além do momento, pensar no futuro, fazer projetos. Para curtir, não é preciso tomar cerveja, pegar menina e ficar loucão! Isto é ser qualquer um. Ser alguém é outra coisa. Mas olha na mídia, o que é que esta aparecendo?
Fernanda Otoni: Parece que são muitos os modos de fazer aparecer/desaparecer?
Jovens: Com o rap a gente quer aparecer de outro jeito. Mostrar a realidade do que existe! O rap nasceu para mostrar a realidade, mas a realidade da favela não é só o baile funk com gente transando no meio do baile e a maior violência. O rap também tem amor. Agora estamos com o rap em rede. DJ, grafitte, o biboy, o trabalho social. É realidade querer ter família e casar por amor. Se você chegar à noite na favela, a realidade é que tem muito boy e mina todo arrumado, querendo dar beijo na boca, andar de mão dada e escutar uma musica que leva umas idéias bacanas para gente refletir junto”. Quando isto aparece é muito bom! Na favela não tem apenas dor, sofrimento e confusão. Não vai ser preciso caçar para ver que na favela tem amor! É preciso falar sobre isto, por isto o rap é um protesto para mostrar a realidade. E resolvemos fazer um rap sobre o amor porque é uma realidade! Cada um no seu quadrado!
Fernanda Otoni: Cada um no seu quadrado? Como assim?
Jovens: Tem o rap criminal e o rap informação, é o que se chama de rap dicionário. A preocupação desse tipo de rap é não usar apenas gíria, mas usar palavras que todos possam entender o que se quer transmitir. Tem menina que gosta de ouvir aquilo que não é legal e critica o homem que não gosta de rap criminal. Mas a gente pode mostrar a diferença. No lugar da periguete, vamos apresentar a couvinha minha couvinha esta é o nome que a gente fala da namorada de um jeito legal! Outra coisa que a gente quer dizer é que a gente pode aparecer do jeito que a gente gosta de ser! Muitos jovens não são aceitos porque usam tatuagem, tererê no cabelo, porque se mostram assim como são: bem favela! Não consegue emprego, porque lá embaixo, no asfalto, ele é apenas mais um na multidão. Na verdade hoje o que a gente sabe é que a favela descer para o asfalto e a sociedade subir para o morro é muito pouco para falar de igualdade!
Fernanda Otoni: E por onde passar para falar da diferença?
Jovens: A favela hoje é motivo de estudo, tá na mídia! Na verdade a favela é lugar de exposição! Ser objeto de estudo. Isto sim é violento! Não tem retorno, não tem troca! É pegar e largar! Usam da favela pra gozar e depois tchau! É uma intervenção que não continua, não tem laço com a favela. Conhecer para explorar! O rap pode ser um dos modos de virar o outro lado da moeda. Mostrar a outra face! Para falar de favela tem que falar de origem, de onde vem este povo. Favela nem faz aniversário, já viu alguém comemorando aniversário da favela? Parece que nem existe! A favela Padre Lopes é mais antiga de BH! Aqui tem muita gente que acorda cedo, leva filho pra escola, vai trabalhar, deixa filho na creche, gente que trabalha e tem família! Isto é avanço, não é carência. A favela não é uma comunidade carente.
A gente não precisa de policia e sim de políticas sociais. Isto mostra que este povo que vem na favela estudar nossa comunidade não entendeu nada do que a gente quer. O retorno desses estudos foi a presença da polícia! Estes estudos não passaram nem perto da vida da gente da favela. Não entenderam que este povo favelado é o povo que faz o Brasil. A violência não esta no morro, esta na vida!
Fernanda Otoni: Sim! É isto! Saber disto, faz diferença?
Jovens: A arte e a cultura é o fuzil contra a violência, mas o amor vem antes. No momento que tenho meu filho, se na minha casa falo que ele não é um coitado e que ele é quem pode lutar pelo que ele deseja, ele pode encontrar um caminho para amar a sua vida. Pois o que é certo é que cada um vai se virar do seu jeito com o que a sua vida lhe der, lhe tirar e o que lhe faltar. O importante é saber fazer com isto, pois qualquer um é muito mais do que o nome que dão para ele, o lugar onde nasceu a cor da sua pele, o tipo de cabelo. Talvez a musica nos permita afastar desses nomes e se aproximar mais desse a mais de vida, que nos faz desejar amar e ser feliz!

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Cristiana Pittella de Mattos, Cristina Nogueira, Mônica Campos Silva
O direito tem encontrado impasses diversos ao ser convocado a intervir e regulamentar os laços das famílias. O pedido para que a justiça regule algo que em princípio é tratado como assunto privado, já nos orienta que não há, naquele momento, outro tratamento possível. O lugar da criança no direito é aquele da proteção, pois ela está em desenvolvimento: sua palavra é assim considerada, entendendo que uma disputa judicial possa trazer prejuízos subjetivos. Se o poder de decidir qual medida aplicar é da justiça, o de responder a ela está do lado da criança. Assim a oferta da palavra dá chances à criança de interrogar sua responsabilidade. Os encontros do laboratório têm permitido verificar as soluções particulares para alguns pontos de impasse: a medida aplicada é adequada? ela protege a criança? qual o tempo para aplicação desta medida?, qual a eficácia da medida?, até quando o direito pode sustentar o uso singular de uma medida?
Vinheta Prática
Na separação do casal foi estabelecida visita para pai e filho, mas estas ocorriam com a ostensiva presença materna. A criança passa a recusar encontrar-se com o pai, ressentida pelo modo como este se afastou dela na ocasião do rompimento do casal. A mãe da criança consiste este sentimento de decepção do filho, abrindo processo de suspensão da convivência paterno filial. É determinado pelo juiz o acompanhamento supervisionado de visitas do pai ao filho. Diante da determinação judicial a criança é convidada a falar. Ela expõe seus medos ancorada no discurso do processo judicial. Contudo, a insistência do pai em querer vê-lo lhe faz enigma. Mesmo não faltando, a criança apresenta-se retraída. O pai, percebendo tal dificuldade, propõe solicitar ao juiz o fim das visitas no Fórum. O filho responde: é melhor esperar o juiz definir sobre as visitas... hoje tenho 8 anos, posso falar com o juiz aos 12 anos... Virei nos próximos quatro anos, aí veremos como fica. A criança utiliza-se da determinação judicial para responder, podendo assim estar com o pai. Ao fazer este uso inventa uma solução particular. Ao ofertarmos a palavra à criança não se trata de lhe dar um poder de decisão, permite-se que ela se responsabilize e coloque em jogo algo de seu desejo. As discussões no laboratório permitiram extrair o ponto chave para esta criança: seu direito de não decidir, como um mínimo de liberdade diante da demanda materna.
(*) Laboratório Medidas de Liberdade e Responsabilidade (Belo Horizonte).
Marina Caldas Teixeira
Como reanimar o gosto pela palavra poética para abordar as coisas do sexo e do amor?
Vinheta prática: O impasse do modo do créu
Modo grosseiro com o qual os meninos abordavam as meninas na escola, designado “modo do créu”. No modo do créu, os meninos vão direto ao ponto: um chega pela frente, outro chega por trás e “créu” na menina. A coisa não deveria passar de um entretenimento, mas quando a menina sentiu o volume que lhe comprimia as parte intimas, desmaiou e caiu sobre o canivete que um deles usava. O acontecimento desencadeou, por parte da escola, um empuxo ao uso de medidas policialescas: suspensões, expulsões, isolamento, desmembramento de turmas.
As conversações. O Linguafiada propôs uma moratória para reconfigurar a convivência entre meninos e meninas um tempo para introduzir balizas simbólicas no caos da situação. A questão é: como forçar essa intromissão de modo que ela abra a chance de invenções mais poéticas? As conversações com professores se intensificaram. Junto às crianças, para fazer frente à vulgaridade do modo do créu, introduzimos um modo lírico de tratar essa coisa que arrepia os corpos, obseda o pensamento e atordoa os sentidos. Desde ai, os jovens passaram a se inspirarem em uma prosa poética recheada de lirismo, galanteios, anedotas e humor.
Resultados: Os professores se reposicionaram: suspenderam as medidas repressoras e elaboraram que, em tempos de “a fim e afins”, o que de melhor se pode esperar de educadores é que estes não deixem de transmitir às crianças e adolescentes um modo vivo de lidar com a própria sexualidade. Em contato com a prosa poética, meninos e meninas passaram a funcionar conforme um novo ritmo: o modo do créu foi esquecido, as meninas reduziram a volúpia dos costumes a um maneirismo delicado e os meninos passaram a se dirigir às meninas com bilhetes de amor.
Conclusão: A medida poética em doses diárias provoca extraordinárias metamorfoses: diante do estado de urgência provocado pelo excedente de sensualidade, crianças e jovens passaram ao ato no modo do créu: modo sem gosto pelas boas maneiras, subjugado pela vulgaridade do gesto e pela ausência de palavras. A oferta de uma línguafiada pela medida poética funcionou como uma mão estendida por uma fenda que, por detrás da muralha do acontecido, resgatou os restos e recompôs os sujeitos, tornando-os capazes de inventar o próprio sintoma para dele se servirem nos caminhos e descaminhos do amor e do sexo. Apostamos que diante da tarefa de escolher entre dois caminhos, cada um deles tem, agora, a chance de escolher o caminho que tem coração.
(*) Laboratório Linguafiada (Belo Horizonte).

Victor Vasarely
Teresa Pavone,Tânia Verona,Ana Maria Schneider, Maracélia Müller, Maria Consuelo Ferreira
As questões que têm impulsionado o trabalho do CIEN-PR, emergem da prática dos profissionais do laboratório, junto aos primeiros dispositivos de atendimento ao adolescente, quando este comete um ato infracional na Delegacia do Adolescente e Centro de Socioeducação. A atuação multiprofissional é neste momento voltada ao processo avaliativo para suporte às decisões a serem tomadas pelo judiciário. A prática que se estabelece nessas esferas deixa o adolescente na impossibilidade de ser escutado e um lugar como sujeito, já que é movida pelo imperativo da funcionalidade, da necessidade de apresentar respostas e resultados. Existem categorias de saberes que circulam na instituição, delimitando lugares e definindo encaminhamentos para os jovens “O problema é a droga!”, “A droga já afetou os neurônios!”, “É Gardenal!”/”É menino de rua!”, “A família é desestruturada!”. O laboratório se situa na antípoda dessa posição.
B., 14 anos, apreendido pela segunda vez por tentativa de assalto é encaminhado para internação provisória. Apresenta longa história de agressão e maus-tratos por parte da família. No processo de discussão do caso evidencia-se a tendência a lhe ser concedido um lugar de vítima, não sendo escutado em relação ao investimento no universo delinquencial marcado por uma identificação com contextos que envolvem a prática de homicídios com extrema crueldade. B. revela que em momentos em que se encontra no interior das favelas, junto aos grupos criminosos, assiste aos crimes praticados mencionando, com expressão de riso, detalhes sobre a execução das mortes realizadas sobe torturas. Afirmando que diante destas cenas sente vontade de rir.
O trabalho pela via do CIEN possibilitou uma intervenção na direção do caso.
A manifestação de gozo diante do horror, que não era percebida, ou seja, a condição do sujeito e seu gozo passou a ser visível através da discussão interdisciplinar e de um novo olhar por parte dos profissionais. Ocorreu uma mudança da decisão judicial, a qual iria se repetir, pois a Defensora Pública insistia para que a intervenção principal não fosse o internamento, privilegiando o abrigamento em meio aberto. Explicitou-se a necessidade de um acompanhamento sistemático e efetivo para o jovem, viabilizado pela inserção em uma medida socioeducativa. Para concluir apostamos que a conversação poderá ter efeitos de desidentificação dos ideais por parte dos profissionais e, quem sabe, por parte de alguns desses jovens envolvidos, provocar um “desajuste” em suas identificações primeiras e mortíferas, abrindo um espaço para a vida.
(*) Laboratório: “Os Jovens 'Fora-da-Lei', o Tratamento Institucional e a Abordagem Psicanalítica” (Paraná)
Ana Tereza Groisman, Maria Cristina Bezerril Fernandes, Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros
O laboratório “Causar para não segregar” teve inicio em 2006 e surgiu da demanda de um atendimento clinico às crianças e adolescentes atendidos por um grupo cultural que trabalha em comunidades carentes com um projeto de inclusão social através da arte e da cultura.
Não responder de imediato a este pedido possibilitou o aparecimento de uma angústia e uma urgência difusas na própria equipe de educadores que trabalhavam com as crianças. A oferta de um espaço de conversação nos permitiu acompanhar com a equipe de educadores a construção de um espaço de fala e a conseqüente mudança que ocorreu entre os membros da equipe. As rivalidades iniciais deram lugar a uma questão que norteou o grupo num primeiro tempo em sua pesquisa: Qual a função do educador? Por qual transmissão um educador é responsável? O engajamento da equipe em procurar respostas e não fugir das perguntas, mantinha o grupo ativo e os questionamentos se dirigiam a todos. Aos poucos, o dizer de cada um pode se fazer não mais como um instrumento de punição ou de segregação, e a dimensão de causa introduzida possibilitou a fala orientada pelo desejo de contribuir com algo que fizesse questão e não mais de quem tem razão. Causar para não segregar passou a nomear a experiência.

Os gêmeos Gustavo e Otávio Pandolfo
Uma pequena vinheta. Nos últimos encontros, a equipe vem tratando da dificuldade dos educadores em lidar com a questão do despertar da sexualidade, sobretudo das meninas; “elas ganham corpo de repente! É tudo corpão!”,
diz um educador. O que fazer com este “corpão” que passa a despertar a cobiça dos homens, sem cair na tentação de reprimir ou moralizar? Como orientar estas meninas que identificadas à cultura do funk se entregam a uma exposição excessiva de seus corpos e se apresentam como “as cachorras”? A equipe se divide, há quem pense que elas gostam de serem vistas assim, “é uma escolha”, “é uma questão de berço”, há quem se choque e questione se é realmente uma escolha ou uma alienação ao estereótipo apresentado e valorizado pela cultura local. A questão da distância geracional também é levantada: “Eu tô parada no tempo, não vejo como isso pode ser bom para elas!” A equipe não encontra sozinha uma resposta, mas resolve levar a pergunta adiante e começa a se delinear um trabalho possível junto às adolescentes, baseado nas letras de funk, para que possam pensar no que está sendo dito sobre a mulher e o sexo e, quem sabe, possam encontrar um novo caminho para lidar com o feminino.
(*) Laboratório “Causar para não segregar” (Rio de Janeiro)
Cláudia Margarido Pacheco, Milena Vicari Crastelo, Felipe Ortolani, Raquel Marinho, Simone Trevisan de Góes, Siglia Cruz de Sá Leão (res
ponsável pelo laboratório).
Em um artigo de 1998, Lacadée indica que
o CIEN surge como uma resposta ao mal estar da civilização visando constituir-se como instância de encontro, lugar vazio, exterior às disciplinas, e capaz de “re-situar o problema do saber e do sujeito”. 1
Tal orientação exige uma análise do estatuto que adquire o saber na atualidade, em um tempo de empuxo à globalização e produção de respostas generalizantes. Pretende-se hoje, nas diversas áreas de conhecimento, obter resultados através de instrumentos de medida e avaliação. Marca da contemporaneidade, que coloca a premência da investigação científica, do saber especializado.
LACADÉE, P. La disciplina del CIEN. In: Cuadernos CIEN Argentina, n. 01.
Frente a este fenômeno, o caráter inédito da proposta do CIEN reside, sobretudo, no tratamento dado à interdisciplinaridade, no “uso de vários discursos” para abordar o real em jogo nas diferentes problemáticas que concernem crianças e adolescentes.
Partimos do pressuposto de que é no âmbito de um laboratório que o uso particular dos diversos discursos promove uma elaboração, de maneira que cada disciplina se deixe interrogar pelas outras, sendo um de seus efeitos certo desarranjo nas identificações em relação ao seu próprio saber.
Assim, nossa aposta é em um espaço de conversação, no laboratório, entre profissionais de diversas disciplinas. A conversação acontece sobre um tema lançado à discussão ou sobre a apresentação de uma situação prática em que haja um impasse. Em torno de pontos de nãosaber, a construção de cada qual aparece.
Uma vinheta ilustrativa: uma psicóloga, que atua numa VIJ apresentou como questão a experiência de um atendimento bem sucedido, situação inusitada naquele campo institucional sobretudo pelo difícil contexto de chegada da criança. Perguntou-se o que havia operado.
No caso 2 , a comprovação dos maus tratos e da rejeição materna, questões caras ao ECA e à Psicologia Jurídica, pode receber outro tratamento: o que foi escutado foi a aflição da jovem mãe de perder sua filha de 5 anos em Juízo, em decorrência de seu não saber fazer com a maternidade.
Inicialmente, os diferentes profissionais convocados a emitir um parecer técnico científico, dentro de seus campos de saber, responderam com a medida prevista: o abrigamento. Em um segundo momento, uma escuta da psicóloga sustentou a aposta do retorno da criança à casa materna. Num terceiro tempo, a psicóloga ao barrar a exigência das normas protocolares, conseguindo junto ao Juiz que o processo permanecesse naquele Fórum, apesar das constantes mudanças de endereço do casal, colocou acento na demanda que o caso apresentava.
A profissional deixou-se ensinar pela prática, ao não responder ao “ideal” esperado. Suportar um lugar vazio de respostas, conduzir o caso mediante a gravidade da situação da criança, colocando a trabalho o não saber, abriu a possibilidade para uma invenção do sujeito.
A conseqüência para os participantes da experiência do CIEN seria, pois “deixar-se surpreender pela invenção do sujeito”, possibilitando um deslocamento dos significantes que o aprisionam em uma posição de objeto.
Se esse é um dos efeitos, a proposta do CIEN é a de ser um “ponto exterior às disciplinas”, que se origina no lugar que o discurso científico exclui o lugar vazio, o lugar do sujeito 3 . Sustentamos que esta particularidade a criação deste lugar no cerne da experiência advém do uso de vários discursos.
(*) Laboratório A criança e as ficções jurídicas (São Paulo)
PACHECO, C. M. et. al. Em busca da família. CIEN-Digital, n. 4, jul. 2008. Disponível em: <http://www. wapol.org/publicaciones/cien_digital/cien_digital_ 004.pdf>.
LACADÉE, P. La disciplina del CIEN. Cuadernos CIEN Argentina, n. 1.
Ruth Helena P. Cohen
Este trabalho pretende testemunhar a prática da palavra no laboratório Brincante, criado a partir da demanda da equipe médica do IPPMG-UFRJ 4 , que constata um grande sofrimento psíquico nas crianças submetidas à quimioterapia. Frente a esse desafio foi aberto um espaço de conversação e pesquisa intervenção sobre as diferentes formas que o brincar oferece como um tratamento possível ao real que invade os corpos dos sujeitos brincantes 5 . Esse dispositivo vem sendo construído com profissionais de três áreas: psicanálise, medicina e educação física.
Dois espaços de fala se estabelecem: um diz respeito a encontros semanais com os alunos e professores da EEFD 6 e outro, contingencial, com a equipe médica do IPPMG. No primeiro, o tema gira em torno dos impasses que se expressam sobre a escuta do brincar nas oficinas e na quimioterapia. O maior problema se explicita sob a forma de como os oficineiros 7 acolhem o material produzido pelos sujeitosbrincantes: deixar que na associação livre a palavra da fantasia ofereça seu material; e suportar não dirigir a cena que se desenrola sobre temas que provocam angústia. Setor de Hematologia do IPPMG – Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira da UFRJ.
Referimo-nos às crianças que participam das oficinas e da sala de quimioterapia do IPPMG.
Faculdade de Educação Física da UFRJ.
Alunos da EEFD/UFRJ. com a equipe do hospital extraímos falas que indicam como nossa intervenção modifica o ato médico. Hoje, as crianças levam seus jacarés e monstros para a consulta desafiando o adulto que antes as amedrontava.

Na quimioterapia, um menino pergunta: farão “aquela coisa em minhas costas”? (punção lombar). Ninguém responde. Ofereço-me para investigar e lhe dizer. A enfermeira confirma e ele se põe a chorar, pois está “com fome”. Suporto sua dor, não a minimizo, apenas lhe ofereço minha escuta. Pede que lhe conte a estória do Saci Pererê. Eu apenas dou a saída e indico que ele mesmo o faça. Sua narrativa tem a intenção de me produzir medo, pois “a Cuca vai te comer.” Pára de chorar e ri muito quando me assusto. Queixa-se novamente de fome quando a enfermeira chega para levá-lo, mas de quê fome se trata? Essa experiência nos ensina que as crianças sabem fazer com a satisfação pulsional, na tensão que se instala, quando o brincar quer dizer. Não havendo mais amparo na decifração como forma de saber sobre o real, nos deparamos com a “incompatibilidade do gozo com o sentido” 8 fazendo enigma sobre o que ocorre nesse topos, no qual emerge o brincar, em seu estatuto de dizer, de “re-criação”.
(*) Laboratório Brincante (Rio de Janeiro).
Maria do Rosário Collier do Rego Barros e Jana Monte Vieira da Cunha.
Componentes: Ana Teresa Groisman, Astrea da Gama e Silva, Cleide Maschietto, Carmen Telles, Dinah Kleve, Marcia Wanderley, Mariana Mollica, Renáh de Castro, Ana Laura Fonseca, Ana Miller, Jacques-Alain. Décima terceira lição Orientação Lacaniana III, 10, 26 de março de 2008 (inédito) Tradução: Lucy de Castro, Revisão: Maria Angela Maia.
Lúcia Montouro, Alessandro Allegrette, Antonio Constanza, Cléa da Silva, Clóvis Neves Filho, Fátima de Araújo, Glória F. da Silva, Heloísa Helena F. da Silva, Ligia Mefano, Liliane Henrique Martins, Mara Silvia Dantas, Maria Celia Biamgolino, Mônica Soares F. Zucarino, Maria Christina de Figueiredo, Patricia F. de Abreu, Roberto Nóia, Sonia de Abreu da Silva, Sérgio Luis Bertovvi, Vera Lúcia Pitanga.
O Laboratório Práticas de Conversação é realizado há dois anos numa escola pública localizada em uma comunidade carente do Rio de Janeiro. Este ano houve um desdobramento do trabalho, quando foi criado um novo grupo de conversação, especificamente com os professores das crianças menores - P2.
Para a discussão na manhã do CIEN extraímos duas questões que retornaram algumas vezes durante as conversações:
1) Uma objeção ao próprio trabalho, que se apresentou como um impasse entre o particular e o universal: de que adianta o trabalho com um pequeno grupo de profissionais se a problemática vivida na educação exclusão, desânimo, agressividade é muito mais ampla. Trata-se de uma política nacional?
A lógica que opera quando se visa à totalidade é excluir os alunos que trazem problemas para que a maioria possa avançar. Foi justamente falando e fazendo circular as dificuldades particulares de cada um dos professores que se extraiu a segunda questão:
2) O que fazer com a agitação incontornável dos alunos? O que fazer com o que é difícil de nomear? Eles ficam assim: “vúúúúuú”, disse uma professora. A resposta imediata se apresentava como um imperativo controlar para poder educar. Mas essa resposta não tinha a eficácia de conter tal agitação e trazia efeitos nefastos para os professores que, na tentativa de controlar o excesso dos alunos, sentiam-se sem autoridade, muito desgastados e queixando-se de dores no corpo, rouquidão, etc.
A partir da intervenção “Não se trata de conter o excesso, mas tratá-lo, lidar com ele” se produziu um efeito de corte na queixa e nas soluções ineficazes.
Pode aparecer, então, em que ponto as professoras conseguem ser uma autoridade: cada uma passou a contar o modo singular como ensina. Uma utiliza o som das palavras, outra cria um texto a partir do que os alunos trazem do universo deles. É a partir do que cada uma inventou, ao longo dos anos, como seu modo próprio de ensinar que constatam, na conversação, ser aquilo que funciona para alfabetizar a turma. Pudemos testemunhar como a dimensão do singular passou a descompletar o impasse da lógica particular/universal. Introduzimos a questão para o debate: a exceção faz a regra? O que se pode fazer com o que escapa ao esperado, com o que incomoda, com o que não se sabe bem como lidar?
(*) Laboratório Práticas de Conversação (Rio de Janeiro).
Nanci Mitsumori, Valéria Baptista Ferranti; Ana Lúcia Esteves; Daniella Teixeira de Souza; Célia Maria Betti Siqueira; Maria Luíza Ricúpero; Mônica Nobre; Priscila Varella; Sônia Perazzollo.
Nosso Laboratório tem se dedicado, há alguns meses, a investigar qual é a especificidade da conversação que se pratica sob a orientação do CIEN. Uma das referências que usamos foi um artigo de Marc Fumaroli que traça a história da conversação na França. Ele nos mostra que o termo “conversação” começou a ser usado, provavelmente, no século XVI, mas aquilo que ele designa remonta aos diálogos platônicos, que seriam não somente a origem, mas a fonte e o centro da conversação.
A França conheceu diferentes práticas da conversação, mas o “espírito” dos diálogos retratados por Platão perdeu-se no século XIX, com a publicação de uma vasta literatura normativa que pretende estabelecer uma “retórica da conversação”, entronizando a palavra útil, aquela que é comunicação. A partir daí, a conversação não deveria mais ser o lugar do jogo do prazer, do imprevisível e da improvisação, mas o da eficácia, do efeito calculado, da palavra profissional.
Podemos dizer que o CIEN nasceu como resposta a uma época que estendeu, talvez a seu ponto mais radical, esse valor utilitário da palavra. Hoje, a palavra não tem que servir somente para bem comunicar, mas também para transformar. Nesse sentido, a questão que nos colocamos é se a conversação no CIEN, ao se colocar como contraponto às inúmeras práticas em que a palavra é usada como instrumento para promover o “bom funcionamento” dos sujeitos, não recuperaria algo do “espírito” dos diálogos platônicos.
As discussões mais recentes do Laboratório nos levaram à conclusão de que sem nossa ida “a campo”, isto é, sem que nos proponhamos a estabelecer uma conversação com os profissionais, com as crianças e adolescentes nas instituições onde o sintoma social se apresenta, temos poucos elementos para responder a esta e às diversas outras questões que foram surgindo ao longo de nossa investigação.
Dessa forma, o momento atual é o da elaboração de um projeto de intervenção prática. A partir de sua implantação, talvez continuemos sem as respostas às perguntas com que ora nos debatemos, na medida em que muitas outras se colocarão. No entanto, acreditamos que essas perguntas, oriundas da prática, terão mais a contribuir para fazer avançar a experiência do CIEN, do que as elaborações puramente epistêmicas.
Podemos dizer que esta é a resposta inédita que se pode produzir no seio de nosso Laboratório.
Laboratório O imperativo da inclusão (São Paulo)
Maria Rita Guimarães
O a_PALAVRAR se orienta pela política do impossível em seu trabalho junto a uma instituição educacional.
O objetivo da “orientação sexual” dos Conteúdos Programáticos Nacionais determinada pelo MEC como currículo escolar é invalidado pelos professores porque os alunos sabem muito sobre sexo, pensam eles. Este saber que o professorado imputa ao alunado foi deduzido, também, pelos problemas gerados na escola por comportamentos de natureza sexual, inadequados à instituição.
Um aluno de nove anos, recém-chegado à escola, já está consagrado como “tipo assustador”. Por quê? De forma recorrente, à fala da professora esse menino intervém e sua fala é sempre relativa ao sentido sexual do termo empregado por ela. O exemplo diz respeito à interrupção sofrida em aula de língua portuguesa quando era usada uma poesia como material de ensino. Um verso continha a palavra “pintor” e o aluno acrescenta a palavra “pinto”. A professora se diz “assustada”, não sabe o que fazer e o manda para fora de sala.
Em uma conversação em que o fato foi narrado, a palavra circulou até o momento em que outra professora introduz o fato novo de que o comportamento do aluno, em sua presença trabalham em equipe de três não apresentava o comportamento de apenas falar com a intrusão do sentido sexual das palavras. Este dizer novo sobre o aluno “assustador” funcionou como ponto de estofo no fluxo das interpretações morais da conduta do aluno. No entanto, os efeitos surgidos desta conversação apenas puderam verdadeiramente se apresentar na ocasião de posterior encontro. O relato da reincidência da conduta do aluno com a mesma professora foi colorido pelo frescor de sua posição: invés de se sentir afetada pelo assustador, aproveitou a ocasião e passou ao conteúdo dos vários sentidos das palavras. Esse exemplo pretende ser capaz de nos indicar os momentos em que os professores se “assustam” no exercício da transmissão de conhecimento e saber. A partir desses momentos chegam à impotência que irá obstruir a passagem a nova forma de resposta.
Se a autoridade está em declínio, como exercer o papel e a função pelos quais se está responsabilizado? Não há respostas, senão a resposta, diante da situação, de começar a construir respostas. A Escola poderá saber fazer algo com o sintoma do aluno, com a singularidade do sujeito, caso dele se aproxime com os aparatos da cultura. Caso o interpele de maneira direta, só conseguirá sua fixação.
(*) Laboratório a PALAVRAR (Belo Horizonte).
Kenia Miranda, Monique Vincent e Paula Kleve
A partir de um incômodo, face ao aumento no campo educacional da classificação de comportamentos e medicalização das crianças, tornou-se possível um encontro da equipe do colégio com alguns psicanalistas.
Nossa entrada na instituição se deu com a palestra Impasses e passes da autoridade nas práticas pedagógicas. Em seguida, iniciamos as conversações com os orientadores, professores, psicólogos, psicanalistas e pedagogos.
A prática que até o momento se apresentava como o inominado tornou-se o grupo de conversação “Aprendendo a não-saber”, não por acreditarmos na dissolução do conhecimento na sociedade, mas por que dentro de uma instituição que se vale sine qua non do conhecimento a escola, precisamos nos apresentar a falha no saber perante as respostas prontas Se há um caminho para aprender, ele se inicia no reconhecimento do que não sabemos para, assim, abrir espaço para o novo.
Vinheta prática
Um menino de nove anos constantemente é levado para o SOE por sucessivos roubos e exibições sexualizadas, dramatizadas e “efeminadas” Sua professora apresenta-o como um menino com “trejeitos de mulher”.
Há relato de um episódio de tentativa de “automutilação sexual” em sala de aula e notícias de que esse menino roubava dinheiro das mulheres e pequenos objetos da mãe. Jogava o dinheiro no lixo e com os objetos roubados presenteava as amigas para se tornar “popular” entre elas.
A professora narra o episódio em que ele confessa um roubo e o leva ao banheiro para que devolva o que pegou. No prosseguimento da conversação aparece um novo dito: o menino usava, por vezes, uma peruca no recreio, divertindo a todos.
Na conversação seguinte, duas questões se impuseram: Por que ele rouba de mulheres e por que permitem o uso da peruca? Esta questão teve como primeira resposta a afirmação de que todos têm o direito de trazer o que quiserem para o recreio, propiciando uma discussão sobre a norma e a exceção.
Ao particularizar o caso, torna-se possível compreender que se ater à norma, poderia estar favorecendo a não circunscrição de um gozo exibicionista deste aluno.
A quem servia o “palhaço” da turma? Porque permitem isto?
Essa pergunta faz vacilar um saber sobre a regra igual para todos e obriga a equipe a se resituar perante o singular, questionando a satisfação obtida por todos com as atitudes do menino. A conversação permitiu também fazer vacilar o sentido de verdade e mentira.
Levantar os impasses e perguntas aos participantes da conversação define uma das funções deste trabalho, assim como acolher a angústia dos vários integrantes, suportá-la e permitir que novos olhares e soluções se apresentem.
(*) Laboratório A criança e as ficções jurídicas (São Paulo)
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Sobre a primeira mesa de trabalhos
Teresa Pavone
O Encontro de diferentes laboratórios de vários estados brasileiros ocorreu em um clima de vivo interesse reunindo mais de 80 participantes. Em debate, o uso da palavra dos laboratórios CIEN fez ressoar os efeitos de uma prática interdisciplinar com a orientação da psicanálise, que convoca a palavra do sujeito em contraponto aos objetivos dos ideais normativos do discurso do mestre que comandam as instituições em geral.
A primeira mesa foi composta por quatro laboratórios atuantes no campo da educação e um no campo da medicina e práticas hospitalares. Os laboratórios relativos à educação suscitaram interrogações a respeito das políticas institucionais e suas ações “policialescas” sobre os comportamentos das crianças que fogem à regra e aos comportamentos preconizados. Os efeitos da prática da conversação ficaram patentes em seu surgimento, tanto do lado dos profissionais quanto do lado das crianças ou jovens. As ações dos laboratórios demonstraram formas inéditas de lidar com o incontornável da pulsão, com o excesso de gozo. As invenções advieram de um saber novo não orientado pelo pré-estabelecido normativo e de controle e sim a partir do uso da palavra que inclui a exceção.
A convocação da palavra do sujeito com sua verdade “não toda” na prática do laboratório a Palavrar (MG), por exemplo, colocou a questão da sexualidade na escola a trabalho. Diante do impossível de educar ou ensinar o sexual, o laboratório apontou em sua vinheta prática a possibilidade de descongelamento do sentido de um significante que fixava um sujeito e os professores em torno dos embaraços com o sexual e seus impasses em sala de aula.
O laboratório “Práticas de conversação” (RJ) exemplificou como, através da prática da conversação no laboratório, pode-se, a lógica do universal, do “para todos”, que rege a instituição escolar, contrapor outra lógica para atuar junto à escola e trabalhar a exceção. Produziram-se efeitos interessantes em relação á questão que mobiliza os educadores como conter (a agitação) o excesso de gozo das crianças. Da única saída que vislumbravam “controlar para poder educar” surgiu no laboratório a possibilidade de tratar o inesperado (o que foge às regras) e não de controlá-lo, o que provocou grande mudança efeito de corte na posição dos educadores: de queixosos à inventivos na direção de novas soluções na abordagem do ineducável (a agitação).
O caminho de formação de outro laboratório foi exposto ao exemplificar o trabalho da palavra entre vários um trabalho teórico foi elaborado, em que se pode extrair a sustentação acerca do instrumento base do laboratório: a conversação. A palavra nele colocada em prática, interrogando o próprio instrumento proposto, alicerçou os laços entre os profissionais envolvidos para enlaçá-los na temática que instiga o laboratório “O imperativo da inclusão escolar” (SP).
O laboratório “Língua afiada” (MG) apresentou um trabalho poético, indicando um manejo especial da palavra e da linguagem no laboratório, fazendo uso da oficina de poesia de forma criativa, usando-a como instrumento de transformação, levando alguns jovens estudantes a abandonarem uma prática “musical” e de “atuação” na Escola o funk e suas relações com a experimentação dos laços amorosos e iniciação sexual violenta. Substituindo o chulo pelo sublime, a poesia não só foi ofertada aos jovens, como permitiu a um deles fazer uso dela como forma de expressão. A pacificação dos jovens “desbussolados” pelas forças pulsionais do despertar da primavera foi uma resultante deste trabalho. Outro efeito foi a suspensão de medidas normativas e punitivas por parte da escola: evitou-se a expulsão de alunos.
Com o laboratório “Brincante” (RJ) testemunhamos uma interlocução eficaz entre psicanálise, medicina e práticas hospitalares junto à equipe de atendimento a crianças em tratamento quimioterápico para doenças oncohematológicas. A oferta da palavra na dimensão do singular e pelo brincar faz a diferença neste trabalho que vem sendo conduzido no âmbito hospitalar. O ato médico e procedimentos hospitalares foram modificados nesse espaço onde as crianças têm a possibilidade de expressão, como sujeitos. Podem brincar, falar ou mesmo calar para dizer de seu encontro com o real pelo qual se vêem invadidas pela doença e pelos tratamentos necessários aos quais são submetidas. Os efeitos que incidem nos profissionais também foram anunciados: a conversação (a troca interdisciplinar) tem ajudado a suportar as suas angústias diante do sofrimento das crianças e a escutá-las em sua singularidade.
Sobre os trabalhos da segunda mesa
Heloisa Prado Rodrigues da Silva Telles
Dos trabalhos da segunda mesa desta Manhã destacaram-se os aspectos relativos aos fundamentos e à orientação do CIEN, que tomaram forma de contribuições inéditas, em relação esses dois pilares.
Apoiando-se no tema proposto, A oferta da palavra, visou-se, no debate, destacar os elementos que possibilitassem uma reflexão a partir da seguinte perspectiva: com as experiências de laboratório temos a responsabilidade de sustentar como a palavra pode re-situar o sujeito e o saber (*); no entanto, uma vez que estamos sob a orientação do CIEN, torna-se necessário que localizemos as especificidades deste uso da palavra : as experiências expostas indicavam claramente que esta especificidade está no caráter interdisciplinar, no uso de vários discursos e na ferramenta essencial o laboratório.
Tem-se, portanto, como desafio orientar e acompanhar o uso da palavra em nossas práticas interdisciplinares. Por outro lado, quando a oferta da palavra se encontra do lado do sujeito, defrontamo-nos com a dimensão de surpresa que disto decorre e com a responsabilidade para que efetivamente as ficções de cada criança ou adolescente possam ser escutadas. Três trabalhos circunscritos no âmbito do judiciário evidenciaram, por meio de vinhetas práticas, como os sujeitos aí concernidos os profissionais, as crianças ou a família apoiando-se nas ficções jurídicas (**) puderam, mediante uma escuta responsável da palavra de cada um, construir sua própria solução para situações limites ou de impasse em que se colocavam. O título de um desses trabalhos sintetiza de forma magnífica o que queremos evidenciar, ou seja, como “um uso singular da palavra inventa a medida”.
O tema do orientar-se pelo não-saber, abordado sob diversos enfoques, permitiu evidenciar como a escuta e a conversação interdisciplinar, permitem muitas vezes, um efeito de desidentificação dos ideais por parte dos profissionais. Dito de outra forma, há um efeito de deslocamento em relação ao saber especializado, cujo uso, por vezes, pode se configurar em uma situação de extrema violência uma vez que provoca a foraclusão do sujeito.
Trata-se de ter como baliza que é o modo de operar com o saber que vai possibilitar cavar um lugar para que algo do sujeito possa ser alojado. Se a experiência do CIEN testemunha um uso possível da psicanálise,enfatizou-se, no debate, que a novidade deste uso é a interdisciplinaridade, uma “invenção” que leva a psicanálise juntamente com outras disciplinas a colocar à prova a função da palavra entre os mais variados discursos: do direito, da educação, da medicina. No entanto, há que se considerar, nesta experiência, as condições e exigências que afetam cada um destes discursos, e se em cada demanda dirigida ao CIEN há a possibilidade de um trabalho em prol do reconhecimento da impossibilidade de um saber absoluto, ou seja, uma demanda regulada pela castração, como bem nomeou um dos participantes do debate.
O laboratório “Causar para não segregar” (Rio de Janeiro), que nos brindou com um trabalho de formalização da própria constituição do laboratório, introduziu o tema da coresponsabilidade, a ser tomado como um dos fundamentos da orientação do CIEN. Tem-se uma síntese deste excelente esforço de formalização na seguinte passagem:
“Re-introduzir a dimensão da causa, um novo uso da fala foi abrindo espaço para o momento atual, em que a fala de cada um começa a se orientar pelo desejo de contribuir com algo que faça questão e não mais de quem tem razão”.
Esta dimensão da co-responsabilidade articula-se à exigência de um trabalho da escuta das respostas do sujeito do um a um do caso individual, tal como proposto pelo Laboratório “A criança e as ficções jurídicas”: o essencial da conversação interdisciplinar do CIEN aparece no âmbito do laboratório, lugar onde a resposta do sujeito pode ser formalizada entre vários e por este meio, que é um bom uso da palavra, ser transformada.
Concluindo, o trabalho de um laboratório não visa um consenso: estima-se que ele conserve certos pontos de tensão. O lugar da psicanálise, mediante as outras disciplinas, talvez seja de poder justamente evidenciar os pontos de falta, a falha, condição para que a interdisciplinaridade não fique reduzida a um mero intercâmbio de conhecimentos.
NOTAS:
(*) Em itálico, encontram-se trechos ou idéias extraídas dos trabalhos apresentados. Participaram desta segunda mesa os seguintes Laboratórios: “Os jovens ‘fora-da-lei’, o tratamento institucional e a abordagem psicanalítica” (Curitiba), “Medidas de liberdade e responsabilidade” (Belo Horizonte), “A criança e as ficções jurídicas” (São Paulo), “Aprendendo a não saber” (Rio de Janeiro) e “Causar para não segregar” (Rio de Janeiro).
(**) Utilizamos o termo “ficções jurídicas” para evocar as medidas de proteção dos direitos da criança e dos adolescentes que encontram sua representação máxima, no Brasil, no Estatuto da Criança e do Adolescente (lei de 1989).
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Erika Vieira (*)
Logo no primário, Tom Zé encontrou a beleza
da vida. Na pequena escola de Irará, na Bahia,
conheceu professores que lhe abriram a
alma, como o ecologista Arthur de Oliveira.
“Meu professor Artur realmente abriu minha
alma, lá na escola pública de Irará. Ele era ecologista,
falava do sol, da beleza de viver. Cada
palavra repercutia no meu coração como um
símbolo de alegria”, diz.
No ginásio não foi diferente, os professores
continuavam lhe dando ânimo para estudar.
Ao contrário de sua família, que nunca lhe
tratava como uma pessoa com futuro. Só que
para a professora de português, Belmira Santos,
as coisas não eram bem assim. Ela dizia
para a turma que dali é que sairiam os homens
importantes do Brasil. “Um dia ela disse: ‘vocês
têm que aprender português, de onde saíram
os escritores?’ Foi quando eu ouvi dizer que dali,
de onde eu fazia parte, ia sair uma pessoa
importante. Eu fui atingido por uma flechada
em pensar que também podia sair dali alguma
coisa que prestasse”, fala.
Depois da ciência e do português, agora era a hora de descobrir a importância da matemática. E isso, ele aprendeu na Faculdade de Música que cursou na Bahia. Graças à escola pública, Tom Zé estudou teve a chance de sonhar e conquistar coisas novas. O músico encontrou nos estudos a possibilidade de crescer culturalmente e profissionalmente.
(*) VIEIRA, E. Na escola, Tom Zé
descobriu a importância da vida.
Catraca Livre: prazer em Aprender.
São Paulo, 10 abr. 2009.
Disponível em:<http://catracalivre.uol.com.br/
2009/04/>.
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Cristiane Barreto
Uma propaganda recente de uma telefonia celular lista sombras do mundo atual e suas cenas. Anúncio de um tempo de “mentes sem fronteiras”. O presidente atual dos Estados Unidos é um negro com nome de mulçumano, o filme ganhador do Oscar é indiano. E conta a história de um jovem “favelado” que se tornou milionário - “Slumdog Millionaire”.
E o filme pergunta, ao tempo em que o demonstra: “Quem quer ser um milionário?”
Do diretor britânico Danny Boyle, realizado com um custo baixo, sagrou-se o grande vencedor da principal premiação de Hollywood, ganhador de oito estatuetas, incluindo Melhor Filme e Diretor. No Brasil, um antigo programa de auditório perguntava à massa: quem vai querer bacalhau? Nas brincadeiras infantis é fácil lembrar, de um velho tio, jovem pai ou avô, lançando perguntas com ofertas tentadoras; “Quem vai querer, levanta a mão!”
Como numa oferta, o livro que inspira o filme carrega o título: “SUA RESPOSTA VALE UM MILHÃO”
O filme explora a história de um programa de perguntas e respostas, em múltiplas escolhas, sobre conhecimentos gerais, que oferece grandes quantias, gradativas, a quem acerta as respostas. E nessa versão predomina, como em alguns programas deste tipo, não o fator velocidade mas a tensão promovida pelo jogo do apresentador. A intenção é vacilar a certeza ou a aposta. E na berlinda, com o saber e desejo, estava lá um jovem. O jovem Jamal.
Ele que aparece sendo investigado sob tortura para decobrirem se havia trapaceado, está prestes a se tornar um milionário. Conseguiu chegar á última etapa do programa que paraliza todo o país de torcida e expectativa. É a encarnação de uma pergunta: como pode um favelado ter acesso ao saber? Adquirir conhecimento? Afinal, doutores, advogados, professores, não conseguiram. (60 mil rupias foram o máximo que haviam conseguido).
Jamal afirma ter entrado para o programa para ser visto pelo seu amor de infância. Retratos de um amor romântico, marcado por encontros e fortes desencontros, também na juventude, é ao mesmo tempo centro e periferia no enredo do filme.
Quando crianças, em meio ao caos da extrema miséria, populosa e segregada, mas com encantos da infância e seus arranjos de sobreviver, perdem a mãe num ataque de fúria de policiais e batidas em um motim por motivos religioso.
Mumbai tem 13 milhões de habitantes, de grupos linguísticos e étnicos diferentes, vindos de toda Índia. Temas como corrupção e dinheiro habitam-na. É, além da capital financeira da India, a sede de Bollywood 10 : a maior indústria cinematográfica do mundo.
Numa favela da cidade, recortes de Mumbai, o jovem vivencia malogrados acontecimentos que marcam o corpo e desenham um saber. Os conhecimentos gerais são assim decalcados de uma experiencia particular. Foi pela vida à fora neste e noutros cenários da cidade que Jamal soube, entre outros sortilégios, o nome do ator mais popular, o inventor do revólver, a figura que ilustrava a cara na moeda americana de 100 dólares. Não fossem essas as questões, cujo elementos compuseram episódios traumáticos da sua vida, ele talvez não tivesse acesso às respostas corretas.
Na vida, ele diz que fora assim, quando perguntavam ele simplesmente respondia. E respondia mesmo, com o que tinha e o que nao tinha.
Quando criança mergulhou na merda impura. Coletivos, em um banheiro público a céu aberto.
Banhado pela merda, que recobre todo seu corpo também de um odor que parece invadir a sala do cinema, consegue espaço na multidão que se aglomera em torno de um astro e consegue um autógrafo. Seria sua última oportunidade e ele não duvidou: pula em busca do seu desejo. E vai. Pouco tempo depois o irmão vende o autógrafo, conseguido com segundos extremos de sacrifício e alegria. Impossível não lembrar da saudação do teatro: Merda! O mesmo que desejar, anunciar: sorte pura. E ele parece sair dali, recoberto do derivado freudiano do dinheiro. Um objeto que percorre Jamal, lameado, de um revestimento fétido, que não o impede de prosseguir e alcançar o que queria.
As cenas decorrem assim, enlaçando e desenlaçando as vissicitudes de três personagens.
Os dois irmãos. Um, que será o milionário após os infortúnios e peripécias da infância, torna-se um servidor de chá, num call center. É “o garoto do Chá”, de respostas insolentes. O irmão mais velho, envereda-se pelo mundo do crime, desde sempre. A audácia e a coragem, são marcas que lhe proporcionam, de certa forma, um bom lugar no mundo que elegeu. E a companheira das descobertas e desventuras dos dois, Latika uma mulher o amor de Jamal tornou-se a bela esposa de um chefe do crime, patrão do irmão.
Ela chega quando criança, após a morte da mãe dos garotos, em meio a um temporal, sem lugar, e se aloja. Viria a ser, no desejo de Jamal, a terceira personagem dos Três Mosqueteiros, compondo a versão em sátira do “um por todos, todos por um”. Percorre assim a vida de Jamal, o amor, inominável. Inclusive, a última resposta que concederia a ele um milhão de rupias, foi: qual o nome do terceiro personagem do livro de Alexandre Dumas? Jamal apesar de ter um registro dessa história na pele da memória, não sabia a resposta exata. Chegou atrasado na aula num dia de leitura do livro. Seu irmão o leu, saberia. Na ausência dessa resposta, mesmo quando usa do direito de ajuda, após eliminar os ítens que sabia não estarem certos, restou-lhe, pela única vez no Programa, apostar. Escolhe uma letra. Acerta e torna-se um miliorário no reencontro com essa mulher.
O desfecho da trama mostra, paralelamente, o irmão de Jamal imerso numa banheira. Fora numa banheira cheia de dólares fruto das conquistas criminosas que ele escolheu morrer. Envolto em sua própria ruina, ou, para fazer menção à passagem inesquecível do filme, do menino coberto pela merda, ele morrerá mergulhado na sua versão.
Com sua morte, de certa forma, tenta redimir-se de suas traições ao irmão. Ele também me pareceu ser um personagem daqueles que não recua do que escolheu ter e ser. Ele é morto, por matar o seu chefe um gangster indiano globalizado e milionário após ser descoberto por facilitar a Nakita a liberdade de ir ao encontro de Jamal. Cada um, à sua maneira, faz uso do “saber maldito” adquirido no mundo da favela.
Ao final, assistimos a Índia e seus musicais pops, frenesi ao estilo das produções de Bollywood, a dança do reencontro, do “conto de fada” à Índia contemporânea.
Em Quem quer ser um milionário, fragmentos da vida se enlaçam à arte.
Dos bastidores sabemos que o ator, Anil Kapoor, (que faz o papel do entrevistador do programa) declara que por se identificar com a vida miserável do Jamal Malik e diante da deplorável situação do seu país, doou o cachê do Oscar a uma instituição de crianças carentes. Não o fêz, certamente, só por essas razões (que já são suficientes), mas, a meu ver, por ter encontrado na realização do filme, uma causa também comum aos demais: fazer um bom filme! Segundo o site HollywoodScoop, ele declarou: “às vezes fazemos filmes e todo mundo que participa da produção está conectado com uma intenção tão positiva que acaba sendo esse o segredo do sucesso”.
Não tinham a intenção do cinema comercial. “Só queríamos fazer um bom filme”.
O amor ao cinema acaba por se consagrar. Assisti-lo é alento. É um filme decidido! Com recursos contemporâneos, ágeis. Quem quer ser um milionário? É um filme para se comemorar.
Uma legenda aparece no canto da tela com uma questão de múltipla escolha sobre o inquérito que tem a função de narrar o filme como pode um favelado saber as respostas corretas? O recurso “interativo” questiona o espectador. Por que Jamal acerta? As alternativas são mais ou menos como seguem: a) ele trapaceou b) ele é genial c) ele teve sorte d) estava escrito ou, “É o destino”.
Em destaque na tela, a resposta correta seria estava escrito. E, longe do respaldo da crença hindu, pareceu-me faltar uma quinta opção: todas as alternativas estão corretas. Uma, a mais correta, seria, ainda assim: Estava escrito! Foi ele, pari e passo, quem escreveu suas respostas.
O filme emociona e nos guia em seu ritmo. Mergulhamos no mundo de fronteiras tênues. A globalização é também da miséria, dos infortúnios dolarizados, dos costumes, da sorte e dos Deuses desconhecidos.
CIEN-Digital agradece a todos que contribuíram na elaboração deste número. Envie-nos seu texto até 2.000 caracteres para mariarita.guimaraes@gmail.com.
Editor : Maria Rita Guimarães
Co-editor: Cristiana Pittella de Mattos
Conselho editorial: Cristiane Barreto, Cristiana Pittella de Mattos , Maria Rita Guimarães
Consultor: Célio Garcia
Patrocínio: Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais - IPSM-MG.
Comissão de Coordenação e Orientação do CIEN Brasil: Cristiana Pittella de Mattos (Coord. Geral), Heloísa Telles, Maria do Rosário Collier do Rego Barros e Teresa Pavone.