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Núcleos - Agenda 2010 - 2º semestre


ATIVIDADES DA SEÇÃO CLÍNICA

Coordenação: Henri Kaufmanner

A prática da psicanálise: entre o delírio generalizado e a debilidade

Em seu texto "Le salut par les déchets", que traduzimos como "A salvação pelos dejetos", Jacques-Alain Miller oferece-nos uma interessante orientação para a ação do psicanalista diante do mundo do delírio generalizado.
Iniciando por uma leitura da sublimação, Miller afirma que esta anda ombro a ombro com a paranoia, pois permite ao gozo do Um integrar-se ao Outro, socializando o dejeto.
Desde Lacan, aprendemos a nomear como paranoia a essa localização do gozo no campo do Outro, o que nos permite acompanhar Miller em sua afirmação de que essa socialização do dejeto seria o que constitui o laço social, e que, consequentemente, o laço social seria paranoico por excelência. Assim, o Outro social, também por consequência, seria mau.
Não é por acaso, portanto, que o Outro social ocupa-se tanto em tentar nos convencer de que é bom. Vemo-nos constantemente diante de sua insistência em nos fazer crer que seremos democraticamente acolhidos, bem entendidos, bem atendidos, incluídos e assim por diante. Essa paranoia do laço social pode ser também localizada como a paranoia da constituição do Eu. A relação do Eu com o laço social é, por constituição, paranoica.
Por outro lado, Miller nos apresenta a dificuldade de se estabelecer no laço social como sendo da ordem da debilidade. Debilidade aqui entendida como esse deslizamento entre os discursos, até o fora do discurso da chamada esquizofrenia. Vejam que esse desenvolvimento de Miller refere-se à fala de Lacan presente no Seminário 24, L´insu que sait de l´une-bévue s´aille à mourre, na qual ele afirma que, entre a debilidade e a loucura, a psicanálise não tem nada além que a escolha.
Segundo ainda Miller, essa debilidade é própria dos analistas. Haveria, contudo, para o analista, a salvação de fazer, a partir desse dejeto, um novo discurso. Nessa perspectiva, temos do lado do laço social a paranoia, o delírio generalizado, e do lado da debilidade, o dejeto, o sinthoma, a esquizofrenia, o analista...
Como podem um analista e seu ato facilitar uma certa permeabilidade do sujeito aos significantes-mestres da cultura, no caminho do que é da ordem de uma paranoização (lembremos que em certo momento Lacan nos fala da psicanálise como uma paranoia dirigida) sem abrir mão de uma "dose" de debilidade, de um não-socializável, do dejeto, daquilo que do gozo resta como singular?
Essa pergunta e a complexidade de seus elementos são os provocadores de nossa investigação nos trabalhos da Seção Clínica neste semestre. Convidamos os colegas e demais interessados a esse trabalho investigativo, participando de nossos núcleos de pesquisa, conversações, apresentações de pacientes e entrevistas clínicas.



CONVERSAÇÕES DA SEÇÃO CLÍNICA

Abertas aos inscritos na Seção Clínica e/ou no Curso de Psicanálise do IPSM-MG, mas no limite de lugares disponíveis.

Agosto
1º CONVERSAÇÃO
Dia 28, Sábado
O tema será divulgado no início do semestre

Outubro
2a CONVERSAÇÃO
Dia 23, Sábado
O tema será definido ao longo do semestre
Horário: 9h

Local: sede do IPSM -MG

Observação importante: O comparecimento em uma conversação não é prérequisito para o comparecimento na outra.



APRESENTAÇÕES DE PACIENTES E ENTREVISTAS DE ORIENTAÇÃO PSICANALÍTICA

Abertas aos inscritos na Seção Clínica e/ou no Curso de Psicanálise do IPSM-MG, mas no limite de lugares disponíveis em cada local de sua realização e conforme as inscrições específicas em cada Núcleo.
A "Apresentação de Pacientes" é uma prática que foi mantida por muito tempo por psiquiatras, sobretudo para investigação do diagnóstico e do prognóstico de casos considerados "difíceis", "raros" ou "paradigmáticos", evocando, assim, o que a clínica médica não-psiquiátrica ainda designa como "corrida de leito". No âmbito da psicanálise, essa prática foi renovada por Jacques Lacan, ao longo de seu ensino. Por sua vez, Jacques-Alain Miller1 ressalta-nos algumas proposições com base em sua participação nas apresentações de pacientes realizadas por Lacan:

a) Quem assiste a uma tal prática fica em silêncio e forma uma espécie de doxa, de "opinião pública", com relação ao que se passa entre o paciente e aquele que o entrevista: espera-se que, depois, possa ser esclarecido um diagnóstico, orientado um tratamento cuja complexidade ou dificuldade justificou o encaminhamento do paciente a tal Apresentação.

b) Ainda que o diagnóstico possa ser "determinado nos termos mais clássicos, alguma coisa sempre permanece em suspenso quanto ao sentido", podendo nos orientar, por exemplo, quanto à dimensão real e incurável de um sintoma, de uma problemática subjetiva ou institucional, de um impasse concernente ao laço social, etc.

c) Ao promover e enfatizar, quanto ao paciente, o acesso à palavra, a apresentação resgata-lhe a função de sujeito que fala e, além de contribuir para seu tratamento, pode ajudar àqueles que trabalham com ele a esclarecer como sintomas e dificuldades de inserção não deixam de ser "saídas" que alguém pode paradoxalmente encontrar para seus impasses.

d) Ao "buscar a certeza" em jogo no que um paciente diz ao ser entrevistado, procura-se cingir sua relação com o saber e com o Outro, sua economia libidinal, enfim, seu modo de vida, para que essa elucidação possa orientar o prognóstico clínico de seu caso.

Na Seção Clínica do IPSM-MG, nem sempre essas atividades comuns a todos os Núcleos de Pesquisa serão realizadas com usuários de serviços de Saúde Mental. Respeitadas as particularidades que essa diferença impõe e orientados pelo estilo proposto por Lacan para sua "Apresentação de Paciente", temos as "Entrevistas de Orientação Psicanalítica", com as quais podemos ampliar o alcance desse dispositivo, para uma campo situado fora da abrangência de um serviço de saúde, mas que pode também se beneficiar da ação lacaniana.

1 MILLER, Jacques-Alain. Lições sobre a apresentação de doentes. In: ______. Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996. p.138-149.

Outubro
Apresentação de paciente com crianças
Dia 5, terça-feira
Horário: 14h
Local: Hospital Infantil João Paulo II - FHEMIG
(antigo CGP, Alameda Ezequiel Dias, 345, atrás do Parque Municipal)

Novembro
Apresentação de paciente no Centro de Referência em Saúde Mental
Região Noroeste (CERSAM-Noroeste)

Dia 12, sexta-feira
Horário: 10h
Local: Auditório do CERSAM-Noroeste
(Rua Caramugi, n°10, Padre Eustáquio, Belo Horizonte)

Apresentação de paciente no Hospital das Clínicas (HC)
Dia 12, sexta-feira
Horário: 16h30min
Local: Faculdade de Medicina da UFMG

Entrevista de orientação psicanalítica com um adolescente em cumprimento de medida socioeducativa
Dia 30, terça-feira
Horário: 9h30min
Local: Unidade de Medida Socioeducativa-SUASE/SEDS


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