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Número: 02 - junho de 2007 – Associação Mundial de Psicanálise |
PAPERS
Boletim Eletrônico do Comitê de Ação da Escola Una – versão 2006-2008
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EDITORIAL
Vicente Palomera
v.palomera@ilimit.es
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Prosseguimos, neste novo número de Papers, o diálogo aberto na AMP sobre os objetos a na experiência psicanalítica. A esta altura, cada uma das Escolas da AMP já iniciaram, seus espaços e oficinas para investigar o lugar do objeto a em nossa prática clínica e na civilização que constitui nosso parceiro-sintoma.
Nesta ocasião, decidimos começar a recolher alguns dos trabalhos
apresentados nestes espaços, aos quais outros seguirão, acrescentando também as
contribuições dos membros do Comitê de Ação. Trata-se de uma série formada por três textos que surgem como uma reflexão après-coup da "Conferência de Encerramento", de Jacques-Alain Miller, no último Congresso da AMP, em Roma, 2006.
Hebe Tizio parte da presença do corpo no discurso do analisante, destacando um primeiro programa a seguir em distintos seminários de Lacan centrados no corpo e nos objetos no primeiro momento do ensino de Lacan para situar, finalmente, a mudança operada no Seminário X e as modificações posteriores.
Frida Nemirovsky destaca, em seu texto, o percurso que vai da lógica do significante até a lógica do objeto a. Com este propósito, interroga o papel da letra e da escritura como modos de abordagem do real. É um percurso que vai, entre outras referências, do Seminário XX – Mais, ainda – passando por “Lituraterra”, até a “Homenagem a Lol V. Stein” em que Lacan, através do objeto olhar, dá ao corpo, o valor de acontecimento.
Diana Wolodarsky evidencia, em seu escrito, como o vazio de um anel pode erigir-se como fetiche colocando-se acima de qualquer outro objeto. Mostra isto com um belo relato de Italo Calvino, no qual, de modo poético, é ilustrada a forma que o amor pela castração pode acabar tomando.
Em uma segunda série, agrupamos quatro textos centrados na clínica do objeto a, na neurose e na psicose.
Catherine Lazarus-Matet, que já havia mostrado, a partir de um caso, como o objeto a pode ser uma "marca bordada no corpo", mostra-nos, aqui, o objeto como "estofo do sujeito", ou seja, como equivalente às marcas produzidas por lalíngua sobre o corpo. Duas ilustrações clínicas servem de apoio à sua elaboração.
Por sua vez, Carmelo Licitra aborda o problema do objeto na neurose obsessiva, mostrando que o anal é uma relação caracterizada pela relação do sujeito com a demanda do Outro. Licitra explica, entre outras coisas, porque Lacan diz que o que caracteriza o desejo do obsessivo é o desejo de reter.
O texto de Iordan Gurgel, apresentado recentemente no VII Congresso da Escola Brasileira de Psicanálise, situa a topologia subjetiva da psicose, mostrando que pode haver um significante inconsciente. É preciso conceber o espaço da fala como tal, já que o sujeito psicótico não pode prescindir dele sem uma transição dramática onde aparecem as vozes, ou seja, fenômenos alucinatórios onde a própria realidade se apresenta como afetada, isto é, como significante.
Finalmente, o texto de Sérgio Laia explora dois modos de abordar a variedade dos objetos a na experiência psicanalítica. Ele o faz esclarecendo Ferenczi por meio de Lacan, ou seja, Sérgio Laia usa o objeto a de Lacan como um operador para fazer uma crítica da "técnica ativa" de Ferenczi e para estudar os efeitos terapêuticos das terapias breves.
Tradução: Maria Cristina Maia Fernandes
Revisão: Sérgio Laia
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O CORPO E OS OBJETOS
Hebe Tizio
hebetizio@terra.es
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O tema escolhido para o Congresso da AMP de 2008 é: os objetos a na experiência analítica. Em sua Conferência de Roma1 Miller assinalava que, se vamos falar dos objetos na experiência analítica, é para ver se damos conta da presença do corpo no discurso do analisante, e dá um programa a ser seguido em distintos Seminários de Lacan. É por isso que, para começar com esta orientação de trabalho, vou me centrar no corpo e nos objetos no primeiro momento do ensino de Lacan para situar a mudança do Seminário 10 e deixar indicadas algumas modificações posteriores.
1. O corpo e o objeto no estádio do espelho
No texto de 1949, Lacan refere-se ao corpo como desvinculado do processo de maturação. Trata-se do domínio imaginário do corpo prematuro que avança sobre o domínio real e o condiciona, quer dizer, tem efeitos formadores sobre o organismo. É a idéia de que o desenvolvimento se faz a partir de uma estrutura que não é a estrutura anatômica e que marca um estilo, ou seja, um gozo. Faz-se evidente a diferença entre organismo e corpo visual, diferença que, segundo Lacan, está no fato de a imagem não incluir os órgãos2 .
Trata-se do corpo como totalidade que se visualiza. É uma Gestalt plana, simétrica e invertida. Neste momento, há, para Lacan, a satisfação simbólica do reconhecimento e a satisfação imaginária que recobre o que se chama gozo3 . A libido tem estatuto imaginário e está em relação com o eu interpretado a partir do narcisismo que é constituído no estádio do espelho. Efetivamente, a imagem tem efeitos formadores sobre o eu e o gozo do corpo e dos objetos é imaginário. Por isto, Lacan assinala que esta aventura imaginária estrutura o conjunto da vida fantasística.
Em primeiro plano está o esquema L e o predomínio do eixo a-a’, que é o eixo do gozo. Neste paradigma, a disjunção entre o significante e o gozo se expressa na distinção entre o eu e o inconsciente4 .
É o Outro que realiza esta primeira atribuição e permite a identificação do sujeito no estádio do espelho. Miller5 assinala que “no fundo, Lacan comenta, em sua primeira clínica, o gozo do semblante próprio no espelho, e não tanto do corpo próprio”. Efetivamente, o júbilo que se registra no sujeito dá conta desse gozo. É preciso recordar que, neste contexto, i(a) suporta não só o amor, como também o mundo dos objetos e é o princípio do ser no mundo visual6 .
A definição de inconsciente está dada a partir do imaginário e o conceito operatório é a imagem, tal como assinala Miller em seu Curso deste ano.
2. O caminho até o Seminário 10
Lacan, no Seminário 4, corrige o estádio do espelho introduzindo o objeto imaginário e a falta, e modifica a estrutura da relação imaginária ao introduzir um termo suplementar, o falo imaginário que serve como um comutador simbólico. No início do Capítulo III, Lacan se refere a Dolto e a sua exposição sobre a imagem do corpo e sublinha que a imagem do corpo não é um objeto e não pode converter-se em um objeto. Neste ponto, vê-se a correção de sua própria formulação anterior. Tal como estava apresentado no estádio do espelho, o próprio corpo era uma relação de objeto com um objeto imaginário e serve de matriz para representar as relações do eu e seus objetos. Os pós-freudianos tomavam a relação mãe-filho, o eu e seus objetos, mas omitiam o falo que Lacan tratará como o principal objeto narcísico.
O objeto é imaginário, mas se inscreve no simbólico como falta. É esta dimensão da falta que introduz a barra: S barrado, A barrado. Neste momento, o objeto se desloca do imaginário para o simbólico – ainda que a referência imaginária seja necessária, não é suficiente para situar o objeto.
A pergunta subjacente é: o correlato do objeto em psicanálise é o eu? O eixo a- a’ significa que o objeto é correlativo do eu – por isto, Lacan o questiona e revisa o estádio do espelho, como destacou Miller. O correlato é o falo imaginário e não o eu. É o falo imaginário, mas colocado em jogo pela castração simbólica, é o falo negativizado pelo significante. Por isto, o Seminário 4 desenvolve o conceito de castração como falta simbólica de um objeto imaginário. O objeto é imaginário, mas só tem valor para o desejo pela falta simbólica que é - fi. Frente a ela, o sujeito se encontra dividido, e disso decorre que ele também possa escrever-se como – fi.
A partir do Seminário 4, Lacan escreverá nos dois seminários seguintes a fórmula da fantasia como generalização de a sobre menos fi, indicando que o objeto encontra sua função na relação com o sujeito como dividido. Assim, abandonará a relação de objeto pela teoria da fantasia.
No Seminário 9, Lacan postula que o investimento da imagem especular é um tempo fundamental da relação imaginária, mas que tem um limite, já que nem todo o investimento libidinal passa pela imagem especular, ou seja, há um resto.
3. O corpo e o objeto no Seminário 10
No Seminário 10, Lacan afirma que o problema é a entrada do significante no real e, como daí nasce um sujeito. Assinala que o que temos para apresentar-nos perante os outros é nosso corpo, e dá duas indicações: não se pode tomá-lo cartesianamente no campo da extensão nem como forma especular. É o modo que encontra para introduzir a relação corpo-gozo. E ali faz a pergunta sobre o objeto, como se produz sua transformação de localizável em incomunicável, mas dominante fantasisticamente7 . Lacan avança a propósito da relação entre o objeto e o corpo: “O que é o objeto a no plano do que subsiste como corpo e que nos subtrai em parte, por assim dizer, sua própria vontade?”8 .
O objeto aparece definido como reserva libidinal, a rocha freudiana, e o vazio toma valor através da borda. O corpo fragmentado antes do estádio do espelho dá lugar à desordem dos pequenos a, e marca que o auto-erotismo é a falta de si mesmo, i(a), e não do mundo9 . Antes de i(a), há os distintos objetos, se trata dos pedaços de corpo captados no momento em que i(a) se constitui.10
O corpo é agora um corpo libidinal, e não especular, e aparecem os órgãos. É um corpo informe com zonas erógenas, ou seja, não é limitado; apenas marcado pelas zonas erógenas. Lacan assinala que a forma mais segura de conceber o objeto é como um pedaço de corpo11 . Trata-se de a concebido como peça faltante. É um recorte corporal de consistência topológica.
Se, no estádio do espelho, i(a) suportava o mundo e os objetos, no Seminário 10 será o objeto a que estabilizará o campo visual e estará implicado na construção do sujeito. É o que Lacan precisará, mais adiante, como a extração do objeto. O objeto a delimita a realidade.
Lacan se pergunta sobre a natureza do conhecimento que há na fantasia e responde que o sujeito está implicado pela palavra em seu corpo e esta é a raiz do conhecimento12 . Não se trata, entretanto, do corpo como totalidade, mas do corpo que sempre tem algo separado devido ao compromisso com o significante, a famosa libra de carne.
Lacan retoma a frase de Freud “a anatomia é o destino” dizendo que se converte em verdadeira se a tomamos em sua função de corte. “O destino, ou seja, a relação do homem com essa função chamada desejo, só se anima plenamente na medida em que é concebível o despedaçamento do corpo próprio, este corte que é o lugar dos momentos eletivos de seu funcionamento” 13 .
O caráter cedível do objeto faz com que se possa substituir o objeto natural por um objeto mecânico. Esta propriedade do objeto o coloca em relação com a cadeia da fabricação humana de objetos que podem ser equivalentes aos objetos naturais14 .
“A função do objeto cedível como pedaço separável veicula primitivamente algo da identidade do corpo, antecedendo ao corpo mesmo no que diz respeito à constituição do sujeito.”15 O sujeito “só se realiza nos objetos que são da mesma série que o a, que ocupam o mesmo lugar nessa matriz. São sempre objetos cedíveis, e são aquilo que desde há muito tempo se chama ‘as obras’, com todo o sentido que tem este termo inclusive no campo da teologia moral”16 .
4. Corpo, objeto e inconsciente: o Seminario 11
No Seminário 1117 , o inconsciente é o que se abre e se fecha segundo uma pulsação temporal representado pelo esquema da nassa como oposto ao do alforje. Com relação à nassa, o sujeito está dentro dela. O que é central é o orifício e o que sai, o fechamento do inconsciente está dado pelo papel do obturador, o objeto a, aspirado no orifício.
Este momento do ensino de Lacan, Miller o formaliza como Paradigma IV: o gozo normal. Trata-se do gozo fragmentado em objetos a. Recordemos que o objeto a é um vazio introduzido pelo simbólico e a pulsão é um trajeto de ida e volta ao redor deste vazio. O inconsciente ordenado como uma cadeia tem outra face, a da descontinuidade, que o faz funcionar como uma borda que se abre e se fecha. Deste modo, Lacan homogeneíza o inconsciente com uma zona erógena, estabelecendo uma relação entre o inconsciente e a pulsão. A descontinuidade da borda é o que permite reconhecer as zonas erógenas. Estas não remetem a nenhum estágio de maturação, uma vez que o tropeço é o que anima o desenvolvimento, a tyche. Cada um destes momentos tem em seu centro um mal encontro.
As zonas erógenas estão em relação direta e predominante com o Outro, o Outro do desejo, o Outro da demanda e, a partir disto, Lacan organiza uma topologia diferente do corpo. Pode-se entender, a partir da formulação das zonas erógenas, o gozo fragmentado em objetos. O Seminário 11 é a última vez que Lacan põe em oposição inconsciente e real.
5. A mudança dos anos 70
Faz-se necessário um percurso, apenas aludido aqui, até chegar ao momento em que Lacan põe o corpo em relação com o gozo e que nos conduz à definição do sintoma como acontecimento de corpo.
Há dois textos de Lacan que abrem os últimos momentos de seu ensino com relação ao tema que nos ocupa.
Em “Da psicanálise em suas relações com a realidade”18 , de 1967, Lacan esboça o que será o caminho do último período de seu ensino, o corpo pela operação significante forma o leito do Outro. Desse efeito resta um pedaço como causa do desejo.
Este texto abre passagem à “Terceira”19 , que localiza três questões fundamentais.
Lacan faz uma releitura da primeira conferência de Roma, “Função e Campo...”, para dizer que não se trata de função e campo da palabra e da linguagem, mas de lalíngua.
Na página 91, precisa que “o corpo se introduz na economia do gozo pela imagem do corpo”. E, finalmente, Lacan introduz o tema do nó e localiza, na página 102, a angústia como medo do corpo.
Em “Radiofonia”, Lacan se refere ao primeiro corpo que faz com que o segundo se incorpore e toca, desta maneira, no tema dos incorporais estóicos que se encontram no limite de ação dos corpos. Não são inexistentes, mas tampouco existem como os seres corporais. Não se encontram nestes últimos, mas estes tampouco existem de forma separada, porém de forma limitante. Por isso, Lacan diz que os estóicos assinalaram em que o simbólico aspira ao corpo: no incorporal. É como incorporada que a estrutura produz efeitos, toma corpo20 . O sujeito do inconsciente engrena sobre o corpo e isto só se localiza pelo discurso.
6. O Seminário 20
Esta passagem por “Radiofonia” é necessária para poder entender a mudança que se produzirá no Seminário 20, quando Lacan desenvolve que o corpo é o lugar do Outro. Aqui, trata-se da insuficiência do objeto para tratar o gozo.
Como é que o corpo adveio ao lugar do Outro? É um desenvolvimento que se inicia quando Lacan introduz a dimensão do objeto a. Na realidade, o que apresenta é a substituição do objeto a no lugar do Outro. No Capítulo II do Seminário Mais, ainda, Lacan diz: “gozar de um corpo que o Outro simboliza” e o apresenta como suposto na experiencia analítica. “Não é isto o que supõe propiamente a experiência psicanalítica? – a substância do corpo, com a condição de que ela se defina apenas como aquilo de que se goza. Propriedade do corpo vivo, sem dúvida, mas nós não sabemos o que é estar vivo, senão apenas isto, que um corpo, isso se goza”21 . Mas: como se goza?, corporizando-o de maneira significante. Por que diz “corporizando-o de maneira significante”? Porque não se pode gozar do corpo como totalidade, só se pode gozar da imagem do corpo como totalidade, mas, materialmente, não se pode porque sempre se goza de uma parte do corpo do Outro. Trata-se, deste modo, de uma lógica encarnada, como diz Miller em sua apresentação do Congresso AMP 2008.
Quando entramos nesta dimensão do gozo tomado na relação com o corpo do Outro, aparece, de forma patente, que não há proporção sexual.
No Seminário 20, Lacan formula, pela primeira vez, que o significante é a causa do gozo porque, sem o significante, não se poderia abordar nada do corpo. Através do significante e do discurso, é que se produziu esse resto que tem função de causa.
No Seminário 21, Lacan insiste novamente sobre o tema da vida. Não há uma definição da vida, caso não se leve em conta o gozo. Então, o que se sabe da vida no ser humano, é através do gozo. Por isto, Lacan pergunta de que goza a ostra. Do gozo, só se sabe o que pode ser localizado, cingido, colocado em relação com o significante.
O discurso analítico põe em primeiro plano a vida. Por que? Porque cada sujeito é a fórmula única de uma modalidade de gozo. E esta modalidade de gozo não é pensável sem o suporte material de um corpo, sem o suporte material do significante. Por isto, Lacan diz: “o primeiro corpo faz com que surja ali o segundo”
Para concluir, pode-se dizer que não há gozo senão sob a condição de que a vida se apresente sob a forma do corpo. Isto é o que Miller formula em seu curso sobre O real na experiência analítica. O específico da psicanálise no tema do corpo é que não há gozo senão sob a condição de que a vida se apresente sob a forma de um corpo.
Retomo aqui a pergunta do início: o que é o corpo? Não é somente o corpo imaginário, quer dizer, não se trata somente do corpo em relação com a forma, não se trata somente do corpo em relação com a imagem, não é o corpo do espelho que foi sempre pensado como duplo do organismo. Não se trata disso. Porque, efetivamente, quando se fala do corpo vivo, fala-se também do corpo simbólico, fala-se, inclusive, dos significantes imaginários. Miller diz: “ e por que não pensar o gozo como um afeto do corpo” . Creio que esse ponto permite retomar a citação de Lacan em “A Terceira”: “De que temos medo? De nosso corpo. A angústia é precisamente algo que se situa no corpo…”. O gozo como um afeto do corpo pode ser tomado nesta direção. E, a partir desta perspectiva, redefinir não somente a dimensão do sintoma como acontecimento do corpo, mas também revalorizar o tema da angustia.
Tradução: Marcia Zucchi
Revisão: Mirta Zbrun e Sérgio Laia
Notas:
1 Miller, J- A. “AMP 2008. Les objets a dans l’expèrience analytique”. Em : Lettre Mensuelle nº 252.
2 Lacan, J. “A agressividade em psicanálise”. In: Escritos. Siglo XXI. p. 128: “Sabe-se que processo de maturação fisiológica permite ao sujeito, em um momento determinado de sua historia, integrar efetivamente suas funções motoras e aceder a um domínio real de seu corpo. Mas antes deste momento, ainda que de forma correlata a ele, o sujeito toma consciência de seu corpo como totalidade. Insisto neste ponto em minha teoria do estádio do espelho: apenas a visão da forma total do corpo humano brinda o sujeito com um domínio imaginário de seu corpo, prematuro com relação ao domínio real. Esta formação se desvincula, assim, do próprio processo de maturação, e não se confunde com ele. O sujeito antecipa o ápice do domínio psicológico e esta antecipação dará seu estilo ao exercício ulterior do domínio motor efetivo”.
3 Cf, Miller, J. - A. “Los seis paradigmas del goce”. In: Freudiana.
4 Lacan, J. “O estádio do espelho”. In: Escritos, p.98. Jorge Zahar Editor
“Assim, esta Gestalt, cuja pregnância deve ser considerada como ligada à espécie, embora seu estilo motor seja ainda irreconhecível, simboliza, por esses dois aspectos de seu surgimento, a permanência mental do eu [je] ao mesmo tempo em que prefigura sua destinação alienante; é também prenhe das correspondências que unem o eu [je] à estátua em que o homem se projeta e aos fantasmas que o dominam, ao autômato, enfim, no qual tende a se consumar,n uma relação ambígua, o mundo de sua fabricação.”
5 Miller, J-A. De la naturaleza de los semblantes. Paidós. 2002 p.232
6 Miller, J-A. “Introduction à la lecture du Seminaire L’angoisse”. En La cause freudienne. nº 59.p.83
7 Lacan, J. Seminario X. Paidós. Buenos Aires. p.100
8 Op. cit. p. 21
9 Ibidem. p. 132
10 Ibidem. p.131
11 Ibidem.p.148
12 Ibidem.p.237
13 Ibidem.p.256
14 Ibidem. 338
15 Ibidem. p.339
16 Ibidem. p.342
17 Lacan J. Seminario XI. Paidós. Barcelona.
18 Lacan, J. “Del psicoanálisis en sus relaciones con la realidad” En: Intervenciones y textos. Manantial. Buenos Aires. 1988.
19 Lacan, J. “La tercera”. En: Intervenciones y textos. Manantial. Buenos Aires.
20 Lacan, J. Radiofonía. Anagrama. Barcelona. p.19
21 Lacan, J. Seminario XX. Paidós. Barcelona. Pg. 35 da edição brasileira.
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UMA RESENHA SOBRE A CONFERÊNCIA
DE JACQUES-ALAIN MILLER EM ROMA
Frida Nemirovsky
fnemirovsky@fibertel.com.ar |
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Jacques-Alain Miller inicia a apresentação de sua conferência dizendo que vai quebrar um segredo, um segredo referente ao nome que o próximo Congresso da AMP terá. Sabemos do valor do segredo que dava Jacques-Alain Miller, sobretudo nas seitas; parece-me importante que, tratando-se de algo tão enigmático como foi para nós e que, sob um certo aspecto, continua sendo para nós o tema do objeto a e seu valor de gozo, Miller se refira ao segredo que vai desvelar e que ganha todo um peso: Os objetos a na experiência analítica(1).
No começo desta conferência, Miller faz um percurso a propósito deste título para localizar a passagem da lógica do significante à lógica do objeto a que, contudo continua sendo tributária, por um certo tempo, da lógica do significante. Esta problemática que, segundo Miller, é importante de ser percorrida e que custou a Lacan vinte anos de seu ensino, entendo que deve ser aquela que, através das vicissitudes do objeto a (no que vai da gramática pulsional à lógica da fantasia), sempre fica ligada a um certo valor de verdade que impede uma efetiva direção para o real. Parece-me que esta problemática com que Miller nos confronta merece, entretanto, como ele mesmo diz, um percurso o mais exaustivo possível por esses vinte anos do ensino de Lacan. Miller sublinha que, a partir do seminário 10, A angústia, Lacan localiza uma questão fundamental em relação aos objetos, que, logo adiante, abandona parcialmente, uma vez que, a partir do seminário 20, Mais ainda, conclui que o objeto a é frágil demais para designar o que nele há de gozo. Lacan, em “Lituraterra” (2), interroga o lugar da escrita, o que, nos diz Miller, permite uma re-escrita de “A instância da letra...” (3) até em 1970. A definição da relação entre saber e gozo é o que a letra vem indicar; uma vez que se deixa a letra, ou o objeto a como letra, só fica a borda que designa o que do saber não pode recuperar o a. Lacan, no capítulo “O saber e a verdade”, no Seminário 20, diz o seguinte: “O a, por estar enfim no bom caminho, ele nos fará tomá-lo por um ser, em nome de ser aparentemente alguma coisa mesmo. Mas ele só se resolve, no fim das contas, em seu fracasso, em não poder sustentar-se na abordagem do real. O verdadeiro, então, certamente, é isso. Só que isso não se atinge jamais senão por caminhos tortuosos” (p. 128). Lacan continua explicando que isto é o verdadeiro, sempre e quando se entenda que ele só é alcançado por caminhos tortuosos. “Apelar para o verdadeiro, como correntemente somos levados a fazer, é preciso não se enganar e crer que se está ali sequer no semblante. Antes do semblante com o que tudo se baseia para ressaltar na fantasia, há que fazer uma distinção severa do imaginário e do real” (p. 129). Adverte aos analistas que não se deve crer de modo algum que nós sustentamos o semblante. Nem sequer somos semblante; somos, em algumas ocasiões, o que pode ocupar seu lugar e fazer reinar aí o a”. E, acrescenta: “O analista, com efeito, de todas as ordens de discurso que se sustentam atualmente, é aquele que, ao pôr o objeto a no lugar de semblante, está na posição mais conveniente para fazer o que é justo fazer, interrogar como saber o tocante à verdade”. Creio que podemos ler aí que esse saber é um saber sobre o real em jogo. Miller, em A experiência do real (p. 257), diz que, no paradigma 5, Lacan corta a sustentação sobre a qual se apoiava todo seu ensino e há um esforço em reconstruir um aparelho conceitual com pedaços do antecedente, e é no Seminário 20 que questiona o próprio conceito de linguagem que não considera originário, mas derivado do que resolve chamar “lalíngua”, isto é, a palavra antes de todo ordenamento gramatical e lexicográfico. Também discute o conceito da palavra concebida não como comunicação, mas como gozo. Uma vez que o gozo era, em seu ensino, secundário ao significante, ainda que o tenha conduzido a uma relação originária, foi preciso o sexto paradigma (4) para que a linguagem e sua estrutura, até então tratados como um dado primário, aparecessem como secundários e derivados. Com esta condição, situa uma inclusão originária do gozo, da palavra e de “lalíngua”, no gozo do bla-bla-blá. Isso também faz vacilar as noções de grande Outro, Nome do Pai e símbolo fálico. O seminário Mais ainda é, portanto o seminário das não-relações e. a partir daí, temos o primado da prática. Aí onde havia a estrutura transcendental, encontramos uma pragmática e inclusive uma pragmática social como Miller tentará demonstrar. Este percurso me parece necessário para entender o desenvolvimento que vai se produzindo nos seminários anteriores aos quais Miller nos envia em sua conferência, sob a forma de percorrer uma biblioteca para entender como proceder com os símbolos que Lacan nos deixou. No meu entender, o seminário A lógica da fantasia e o Seminário do Ato são fundamentais para situar o analista em sua experiência, chegando aos Seminários 16 (De um Outro ao outro) e 17 (O avesso da psicanálise), este último, mencionado por Miller na conferência, é onde desaparece toda heterogeneidade do a como real para ganhar valor como semblante, fundamental na prática analítica. E voltando ao Lógica da fantasia, encontramos os antecedentes do não há relação sexual sob a forma do tratamento de não há ato sexual como verdadeiro ato, porque dele não se sai numa posição diferente daquela com que se entrou. E é um Seminário dedicado fundamentalmente a demonstrar que, na operação subjetiva, sempre há um resto.
A meu ver, se deter nesses Seminários intermediários entre o 10 e o 20 se justifica, já que cada um sublinha alguma particularidade interessante para a clínica e para se operar com ela com referência ao objeto a, em algumas das formas recortadas no Seminário AAngústia. Entre outras coisas, porque a angústia, ao ser o que não engana, permite obter posições do sujeito em relação a este objeto particular, que recorta partes do corpo. E, precisamente, não em sua dimensão imaginária. Um exemplo disto pode ser destacado na Homenagem realizada por Lacan com relação ao texto de Marguerite Duras O arrebatamento de Lol V. Stein (5), que é correlato temporalmente à Lógica da fantasia. A estrutura de base, neste caso, é encarna em personagens: uma mulher espia um homem e uma mulher. Lacan, a partir daí, define o que chama de “um ser-a-três”. Eric Laurent, no curso de Miller Os usos do lapso, se refere a este texto como “o sofisma de Lol V. Stein”(6) seguindo, em sua apresentação, o trabalho que Miller fazia sobre os três prisioneiros. Vou considerar algumas pontuações sobre este trabalho para referir-me à importância do objeto a olhar.
Arrebatamento: Lacan se detém aí desde o começo, uma vez que o termo procede da mística e expressou, desde o século XIII, o fato de levar alguém pela força. Laurent propõe “um nó lógico para tomar essa expressão e é um movimento duplo no qual o arrebatamento é expulsão do sujeito de seu corpo, ao mesmo tempo em que este assiste a esse movimento e se encontra contaminado por ele”. E há, nesse texto, cenas que podem ser figuradas assim: no primeiro tempo da novela, o sujeito, Lol, vive uma experiência que clinicamente pode ser chamada de despersonalização; ela vê o arrebatamento de dois, de modo evidente, sob os olhos dela, como terceira. Lacan chama isto de acontecimento. Logo, entra um momento de suspensão, a partir do qual pode-se pensar em um dano no sistema simbólico, um dano no Outro. Algo que Lacan designa com um para-além do qual ela não encontra a palavra. Ela atravessa então um limite: frente a este abismo que se abre, encontra-se essa falta, há uma fantasia. Uma fantasia cujo suporte é um vestido. Pode-se dizer, como suporte do cálculo do lugar do sujeito.
No segundo tempo, Lol deambula muitos anos olhando os casais, tentando apreender o que os homens encontram nas mulheres. É a entrada em cena do relator, Jacques Hold. Produz-se uma reedição nesse nó que volta a ser feito, nessa recuperação do olhar. Volta a se produzir um ternário de modo desviante (en derivación), pois não concerne a Lol. O lugar que ocupa Hold é o lugar do sujeito, na medida em que é o lugar da angústia, porque até aqui o que é surpreendente é que Lol se apresenta fora da angústia, fora do sofrimento, fora do corpo. A despersonalização que aconteceu na cena 1 a deixa assim. Quem se angustia é Hold; logo vai imaginar o que ela vê, inventa um tempo de reciprocidade no qual ela vê a cena dele com outra mulher. Ele se restitui uma imagem sob o olhar do que o inquietava. Imagina que ela o vê e então opera, dá a ver e mostra, então, a janela, uma vez que, justamente na cena em que ele havia se encontrado com Lol, ela lhe faz saber da fascinação que a nudez exercia sobre ela. Trata-se, então, do erro interpretativo de Hold, que pretende ajudar acompanhando Lol de perto, tentando compreendê-la, levando-a a percorrer os caminhos precedentes, até o lugar do acontecimento. Aí, a estrutura do ser-a três que a sustentava até ali é rompida. Ela fica louca.
Este relato exaustivo, um pouco denso, ainda que minha intenção tenha sido a de abreviá-lo, me parece fundamental porque, com estes elementos, Lacan, em 1965, consegue situar uma diferença fundamental de diagnóstico, ainda não seja um caso clínico, através do objeto olhar, dando ao corpo valor de acontecimento.
Tradução: Angela Bernardes
Revisão: Mirta Zbrun e Sérgio Laia.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:
1- Miller, Jacques -Alain – Los objetos “a” en la experiencia psicoanalítica”. Conferencia, Roma, julio de 2006
2- Laurent, Eric – El Tao del psicoanalista, El Caldero de la Escuela, Nº 74, Buenos Aires.
3- Lacan, J. La instancia de la letra, Escritos 1, Ed. S. XXI, Buenos Aires.
4- Miller, Jacques-Alain – Los paradigmas del goce, en La experiencia de lo real en la cura psicoanalítica, p. 221.
5- Lacan, J. – Homenaje a Marguerite Duras, del rapto de Lol V. Stein, Intervenciones y textos Nº 2, p. 59, Ed. Manantial, Buenos Aires.
6- Laurent, Eric, en Los usos del lapso, p. 400, Ed. Paidós, Buenos Aires.
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ALGUNS TRAÇOS EM TORNO DO OBJETO a
Diana Wolodarsky dwolodarsky@fibertel.com.ar |
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Dizer algo sobre o objeto a não é uma proposta simples, pois não se
trata de um objeto como os demais, pertencente ao mundo do especularizável,
mas, ao contrário, trata-se de um que é extraído dos demais.
Para situarmos o tema, nada melhor que recorrer à indicação que Jacques-Alain
Miller nos deu no último Congresso realizado em Roma: percorrer o Seminário
10. Ali, Lacan anuncia pela primeira vez, a letra algébrica, o “pequeno a”,
para designar este objeto fora de série e que designa o singular e o que não é repetível
de um sujeito.
Mas, para não pensar neste objeto como um ente inatingível, algo como um satélite,
estranho e impossível de aceder, o título do próximo Congresso
acrescenta o seguinte: “...na experiência analítica”. O objeto a na experiência
analítica. Isto quer dizer que, através da experiência da análise, podemos dar conta dele, deste resto não significante que delimita e se tece ao redor de
determinadas zonas do corpo, fundamentalmente, as chamadas zonas erógenas.
Orifícios sensíveis ao redor dos quais a pulsão recorta o vazio e transita
seu repetido percurso para alcançar uma satisfação impossível de conseguir, ou
em busca de substitutos que tamponem este furo para acalmar a angústia
que esse vazio causa.
Que tenha este lugar central é o que nos permite diferenciar a operação
psicanalítica de outras que se regem pela adaptação, pela conduta,
pelos comportamentos ou, simplesmente, pelo preenchimento de respostas nas
quais um sujeito tem que se encaixar, apagando sua singularidade,
uniformizando sua diferença.
A vertente significante é aquela na qual o sujeito se encontra alienado e, no
progresso de uma análise, a direção do tratamento se orientará na via da operação de separação.
É assim que me lembrei de uma velha lenda que Italo Calvino considera em
Seis propostas para o próximo milênio e que quero contar, como forma
de evocar a potência do objeto. Como o objeto em suas distintas funções
causa o sujeito e determina as ações de sua vida. Objeto ignorado que
comanda, por meio da fantasia, a repetição.
Calvino conta o seguinte: "O imperador Carlos Magno enamorou-se, já velho,
de uma moça alemã. Os nobres da corte estavam muito preocupados porque o
soberano, possuído pelo ardor amoroso e esquecido da dignidade real,
descuidava dos assuntos do Império. Quando a moça morreu repentinamente, os
dignatários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, porque o amor de
Carlos Magno não havia morrido com ela. O Imperador, que havia feito levar a
seu aposento, o cadáver embalsamado, não queria separar-se dele. O arcebispo
Turpin, assustado com esta macabra paixão, suspeitou de um encantamento e
quis examinar o cadáver. Escondido debaixo da língua morta, encontrou um
anel com uma pedra preciosa. Nem bem o anel ficou nas mãos de Turpin, Carlos
Magno apressou-se em sepultá-la e voltou seu amor à pessoa do arcebispo.
Para escapar da embaraçosa situação, Turpin atirou o anel no lago de
Constanza. Carlos Magno enamorou-se do lago e não quis se distanciar nunca
mais de suas margens".
Calvino comenta o caráter peculiar deste objeto: “a corrida do desejo em
direção a um objeto que não existe, uma ausência, uma carência simbolizada
pelo círculo vazio do anel”.
Para situar alguns poucos traços que orientam sobre o objeto a no ensino
de Lacan, teria de dizer que, no Seminário 10, Lacan o enuncia pela
primeira vez e, a partir daí, este objeto vai passar por transformações e especificações. Assim, dedica capítulos específicos para dar conta das distintas formas em que tais objetos se apresentam ligados aos orifícios do corpo e demonstra, mais adiante em seu ensino, como esta carência para o falasser conflui na impossibilidade de alcançar a ansiada harmonia sexual.
É no âmbito do Seminário 10 que o movimento do ensino de Lacan produz uma
ruptura, um salto a respeito do que estava estabelecido até então. De uma experiência que se regulava pela dialética da verdade, produz-se uma substituição do verdadeiro pelo real.
O que se apresenta, então, a partir deste momento, é responder a uma pergunta: onde se encontra este real? Miller nos dá uma pista em seu curso Da natureza dos semblantes, indicando que “é preciso orientar-se pelo equívoco”. É assim que, seguindo esta pista, parece-me oportuno relatar um breve recorte clínico da experiência analítica: trata-se de um homem que vem à consulta por causa de um estado de angústia em situações reiteradas de perdas, ligadas a sua parceria amorosa e que lhe comprometem o corpo. A cada conquista pessoal que alcançava com relação a sua profissão (na qual tinha cada vez um maior sucesso) e que o separava do estado de alienação a seus pais e
sua mulher, ele tinha repetidos sonhos de perda e morte. E isso quando não eram acidentes ligados a seu corpo e que, com acting-out, o impediam de receber
Em uma consulta, produz-se o equívoco que dará lugar a uma ressonância da
interpretação, que abre à via da localização e da separação, evidenciando a luz do objeto.
Como sabemos, basta deixar que o sujeito fale de suas tolices e ele assim o fazia na sessão para relatar que, quando criança, foi uma primeira vez a um acampamento, separando-se com muita culpa e dor de sua mãe, pois era o porta-voz entre seus pais. Ao regressar depois de dois dias de ausência, descobre que sua mãe está internada na terapia intensiva. Havia tido um problema respiratório que lhe acometeu as cordas vocais e
comprometeu sua vida. Ao perguntar o que lhe aconteceu, a mãe responde:"fiquei sem voz".
Interrompo seu relato e exclamo: “- Ah, ficou sem vós!”, fazendo ressoar o
equívoco que se escuta na homofonia. O riso do sujeito assinalou o efeito
surpresa da interpretação, produzindo o distanciamento que deve operar na
ação analítica: separar o Ideal de onde o sujeito se vê e sua posição a respeito do objeto de gozo.
A voz, objeto encarnado no corpo do sujeito como um leve tique sonoro,
delimita o objeto em uma primeira operação de separação, ao mesmo tempo em
que produz certa extração de gozo.
Porque esta é a pergunta que nos convoca: como extrair o gozo que produz
este objeto no corpo?
A última parte do Seminário 10 nos guia nesta orientação, pois ali o a não
se apresenta como produto de uma estrutura articulada, mas como um recorte
do corpo, separar significante e gozo, isolá-lo, contorná-lo até conseguir cedê-lo.
Ficará, então, a pergunta pelo destino da pulsão no final da análise.
Será em seus últimos Seminários que Lacan vai elucidar os processos pelos quais
o gozo irá canalizar de novo, na via do sinthoma, uma identificação por fora
daquelas conhecidas: o que acabou por se chamar de um novo amor.
É assim que, de modo sucinto, tal qual uma abertura, me parece que podemos
começar a caminhar rumo ao próximo Congresso, causados por este objeto em
nossa experiência, cuja máxima expressão podemos encontrar nos testemunhos
do passe. Este singular objeto do qual são necessários os diversos trajetos da
análise para conseguir ser isolado e, afortunadamente, cedido.
Tradução: Maria Cristina Maia Fernandes
Revisão: Sérgio Laia |
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“... O OBJETO a QUE JÁ É O ESTOFO DO SUJEITO...”
Catherine Lazarus-Matet
clazarusm@wanadoo.fr
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“... o objeto a que já é o estofo do sujeito...” é uma parte de uma frase do curso dos anos 2004-2005, Peças avulsas, em que Jacques-Alain Miller, num parágrafo intitulado “Objeto a-liviado”1 lembra que, em um momento de seu ensino, Lacan fazia do objeto a um “irreal”2 .
Em 1969, no “Ato analítico”, Lacan formula o seguinte a propósito do sujeito: “Pois a partir da estrutura de ficção da qual a verdade se enuncia, é que, de seu próprio ser, ele vai fazer estofo para a produção ... de um irreal”3 .
J.-A. Miller comenta: “A estrutura de ficção da qual se enuncia a verdade na psicanálise é o sujeito suposto saber – compreendo assim esta frase. Estofo, aí, ecoa o termo que se encontra nos gramáticos Damourette e Pichon que opõem dois estatutos lingüísticos do sujeito na língua francesa, o je e o moi, sendo moi o sujeito como estofo em relação a seu puro índice Je. Quando respondo a “quem está aí?’ por “sou eu (c’est moi), eu (je) estou aí em minha presença de estofo que bate à porta, ou, ainda, quem telefona, diz seu nome – sou eu (c’est moi), eu (je) chego com todos os meus atributos. Esta oposição se reflete na oposição entre o sujeito barrado, vazio, pura variável, e o objeto a, que já é o estofo do sujeito, termo que Lacan, aliás, emprega em outras oportunidades, a esse respeito. É a partir do sujeito suposto saber que o sujeito pode fazer servir seu próprio ser para a produção de um irreal que é o objeto a destinado, pela operação da linguagem, a se aliviar (alléger). E, mais adiante: “É o objeto a-liviado (a-léggé) – 0% de matéria, todo no significante”.
O objeto a “é o gozo pensado a partir do significante”4 .
Tentarei, a partir de dois casos, apreender algo deste estofo, articulando o corpo à lalíngua, em duas mulheres: uma artista com um corpo leve como um sopro, cuja produção é o reflexo disso, e uma especialista da conservação de estoques alimentares com um corpo carnudo. A forma sendo apenas o lugar de uma tecedura em torno de um oco.
Há, a priori, uma separação entre o “sou eu” (c’est moi) que bate à porta, com todos os seus atributos, e o que é produzido ao fim de uma análise, mas, ainda assim, o objeto a já está no “sou eu que bate à porta”, o que se teceu pelos efeitos de lalíngua sobre o corpo do falasser .
Para Papers nº 1, eu havia proposto um bordado em torno do olho, e em seguida, pude reler uma passagem do curso de Jacques-Alain Miller em que ele evoca, a propósito de Joyce e do sinthoma, que, para Lacan, o pensamento borda em torno do real, em torno do caroço do real, e que “a análise, é isolar o caroço, e que, por isso, seria necessário saber deixar cair o bordado”5 . O bordado produz enunciados “tomados na lógica” da diferença, enquanto que o real não se liga a nada. O sinthoma joyceano é a resposta pelo real à verdade freudiana do sintoma.
Para se aproximar do real segundo Lacan, é preciso deixar cair o bordado, que é da ordem do falatório (parlotte), da linguagem da qual, entretanto, é preciso mesmo prescindir para escutar alguma coisa de lalíngua, mas imprópria para dar uma forma congruente ao real. Em RSI, Lacan diz que a linguagem é uma ornure (“ornixo”)6 . Este termo, encontrado num contexto especializado de decoração não existe em nenhum dicionário. Lacan inventa de qualquer modo uma palavra (próxima de ordure, “lixo”) para dizer que a linguagem acrescenta algo a mais, o semblante.
O sujeito que diz “sou eu” (c’est moi) vem com todos os seus atributos. Como diz Lacan, a condição do sujeito “é a de ser coberto de objetos”7 . Ele vem necessariamente com seu corpo, que não é seu ser, se seu ser é um falasser. Jacques-Alain Miller, em Peças avulsas, resume como, no ensino de Lacan, com Joyce, e com a perspectiva borromeana, é introduzida, pelo ter, uma disjunção do corpo e do ser. Com Joyce, “o homem tem um corpo, ele não o é”, enquanto que antes dos nós, o corpo e o ser estão ligados. Assim, em Mais, ainda, o ser é um corpo. A invenção do falasser é a de “um ser que não se sustenta no corpo, que não recebe seu ser do corpo que seria muito mais da fala, ou seja, do simbólico”8 . Mais recentemente, Jacques-Alain Miller, por ocasião de sua aula do dia 23 de maio de 2007 (cf. na Internet, TLN nº 332, de 26 de maio de 2007), a propósito da promoção do corpo no ultimíssimo (tout dernier) ensino de Lacan (TDE)9 que “o falasser é uma categoria que inclui o corpo. De tal modo que não é suficiente evacuar o corpo na análise dizendo que é um resíduo. O corpo é, ao contrário, quando se trata do falasser, um fundamental, como se diz hoje”.
Será que o estofo do sujeito é equivalente às marcas produzidas sobre o corpo por lalíngua? Será equivalente ao sinthoma concebido por Lacan como a consistência destas marcas?10
O termo “estofo” se lê em Lacan em diversos momentos. No RSI, quando Lacan fala das três consistências que são R, S e I, ele utiliza a palavra “corda” para dizer do suporte da consistência e retoma uma expressão, montrer la corde11 para dizer “tecedura já desgastada”: “ ... quer dizer que o tecedura não se camufla mais nisto cujo uso metafórico é tão permanente, não se camufla mais naquilo que é chamado, com a idéia de que, dizendo isto, diz-se alguma coisa, no que é chamado de estofo. O estofo de alguma coisa é o que por um nada faria imagem de substância e o que, além disso, é usual no emprego. Nesta fórmula de montrer la corde de que eu falava, trata-se de se perceber que não há estofo que não seja tecedura”12 . Lacan fala aí também da superfície, da bolha que faz o estofo do sujeito, a propósito da relação de textura sem costura do desejo e da realidade. Nada de estofo em O avesso da psicanálise, mas do tecido, aquele com uma relação de trama, de texto, de tecido (lição de 21 de janeiro de 1970).
E em Les non dupes errent (lição de 21 de maio de 1974): na experiência analítica, a verdade é nosso estofo, “no que ela é a verdade sobre este patético, sobre este sofrimento que designei como tal, o que leva a este contorno (cernage) de uma experiência estruturada como um discurso”. A prática analítica está fundada sobre um patético que se trata de situar, para cingir como nela se intervém. E depois, temos O momento de concluir, do qual Jacques-Alain Miller, neste ano, faz valer aquilo que se trama.
Dois casos
Lily é uma artista cujo “escabelo” desmoronou. Sua produção artística é o reflexo de seu estofo frágil. Olga é uma mulher que um luto colocou mais perto do objeto que faz seu estofo, e cujo corpo testemunha os efeitos de lalíngua. Lily ilustra como, “do traumatismo sofrido de lalíngua e de suas conseqüências, fazer uma obra” 13 . Contrariamente a Joyce, foi-lhe necessário recorrer à análise, mas no quadro do CPCT, e durante cinco sessões que lhe permitiram reenodar, fora de sentido, por uma invenção poética, o que estava desfeito. Para Olga, não houve obra, mas, ao fim de um longo trabalho, um savoir faire novo com um corpo que havia deixado largado, caído (laissé tombé).
A poesia como tratamento da precariedade do ser
Artista, a marginalidade lhe é familiar. Ela se endereça ao CPCT depois de haver escutado Hugo Freda, na France-Culture, sobre a precariedade. O motivo da sua vinda não é sua precariedade social, mas a precariedade de seu ser e de sua produção artística que algumas sessões vão permitir nomear, articulando seu ser evanescente ao objeto produzido, e à poesia.
“A vida cotidiana de cada um pode ser apreendida, celebrada, sublimada, pela poesia”. Esta mulher ilustra o que Jacques-Alain Miller podia dizer a respeito da narração da vida de cada um através da sessão analítica14 , mas, aqui, isto se aplica à sua vida fora da análise, esforço de poesia permanente, e necessita de uma articulação significante para tornar a existência vivível. Ela não consegue mais criar há dois anos. Esta mulher, com um corpo leve como um sopro, de voz frágil, tem poucas necessidades. Ela quer simplesmente criar de novo. A primeira entrevista, marcada por uma nota de reticência que contrasta com uma espera firme com relação ao CPCT, não permite precisar o que a pôde frear. Por ocasião do encontro seguinte, fala de sua atividade artística, reconhecida (imprensa, exposições). E da opacidade de seu tormento. Diante da ausência de elementos interpretativos patentes, proponho um tratamento no CPCT. Ela se ilumina. Era-lhe necessário este acolhimento para dizer mais a este respeito.
O terceiro encontro esclarece a ponta de reticência: era-lhe impossível dizer a quem quer que fosse o que a mantinha há quinze anos, devido ao risco de ser tomada “por uma adepta de seita, e por uma louca”. Um acidente de carro a tinha deixado num estado de angústia extrema que encontrou uma solução por ocasião do encontro com pessoas reunidas para dizer mantras diante da fotografia de um guru. O apaziguamento foi imediato e ela havia prolongado esta prática em sua casa durante anos. “Isto me estruturou”, diz ela. Entretanto, há dois anos, ela colocou um termo a esse bricolage eficaz que enodava o Outro, o corpo, as palavras, fora de sentido. Dou-lhe a indicação de não se privar deste sustento.
Na sessão seguinte, está sorridente e diz do apoio encontrado igualmente na natação cotidiana. Na água – e aí se indica sua relação singular com a linguagem – ela está “entre”. Ela ama esta palavra. “Entre” resume sua maneira de ser no interior dela mesma e com os outros, de “olhar para ela mesma” e de “olhar os outros”. Na água, esclarece, o olhar faz consistir os corpos. Esta necessidade de se fazer um corpo visível lhe fará falar de sua precariedade. Ela não é nada. Seu “ser é nada”. Nem o dinheiro, nem a celebridade podem impulsioná-la a trabalhar, pois ela não é nada. Ela, diz, precisava de “uma outra causa” além dela mesma, já que ela não é nada. É preciso uma outra coisa, “mais visível”, “mais verdadeira”. Qualifica-se de “dispensável”. Em si mesma, “não tem utilidade”.
Dois anos antes, tudo se desfez: duas “rupturas”. Uma exposição importante termina, sua irmã vende um terreno que pertencia a seus pais. Sem mais projetos, sem mais raízes. A exposição tinha acontecido num claustro, unindo sua arte e uma presença Outra. O terreno representava o laço simbólico à filiação. Esta presença Outra, ela dirá, é também o guru, o divino, uma imanência que garante sua própria existência.
Sua fala sobre a matéria-prima que ela trabalha dará à sessão seguinte um giro decisivo. Ela se diverte com isso: “Um débil poderia trabalhar isso!”. Mas é “a mais perfeita materialização da fragilidade, do caráter efêmero do ser, da precariedade. É aéreo, leve, quase invisível. É uma metáfora do ser”. Ela evoca então haver recitado durante semanas, , há dois anos, para “se manter em pé”, “O barco bêbado”, de Rimbaud. Acrescenta que entrevê agora que ela tem uma causa, uma só, na existência: “estar a serviço”. Como para “entre”, isto não é acompanhado de nenhum complemento de objeto. Mas “entre”, finalmente, se completava. Pergunto: “A serviço de ...?”. “A serviço da poesia”.
Ela acaba de apreender sua maneira para se sustentar, ou seja, fazer da precariedade de seu ser uma coisa a serviço da poesia. Digo-lhe que gostaria de ver seu trabalho. Na semana seguinte, ela está muito descontraída. Aliviada, dirá, e pronta para criar. Quer ficar neste ponto, não desejando buscar o sentido além desta nova amarração. Trouxe o folder de sua última exposição. Sua produção é soberba, muito elaborada, extremamente poética, e faz vibrar seu ato: materializar o efêmero.
O “ser nada” que se sustentava com intermitência por vias materiais (a matéria significante, o Outro, a água, suas obras frágeis para se fazer um corpo visível), complementou-se com uma causa própria para dar um sentido à existência desta artista, não no nível das significações, mas de uma orientação e de um lugar no mundo. Este passo modesto, cuja solidez resta ser colocada à prova, se resume em uma articulação gramatical que transformou o objeto poético instável em objeto causa capaz de dar uma utilidade privada e pública a um sujeito até então às voltas com um gozo infinito. Não é possível situar o que pôde inscrever esta ausência de ser de Lily no olhar. Ela havia sabido construir um saber fazer instável que lhe permitia pôr o olhar do lado do Outro, conservando-o de seu lado, tanto na água da piscina quanto em sua arte. Os poemas ou os mantras vinham suprir a foraclusão do significante. Depois, a poesia virá como objeto causa, mas aí intencional, fator de laço social, complemento de objeto, abrindo para uma possível amarração da linguagem à evanescência primeira do corpo e do ser.
Virar-se sozinha
Olga procurou análise sobrecarregada com as determinações da história familiar da qual não se liberava. Filha mais velha de uma fratria de três, vivia com bebês, pois sua mãe era ama-de-leite, como se dizia antigamente. A irmã do pai e a avó materna viviam com a família. Um conflito permanente estava em jogo entre o pai e a irmã deste. Olga era identificada por seu pai à tia malvada, sob o significante “não amável”.
O nascimento de sua irmã, quando tinha quatro anos, foi vivido como um sentimento indelével de “estar caída no chão, sem que sua mãe nunca mais viesse levantá-la”. Esta imagem se aprofundou, quando do nascimento de um irmão um ano depois, em uma imagem da invidia, da qual ela se excluía, na qual sua mãe, sentada, abraçava contra ela os dois menores.
A isto se acrescentou a palavra de ordem de sua avó que via sua filha assoberbada pelos cuidados dedicados a todas estas crianças: “Vire-se sozinha”.
Não amável, tendo que se virar sozinha, ela se tornou uma das primeiras mulheres engenheiras frigoríficas, especialistas em frio. Toda uma face de sua construção devia se esclarecer em torno deste significante “frio”, marca de sua reivindicação para encontrar seu lugar entre os homens. Uma elucidação desta vertente fálica endereçada ao pai trará um alívio em sua relação aos outros, na qual, entretanto, insistia sempre a certeza de ser rejeitada.
Teve dois filhos de um companheiro estrangeiro, cuja cultura muçulmana era apropriada para manter uma impossível igualdade, na medida em que ele vivia livre de todo compromisso frente a ela. Contudo, isto estava de acordo com o que ela havia forjado da relação entre os sexos: dois indivíduos que andam sobre o mesmo caminho, mas que não se encontram nunca. Ela havia organizado uma vida sem o pai de seus filhos, mas sem se separar dele e achando, ao contrário, uma nova maneira de estar ligada a este, uma espécie de assistência mútua diante das preocupações encontradas.
Um emprego no interior lhe havia feito interromper o trabalho analítico durante alguns anos num momento de apaziguamento onde, entretanto, restava uma ferida viva, que não era mais marcada por momentos de angústia, mas uma ferida sempre aberta, o enigma da distância materna.
Após a morte brutal de seu companheiro, é que ela retoma o trabalho. Esta perda a confronta de novo com a injunção de se virar sozinha e a deixa desamparada. Avalia então, mais ainda, o que já sabia: havia escolhido um companheiro que acumulava as “enrolações” (emmerdements). Esta mulher, nunca trivial, não encontra palavra melhor. Esta é a mais certa. Ao se desfazer dos pertencer pessoais deste homem amontoados em sua casa, ela fala de coisas nunca evocadas. Vive numa casa suja, desarrumada, entulhada de coisas inúteis. Ela tem que arrumá-la para receber as pessoas após as exéquias. Volta-lhe, então, a imagem de sua mãe trocando as fraldas dos bebês e do prazer que ela tinha com isso, prazer que ela própria tinha aí quando, pequena, ajudava sua mãe. O que se traduz pela idéia de ter sido separada deste prazer, recusado a ela pela sua mãe. O “vire-se sozinha” se torna um “desenrole -se (démerde-tois) sozinha”, em parte realizado, e em parte não realizado. Ela conclui simplesmente que ele vive no rolo (merde), que ela jamais se “desenrolou (démerdée) inteiramente só”, acrescentando a isto uma parceria com um homem sempre unicamente quando ela estava no rolo (merde), mas incapaz de sair dele. Ela própria só fez isso para ele, com mais sucesso.
Nunca falava de seu corpo, de sua imagem. No entanto, ela tinha um físico particular, muito cheio, pequeno, o corte de suas roupas sem decotes, nunca maquiada, atenta entretanto à harmonia das cores das roupas, mas nunca preocupada em agradar, cabelos longos como uma menina. Atingida pelo equívoco do “vire-se sozinha” e suas conseqüências, chega a dizer, a esse respeito, que come todas as noites sem limite, diante da televisão e, por isso, é tão gorda. A isso vem se acrescentar a organização de sua existência em torno desta “desenrolação” (démerdage) recusada. Corpo produzindo o objeto ainda ligado ao corpo de sua mãe, pelo viés da imagem recalcada, ela fez deste corpo mesmo este dejeto rejeitado. Uma nova atenção dada a seu corpo irá se seguir. Do mesmo modo vai esclarecer que ser especialista do frio, o que supunha na prática saber gerir os estoques alimentares dos supermercados a fim de retardar sua perempção, mostrava a invasão de seu mundo pelo objeto anal além de seu corpo. Peças avulsas, além do corpo e, no entanto, ligadas ao corpo. Muitos objetos, no final, para esta mulher tão sozinha. Sua solidão só se equiparava a seu desejo de ser a única a alimentar o prazer de sua mãe.
A construção deste objeto lhe fez entrever que era somente uma voz que ditava seu estilo de vida e que, a partir da queda vivida por ocasião das duas cenas onde ela não está, é que se organizou sua vida pulsional. A partir destas imagens onde ela não está. O objeto anal se instalou a partir destas imagens que fizeram o leito do objeto a.
Percurso que evoca o que Lacan dizia em RSI: “Não há no inconsciente, se ele é feito tal como lhes enuncio, nada que com o corpo faça acordo; o inconsciente é discordante. O inconsciente é o que, por falar, determina o sujeito como ser, mas ser a se riscar desta metonímia cujo desejo, enquanto para sempre impossível de dizer como tal, eu suporto. Se digo que o pequeno a é o que causa o desejo significa que ele não é o seu objeto, não é seu complemento direto, nem indireto, mas somente esta causa que, para jogar com a palavra como fiz em meu primeiro discurso de Roma, esta causa que causa sempre. O sujeito é causado por um objeto que só se nota através de uma escrita”. E ainda: “ ...o objeto que designo, que escrevo com a figura do pequeno a, e sobre o qual nada é pensável, exceto que tudo o que é sujeito, sujeito de pensamento que se imagina ser ser, é determinado por ele”15 .
Notas:
1 Em francês, objet a-llégé. Allégé é o particípio passado do verbo alléger, que quer dizer ‘tornar menos pesado, menos penoso’. Entretanto, é também, e sobretudo, o adjetivo dado aos alimentos dos quais se retirou as gorduras ou o açúcar, isto é, o que chamamos light.
2 J.-A. Miller, “Peças Avulsas”, A orientação lacaniana, Curso dos anos 2004-2005, La Cause freudienne nº 63, junho 2006, p. 124.
3 J. Lacan, “O ato analítico”, Outros escritos, Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2003, p.
4 J.-A. Miller, op. cit, p. 125.
5 J.-A. Miller, “Peças Avulsas”, La Cause freudienne nº 60, junho 2005, p. 171.
6 J. Lacan, Seminário “RSI”, lição de 21 de janeiro de 1975, Ornicar?, Boletim periódico do Campo Freudiano, nº 3, maio de 1975. N.R.T.: em “ornure”, teríamos, então: “ornamento” e “lixo”.
7 J. Lacan, “Problemas cruciais para a psicanálise”, inédito, lição de 7 de abril de 1975.
8 J.-A. Miller, “Peças Avulsas”, La Cause freudienne nº 61, novembro 2005, p. 145.
9 N.T.: TDE é a sigla de “le Tout Dernier Enseignement”, traduzido aqui por “ultimíssimo ensino”.
10 J.-A. Miller, op. cit, p. 152.
11 N.R.T.: literalmente, esta expressão francesa pode ser traduzida por “mostrar a corda”, mas tem também o sentido figurado de “já estar gasto” e, neste contexto, equivaleria a “desfiar”, “mostrar o fio”. Considerando a importância da referência de Lacan à corda no que concerne aos “nós”, foi mantida a expressão no original.
12 J. Lacan, Seminário “RSI”, lição de 21 de janeiro de 1975, Ornicar? nº 5, 1975.
13 J.-A. Miller, op. cit, p. 135.
14 J.-A. Miller, “Um esforço de poesia”, A orientação lacaniana, curso de 26 de maio de 2003.
15 J. Lacan, “RSI, op. cit.
Tradução: Ruth Sousa Dantas de Araújo
Revisão: Sérgio Laia.
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AS METAMORFOSES DO OBJETO ANAL NA NEUROSE OBSESSIVA
Carmelo Licitra Rosa
carlicitra@libero.it |
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Estudar a neurose obsessiva, tal como articulada por Lacan no Seminário 10, requer nos valermos de três eixos.
No primeiro eixo, situamos o desejo no Outro (p. 317-319, capítulo XXI, Sem. 10), cuja reivindicação sempre é angustiante. A angústia, como sintoma capital do obsessivo, a ele se reporta.
No segundo eixo, colocamos a Demanda no Outro (p. 320-336, capítulo XXII, Sem. 10), cuja função é recobrir o desejo do Outro: “recobrir” não no sentido forte de uma obturação que fecha de uma vez por todas, mas no sentido mais sofisticado de um revestimento que reproduz os contornos do que permanece oculto, o desejo do Outro para sublinhar que, desta maneira, não mais causa alarme (p. 329-336, Sem. 10). A tal demanda está ligado o excremento, não como feia evacuação orgânica, mas como propriamente demandado, forma “postiça” (p. 61, Sem. 10) ou “falaciosa” (p. 62, Sem. 10) do objeto a, em sua declinação de objeto anal. Este binômio Demanda-objeto constitui o nível mais externo – podemos dizer – do funcionamento geral da neurose (capítulo IV, Sem. 10), e a ele se reporta a típica constelação sintomática da neurose obsessiva.
No terceiro eixo, descobrimos, através da angústia, o desejo do sujeito (p. 337-351, capítulo XXIII, Sem. 10), como causado pelo verdadeiro objeto anal, ou seja, não pelo objeto demandado, maspelo objeto produzido e pela emergência do desejo do Outro residual, posto que o desejo do Outro não pôde ser tamponado completa ou definitivamente pela superposição da Demanda do Outro, que o antecede. Da interação entre esse desejo do sujeito e as outras duas dimensões, respectivamente, do desejo do Outro e da Demanda do Outro, aparece, como veremos, outro típico agrupamento sintomático da neurose obsessiva. Esse desejo do sujeito, de fato, se opõe tanto à Demanda do Outro – sendo desejo de reter enquanto a Demanda é ambivalente – quanto ao desejo do Outro, do qual certamente deriva [d(A) -> a ->d( $ )], mas contra o qual se volta para constituir uma defesa.
Quero fazer notar como se diferenciam nesta última asserção, ao mesmo tempo, os dois vetores do desejo, para nós já familiares: em primeiro lugar, aquele inserido no conhecido aforismo o desejo do sujeito é o desejo do Outro, aforismo para ser compreendido não no sentido de uma equivalência implicando uma convergência, mas numa derivação compatível também com uma divergência; em segundo lugar, aquele que assemelha o desejo a uma defesa.
1- O desejo no Outro
“O fato estrutural do qual nós, só nós, nos apercebemos, é que, até um certo momento da análise, faça ele o que fizer, e seja qual for o refinamento a que levem suas fantasias e práticas ao se construírem, o que o obsessivo apreende dela é sempre o desejo noOutro” (p. 318, Sem. 10).
O desejo noOutro é, portanto, a espada de Dâmocles, o perigo último que ameaça sem salvação o sujeito obsessivo. Lacan afirma com todas as letras que, quando o desejo noOutro, essencialmente recalcado, faz eventual retorno, no instante preciso em que espreita, se materializa no obsessivo a dimensão da angústia, aquele penoso sentimento de angústia que constitui um componente bastante freqüente na fenomenologia clínica obsessiva.
Na construção em cinco planos, desenhada às páginas 317-319, Lacan coloca no quinto nível o desejo noOutro em sua “forma pura” (p. 318, Sem 10).
2- A Demanda no Outro
2.1. “Para encobrir o desejo do Outro, o obsessivo tem um caminho: é o recurso à demanda dele” (p. 319, Sem. 10). Esta manobra é base do que na clínica identificamos como evitação – evitação precisamente do encontro ameaçador com o desejo noOutro –, sintoma típico da neurose obsessiva.
Uma das formas da estratégia da evitação é se fazer autorizar, ou, mais diretamente, fazer-se demandar pelo Outro qualquer tentativa de acesso à esfera do desejo. As verdadeiras acrobacias nas quais o obsessivo se engaja, as complicadas performances nas quais se arrisca, ora audazes e refinadas, ora francamente perversas, são, entretanto, tentativas de conjugar a transgressão (desejo como mais além) com a autorização do Outro, da qual não quer prescindir (registro da Demanda).
Aqui, Lacan manifesta sua perplexidade, perguntando se uma análise, na medida em que ela própria no final se desdobra em uma dimensão homóloga à da Demanda, pode conseguir superar totalmente esse modo tão obstinado do obsessivo de fugir, de se subtrair. Definitivamente: sua procura de proteção sob a Demanda.
2.2. Assim como o desejo noOutro está mascarado detrás da Demanda noOutro, da mesma forma o objeto, por seu estatuto objeto causa do desejo, está velado por um objeto postiço – espécie de dublê do verdadeiro objeto – colocado em relação à Demanda. E onde é que a Demanda aparece predominante? No nível do estádio anal, onde o objeto não é simplesmente o excremento, mas excremento como demandado (cf.ib.). De tal modo, o objeto que encontramos em primeira instância na clínica da neurose obsessiva não é o objeto anal causa de desejo, mas um objeto anal adulterado – por assim dizer – por sua relação com a Demanda, cuja repercussão é a camuflagem do desejo por obra da Demanda.
Em razão dessa estrutura de sobreposição muito eficiente, Lacan pode afirmar que, se uma análise é levada até corroer a relação mais profunda com o objeto anal – admitindo-se que uma análise possa efetivamente atingir esse ponto extremo – pode vir a ser liberada uma angústia irredutível, diretamente não dominável.
2.3. Perguntamo-nos, agora, como pode o excremento chegar a desempenhar um papel tão privilegiado na constituição subjetiva correspondente à modalidade anal (cf. p. 326, Sem. 10).
Lacan observa que o excremento, que faz sua parceria com o vivente já no nível do blastóforo, isto é, numa etapa anterior à diferenciação da boca e do ânus, no plano estritamente biológico se caracteriza como algo a ser expelido do organismo, mais precisamente como alguma coisa da qual o vivente, depois de tê-la eliminado, parece se desinteressar totalmente, em oposição ao interesse que dirige a tudo o que é para ser introduzido em seu interior. Portanto, no registro etológico, o excremento é algo pelo qual o vivente não manifesta nenhuma tendência espontânea à retenção, o excremento parece feito para ser solto (cf. p. 326, Sem. 10).
Então, o que eleva o excremento ao grau de importância que ele acaba por assumir no ser humano? A resposta é de Lacan: a Demanda do Outro, da mãe e dos educadores em geral. Essa demanda é uma demanda em dois tempos:
No primeiro tempo a Demanda lhe ordena reter (A), ou, definitivamente, que considere o excremento como alguma coisa que pertence a seu corpo e que, como tal, deve ser preservada, pelo menos um pouco (cf. p. 327, Sem. 10).
No segundo tempo, a mesma Demanda o induzirá a soltar (B), a ceder o excremento. Ora, é verdade que o sujeito tem alguma relutância em ceder esse excremento, em função da versão anterior da demanda do Outro que lhe impunha conservá-lo como parte integrante de si (“Se eu o der, onde irá parar?”, p. 329, Sem. 10), mas também é verdade que esse objeto, uma vez cedido, terá a propriedade de satisfazer a demanda do Outro e, em certa medida, satisfazer o próprio sujeito, vista a seqüência de ações do Outro, ditas geralmente cuidados, que se seguem à defecação (cheirada, limpeza das nádegas), ações para ele de indubitável capacidade erótica.
É assim que o excremento torna-se algo precioso, um agalma, malgrado seu odor nauseabundo, e, por isso mesmo, está pronto para ser colocado em relação não só com as outras formas nas quais se pode materializar tal agalma, mas também com o falo como ( - φ ) , conforme será elucidado a seguir.
Todavia, ao lado desta conotação positiva (B.1), isto é, de admiração da parte do Outro – que cocô bonito você fez! –, este segundo tempo da Demanda do Outro inclui também uma conotação negativa (B.2), de desaprovação, evidente na recomendação para não se contaminar com esse dejeto, para não demorar muito se divertindo. Aqui, reconhecemos o pressuposto para as satisfações sublimatórias, sistematicamente encorajadas nesses laboratórios de manipulação de massinhas, típica de todas as ludotecas.
Dessa maneira, depois da indeterminação na qual havia deixado o encontro com o objeto vocal e com o objeto oral, “é no nível anal que ele [o sujeito] tem pela primeira vez a oportunidade de se reconhecer num objeto” (p. 328, Sem. 10). E, contudo, em função da ambivalência da demanda doOutro, este reconhecimento do sujeito no objeto resulta ambíguo, de modo que “o que está ali é ao mesmo tempo ele e não deve ser ele, e, mais até, não faz parte dele” (p. 329, Sem. 10): é nisso que Lacan situa a origem da ambivalência obsessiva.
Concluindo, delineia-se aqui uma forma da divisão subjetiva relacionada à Demanda do Outro, divisão na qual podemos ver se concretizar a estrutura do sintoma obsessivo “em sua função de resultado” (ib.), conforme a distinção articulada anteriormente (p. 322, Sem. 10) por Lacan entre resultado (sintoma) e efeito (desejo) de uma causa. Além disso, deveriam estar neste ponto definitivamente esclarecidas, no fio dessa predominância da demanda, as ligações necessárias, na neurose obsessiva, entre a relação com um objeto perdido altamente desagradável e a mais alta produção idealista.
3- Na Demanda, transparece o desejo do Outro
3.1. “Só que lhes assinalei que essa estrutura, baseada na demanda, deixa fora de seu circuito aquilo que deve nos interessar, se a teoria que lhes exponho estiver certa, ou seja, a ligação com o desejo” (p. 329-330 Sem. 10). Faz-se necessário, então, saber especificar na neurose obsessiva, ao lado da estrutura da Demanda até aqui articulada, a dimensão subjacente do desejo do Outro, com seu colorido sexual. Cabe, de fato, perceber o que Lacan aqui denomina o desejono estádio fálico, precisamente o desejo sexual, como a forma mais próxima ao desejo do Outro em sua pureza (cf. capítulos XIV, XV e XIX, Sem. 10).
É necessário, portanto, oportunamente recuperar tal dimensão do desejo, certamente heterogênea à Demanda, sem, porém, diminuir ou “varrer para o lixo” a dimensão da Demanda, com suas seqüelas, acima ilustradas, sobre a divisão subjetiva. Ainda mais, “por sua própria duplicidade [primeiro reter depois soltar], o objeto [da demanda, não o do desejo] passa a poder simbolizar maravilhosamente, pelo menos através de um de seus tempos [evidentemente o segundo no qual se ordena soltar], aquilo de que se tratará no advento da fase fálica” (p. 330, Sem.10). Em outras palavras, “A evacuação do resultado da função anal, sendo comandada como é, assumirá toda sua importância no nível fálico, como imagem da perda do falo” (ib.).
3.2. Se, portanto, o falo, como órgão caduco, falha em realizar a união dos sexos – como explica Lacan nas densas passagens que se seguem à página 330 e que deixo de comentar para agilizar a presente exposição –, isso tem como conseqüência que o amor, o qual, ao contrário, inegavelmente realiza certa união, deverá necessariamente ter em vista alguma coisa além do falo. Este além do falo, em direção ao qual aponta o amor, no caso da mulher confrontada ao homem é “ora transverberado pela castração, ora transfigurado em termos de potência” (p. 331, Sem. 10), e no caso do homem confrontado à mulher é indicado pelo símbolo do dom, enquanto o dom é “essencial na relação com o Outro” (ib.). Mas porque é totalmente evidente que na relação sexual o homem não doa nada, ao menos não mais do que a mulher, o símbolo do dom é retirado da esfera anal, sendo o cíbalo para a criança o dom de amor por excelência – como foi precocemente intuído pela teoria psicanalítica.
Há aqui uma implicação subseqüente a ser evidenciada. Tudo o que se disse de a como dom destinado a recobrir e, portanto, reter o sujeito na borda da castração pode também ser dito da imagem, como cobertura do estádio fálico [aliás, do desejo do Outro] (cf. p. 350, Sem. 10). Esse recurso à imagem está na base do amor idealizado do obsessivo, com todas as ambigüidades que lhe são conectadas. Se, de fato, esse amor se apóia sobre uma imagem, cuja função última é a de reparar a falha do verdadeiro desejo, eis que esse amor, como atestam as enfatuações dos grandes obsessivos, será marcado por uma sub-reptícia negação do desejo, coisa sobre a qual em geral a parceira feminina dificilmente se engana. Na realidade oobsessivo é enamorado por uma certa imagem, que, entretanto, ele doa ao outro. Em virtude desse dom, ele chega a imaginar que o outro não saberia mesmo como se sustentar caso tal imagem lhe faltasse, e é nisso que Lacan colhe a dimensão altruísta do amor do obsessivo. Manter essa imagem significa, porém, também manter uma distância entre tal imagem e o sujeito; assim, tudo aquilo que faz não é jamais para ele, donde a famosa solidão na qual o obsessivo se sente imerso e da qual às vezes se lamenta. Reduzir essa distância – precisa Lacan – é uma das tarefas mais árduas que se apresentam na análise do obsessivo (cf. p. 350, Sem. 10).
3.3. Porém, e o desejo do obsessivo? Neste universo em que tudo é simbolizado – a divisão subjetiva, a impossibilidade de união –, o desejo, que não o é, não encontra lugar. E este, portanto, a fim de que o sujeito possa, de algum modo, se realizar em sua posição, deve, por assim dizer, rebaixar-se um degrau, até o nível 4 do esquema apresentado por Lacan na página 330, que retoma aquele das páginas 317-319. Isso tem como resultado um desejo degradado que se apóia na miragem da potência, miragem que surge do reflexo especular, ou melhor, do suporte narcisista que a imagem do outro pode fornecer à pretensão de maestria de si perseguida pelo obsessivo. É o que basta para invocar rapidamente a estreita ligação – articulada por Lacan nos capítulos anteriores – entre o sonho de potência e o registro visual, ou pulsão escópica, onde a imagem do semelhante contrasta com os sinais de excelência e com a convocação sedutora da perfeição.
Dito isso, o desejo do obsessivo permanece um desejo impossível. De fato, é mesmo em torno do abismo do desejo do Outro, velado com todos os estratagemas possíveis, que se consuma o drama do obsessivo. Quando se diz que seu desejo é impossível, se quer expressar, com Lacan (cf. p. 351, Sem. 10) que “seu desejo nunca é autorizado a se manifestar como ato. Seu desejo se sustenta por contornar todas as possibilidades que determinam o impossível no nível fálico [...] ele sustenta seu desejo no nível das impossibilidades do desejo”.
Mas como entender tal impossibilidade relacionada a esse desejo que se refugia na ilusão de potência? Pois bem, antes de tudo, os fantasmas do sujeito obsessivo, fantasmas de potência, não são jamais realizados, mas sempre procrastinados. Chega um momento, porém, que por mérito próprio ou por intervenção do outro, os obstáculos chegam a ser removidos e os desejos finalmente realizados. Todavia, mesmo tal afortunada circunstância acaba por confirmar uma vez mais o aforismo da impossibilidade do desejo: quanto mais o obsessivo possa se empenhar em dar curso a tais desejos, pelo fato de dever necessariamente constituí-los no único registro a ele acessível, que é o da potência, ou seja, aquele imaginário, no fim constatará com desilusão ter sido, por assim dizer, lambido só por um instante, não os ter vivido com a plenitude que imaginava, ter sido só indiretamente tocado. Em resumo, aqui reside toda a sensação de não vida do obsessivo, que alimenta sua reivindicação e inexaurível busca de um apagamento autêntico (cf. p. 333, Sem 10).
3.4. Há enfim um outro interessante corolário desse recurso do obsessivo à miragem da potência, como suporte do desejo degradado. Para nos guiar em direção à relação entre a potência – em seu horizonte escópico eletivo – e este complemento mais além, que agora explicitaremos, está a correlação entre onividência e onipotência, que Lacan desenterra numa ampla digressão, que aqui deixaremos de lado, sobre os deuses antigos e o deus cristão, passando pelo deus de Platão (p. 334, Sem. 10). É a tradição cristã que destaca com a máxima força que Deus onipotente é também onividente. Então, qual é este complemento à miragem da potência? “Trata-se da projeção do sujeito no campo do ideal, desdobrada entre, de um lado, o alter ego especular, o eu ideal, e, de outro, o que está mais além, o ideal do eu” (p. 335, Sem. 10). No obsessivo, o “ideal do eu assume a forma do Todo-Poderoso. É aí que o obsessivo procura e encontra o complemento do que lhe é necessário para se constituir como desejo, a saber, a fantasia ubiqüista, que também é a base sobre a qual vai e vem, sobre a qual saltita a multiplicidade de seus desejos, a serem empurrados cada vez mais longe” (p. 335, Sem. 10). Mas é também por isso que um obsessivo, mesmo se professando ateu, permanece sempre um fervoroso crente, na medida em que, em sua estrutura, não pode abandonar a fantasia do Todo-Poderoso. Ao ateu anti-religioso, como Voltaire e Diderot, Lacan contrapõe o ateu fruto de uma ascese psicanalítica, qualificando esta última forma de ateísmo como a única realmente concebível, enquanto “negação da dimensão de uma presença da onipotência na base do mundo” (p. 335-336, Sem. 10).
4- O desejo do sujeito obsessivo
4.1. Fica, porém, que toda essa enorme expansão da demanda não basta para tamponar completamente o desejo do Outro: o significante não consegue absorver a angústia – martela Lacan ao longo de todo o seminário. E assim, quando o desejo do Outro espreita entre os interstícios da demanda, então, volta a explodir a angústia. Mas a angústia produz o objeto, ou melhor, o objetocausa, aqui segundo a modalidade anal, que dessa maneira vem tomar lugar na dialética do desejo própria ao obsessivo.
Contudo caminhemos ordenadamente, segundo os tempos que respondem somente às exigências de uma esquematização, a qual obtemos do terceiro esquema da divisão às páginas 178 e 179 do Seminário 10, comentado por Jacques-Alain Miller nas lições XVIII e XIX do seminário Le Forum des psy.
Em um primeiro tempo, pelo afastamento demanda/desejo do Outro, aparece a angústia, índice do “momento em que o campo do Outro, por assim dizer, fende-se e se abre para seu fundo” (p. 339, Sem. 10). Com seu surgimento, a angústia “designa o objeto, digamos, mais profundo, o objeto derradeiro, a Coisa. É nesse sentido, como lhes ensinei a dizer, que a angústia é aquilo que não engana” (p. 338-339, Sem. 10). Então: [d(A) = Coisa] → Angústia.
No segundo tempo a angústia determina a cessão do objeto. É na medida em que “[...] nesse confronto radical, traumático, o sujeito cede à situação” (p. 339, Sem. 10); cessão que deve ser compreendida – precisa Lacan em continuação – não como uma vacilação ou uma inflexão, mas no sentido literal de soltar. Nos parágrafos seguintes Lacan fala longamente sobre a equivalência entre objetos naturais e objetos artificiais e sobre a permutabilidade dos naturais por obra dos artificiais, dado que todos os objetos, em sua multiforme variedade, são, categoricamente, revestimento do único objeto a, com sua característica fundamental de ser cedível. No mesmo plano se inscrevem as considerações sobre o objeto transicional, das quais somente destacamos, para confirmar a função crucial desenvolvida pelo objeto cedível na economia subjetiva, que este, “como pedaço separável, veicula, primitivamente, algo da identidade do corpo” (p. 341, Sem. 10). O objeto cedido, destinadono tempo seguinte a operar como objeto causa, pode neste tempo dar sinais de si no fenômeno da efusão, capaz de ser acompanhado pela perda intempestiva de fezes. Aqui, Lacan remete ao esquema da dupla entrada, mostrado à página 89, afirmando que a causa (ou seja, o objeto causa), produzida pela angústia, não consegue ser preservada pela efusão (cf. p. 339, Sem. 10). Portanto angústia e efusão têm relação entre si, como se evidencia pelo dado clínico, como aludido acima, de uma incontinência inesperada.
Ora, e este já é o terceiro tempo, este objeto cedível que é o objeto anal intervém na função do desejo. Intervém em função de causa, não de efeito, conforme antecipado no capítulo VIII do seminário; como causa – precisa Lacan – do desejo, enquanto o desejo “é algo não efetivo, uma espécie de efeito baseado e constituído na função da falta [...]” (p. 343, Sem 10). Este ponto mereceria um aprofundamento que, porém, reenviamos a uma próxima contribuição.
4.2. Retomando o fio de nosso discurso, esse desejo no nível anal, determinante na constituição do sujeito obsessivo, configura-se como desejo de reter num sentido amplo. E é sobre isso que se apóia, com sucesso, a educação para reter (Demanda) e não vice-versa.
Como contrário exato da angústia, o desejo, no esquema da página 89, se situa no pólo oposto ao da angústia, isto é, no lugar da inibição. Lacan, de fato, seguindo os modelos de Freud, articula a inibição como resultado da intromissão de um desejo que se sobrepõe para obstaculizar ou impedir o curso de um outro desejo, incumbido de sustentar uma determinada função. Atrás da inibição está em jogo, então, um desejo que oculta outro desejo, de algum modo mais primitivo, e indispensável para a indução de uma determinada ação. Aqui – neste desejo que protege um outro – se surpreende claramente a natureza de defesa própria ao desejo, exatamente de defesa em ato.
Para pontuar sucintamente, distingamos em primeiro lugar o desejo do Outro, com sua propriedade de gerar a angústia; em segundo lugar o desejo de reter, que constitui uma defesa em relação ao primeiro, na medida em que o obsessivo, impossibilitado como qualquer neurótico de responder ao buraco fálico (outro modo de designar o desejo do Outro, como se dizia acima), colocado em situação crítica, recorre ao seu próprio objeto, ao objeto a anal, que se torna, assim, causa do desejo de retenção. É por isso que tal objeto – certifica Lacan – pode também ser definido, sem temor de abusar, como uma rolha (cf. p. 348, Sem. 10).
Ao lado desses dois desejos é necessário colocar o ato. Lacan sustenta claramente que, dado o ato participar do desejo e dado o desejo se contrapor à angústia como seu contrário, então, o ato se encontra no mesmo lugar no qual situamos a inibição. Ato e inibição são, assim, um o avesso do outro, mas no mesmíssimo lugar. Melhor dizendo, o que é o ato? “[...] falamos de ato quando uma ação tem o caráter de uma manifestação significante na qual se inscreve o que poderíamos chamar de estado do desejo. O ato é uma ação na medida em que nele se manifesta o próprio desejo que seria feito para inibi-lo” (cf. p. 345, Sem. 10). Portanto, partindo dos dois desejos contrapostos, defrontados na inibição numa tensão resultante na imobilidade, o ato aparece, ao contrário, como o avesso da inibição, enquanto é a dissolução de uma imobilidade, ou melhor, enquanto uma ação na qual é bem discernível, paradoxalmente, o mesmo desejo que havia primeiro determinado o bloqueio. Daqui decorre toda a clínica da passagem ao ato e do acting out na neurose obsessiva.
5- Compulsão e dúvida
Não podemos nos despedir da neurose obsessiva sem um último e rápido apontamento. No capítulo I do Seminário 10, página 22, Lacan nos apresenta o esquema de dupla entrada – já mencionado –, construído através do cruzamento de três linhas horizontais e de três colunas verticais. Jacques-Alain Miller o comenta na lição XV do seminário Le Forum des Psys.
Partindo da definição freudiana segundo a qual a inibição é uma função obstaculizada, Lacan procede separando os dois componentes da inibição, como se fossem dois vetores geradores, sob o nome de movimento e dificuldade, respectivamente, e construindo uma grade que tem no eixo horizontal a dificuldade e no eixo vertical o movimento, convergindo no alto e à esquerda na inibição. No eixo horizontal, da esquerda à direita estão dispostas em sucessão três gradações crescentes da dificuldade: inibição, impedimento, embaraço, onde se vai do mínimo ao máximo do obstáculo. No eixo vertical, de alto a baixo, estão dispostas três gradações crescentes do movimento: inibição, emoção, efusão, onde se vai de um movimento controlado até uma parada momentânea, chegando a um movimento totalmente desorganizado. Assinalem-se os quadrantes de intersecção, em particular aquele entre impedimento e emoção, que é o sintoma, e aquele entre embaraço e efusão, que é a angústia. Lacan deixa vazios os outros dois quadrantes de intersecção, que preencherá mais tarde, na página 89, especificando que o espaço entre impedimento e efusão é o do acting-out, e aquele entre embaraço e emoção é o da passagem ao ato.
Não me deterei nos detalhes. Urge, apenas, sublinhar como essa grade inicial é recolocada por Lacan precisamente duas vezes consecutivas nos últimos capítulos do seminário, em particular nas páginas 346 e 361, com resultados extremamente esclarecedores. Contudo, esses dois últimos esquemas aparecem modificados, pois Lacan, com exceção da angústia, que permanece como termo suporte, insere novas funções no lugar das precedentes. Existe, portanto, uma substituição de elementos mantidos intactos os lugares, princípio característico da lógica estrutural, que atingirá seu ápice na permutação dos quatro discursos no Seminário 17.
O esquema da página 346 é para ser lido, a meu ver, deste modo. O desejo, que é para situar no lugar da inibição, está na diagonal em oposição polar à angústia: com efeito, se a angústia é o sinal do desejo do Outro, ou da Coisa, o desejo (subentendido: do sujeito) é a defesa, o fechamento em relação à emergência da angústia. Entre os dois desejos, existe um elemento interposto que faz mediação: o objeto a, por um lado produzido pela angústia e, portanto, definitivamente resposta ao desejo do Outro, por outro causa do desejo do sujeito. O desabrochar do objeto no tempo intermediário, isto é, antes de sua assunção como objeto causa, às vezes pode ser notado nas manifestações da efusão, sob a forma de um objeto que não pode ser contido. Depois disso, de tal objeto, uma vez elevado à causa, só teremos traços sintomáticos.
Tal objeto, causa de um desejo de reter, todavia pressiona e pode levar a certa cessão do próprio desejo de reter. O sujeito assim se pode encontrar “impedido de se ater a seu desejo de reter, e é isso que se manifesta no obsessivo como compulsão. Ele não pode conter-se” (p. 347, Sem. 10), o que explica como a compulsão (exatamente o não poder) está no lugar do impedimento. Ao mesmo tempo, o obsessivo experimenta certo titubeio, gerado por todas aquelas situações nas quais é confrontado com uma tarefa a ser resolvida, “quando o sujeito não sabe desde onde responder” (ib.). No esquema citado, Lacan qualifica esse estreitamento como um não saber, ou seja, como um indicador de desconhecimento, e o coloca no lugar da emoção.
Eis, portanto, situados outros dois sintomas típicos do quadro obsessivo: a compulsão (impedimento) e a procrastinação (emoção), dos quais apontamos a correlação, porque é pelo não saber que, no lugar do não poder, ver-se-á tecer-se uma densa trama de ida e volta incessante dos significantes, os quais se escrevem para logo depois serem apagados, movimento que visa reencontrar o traço primitivo. Nesse extenuante ir e vir, então, no qual reconhecemos nitidamente os rituais e a anulação do obsessivo (formas precisamente classificadas como compulsivas), o obsessivo quer “reencontrar a causa autêntica de todo o processo” (p. 347, Sem. 10); aquela causa autêntica que ele não sabe ser o próprio objeto último, abjeto e risível, o objeto anal: não saber que, além da procrastinação, determina às vezes as falsas pistas e os desvios que fazem de sua busca uma busca infinita (acting out). Quanto à dúvida, Lacan faz dela uma modalidade da compulsão, pois todos os objetos estão indistintamente incluídos no parêntese da dúvida, quando referidos ao acesso a tal objeto último que escapa; porém algumas vezes, sem mais simulações nem desvios, chega a se revelar como causa inexplicável, no mais extremo embaraço do sujeito, levando-o em direção à questão de sua causa, através da qual ele escancara a si, finalmente, a porta da transferência.
Esquema das metamorfoses do objeto anal
| O excremento natural: |
para soltar |
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| O excremento objeto da demanda:: |
A. para reter |
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B. para soltar (ambivalência)
B1. conotação positiva (ágalma, doação)
B2. conotação negativa (sublimação)
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| O excremento objeto causa do desejo: |
para reter (inibição; ato, acting out, passagem ao ato) |
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Bibliografia
Freud, S. Inibições, Sintomas e Ansiedade. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas. Vol. XX. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1983, p. 107-198.
Lacan, J. O Seminário – Livro 10 – A Angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
Miller, J.-A. Introduction à la lecture du Séminaire de L’angoisse.La Cause Freudienne . n° 58. Paris: Navarin Editeur, outubro 2004; La Cause Freudienne. nº 59. Paris: Navarin Editeur, fevereiro 2005.
______. L’Orientation Lacanienne: Le Forum des Psys. Curso realizado no Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris VIII, 2004-2005 (inédito). As lições dedicadas ao comentário do Seminário 10 foram publicadas em italiano no livro intitulado L’Angoscia. Introduzione al Seminario X di Jacques Lacan . Macerata: Quodlibet, 2006.
Notas:
1- Estes parênteses não são de Lacan, mas por mim introduzidos com finalidades explicativas.
2- Estes parênteses não são de Lacan, mas por mim introduzidos com finalidades explicativas.
3- Estes parênteses não são de Lacan, mas por mim introduzidos com finalidades explicativas.
4- Estes parênteses não são de Lacan, mas por mim introduzidos com finalidades explicativas.
5- Leia-se também o belo artigo de B. Lecoeur “Le moment de cession et l’angoisse”, in Quarto, n. 86, p 65-68.
Tradução: Maria do Carmo Dias Batista
Revisão: Sérgio Laia
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A VOZ DO ALTÍSSIMO*
Iordan Gurgel
i.gurgel@uol.com.br |
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Introdução
A psicanálise constatou que o sujeito, ao se dirigir ao Outro, experimenta um gozo singular que resiste à possibilidade de simbolização. A questão que Freud introduziu e Lacan trabalhou foi: como podemos tratar este gozo que não é fálico, não tem um símbolo e que resiste ao discurso? A resposta de Lacan foi inventar o objeto a, que é um símbolo de uma coisa que não tem símbolo1 .
O objeto a foi então concebido como aquilo que falta, que não tem sentido nem visualidade e sua essência é não ter corpo, nem conceito, tampouco substância. Esta característica fundamental – a ausência de substância do objeto a – fez Lacan afirmar, 13 anos depois do Seminário 10, que ...O objeto que chamei a não é, em efeito, mais que um único e mesmo objeto2 . Podemos então deduzir, que as cinco apresentações do objeto a (oral, anal, fálico, escópico e vocal), podem ser entendidas como distintas formas de um mesmo objeto3 .
O desmame, a sublimação, a natureza evanescente da ereção, a relação entre o olho e o olhar (o mau olhado), a voz psicótica e seus conseqüentes efeitos, são verdadeiros exemplos das encarnações do objeto ae estão consoantes com a proposta de J-A Miller na sua alocução-referência, para tentarmos dar conta da presença do corpo no discurso do analisante4 .
Para falar do objeto a nesta plenária, escolhi a forma vocal para abordá-lo, considerando sua variedade clínica, na sua relação à psicose.
O objeto vocal
Em Freud a afonia é um acontecimento do corpo, que é fundamental na clínica da histeria. Para Lacan é uma verdade de estrutura: a voz está sujeita à invocação, à uma forma especial de identificação, a incorporação. A voz não é assimilada, mas incorporada e, enquanto objeto vocal, não está relacionada a qualquer substância sonora e sim à cadeia significante, que se impõe ao sujeito e independente da percepção ou do sentido, ...assume uma realidade proporcional ao tempo que sua atribuição subjetiva comporta5 .
Lacan, para abordar o objeto vocal, serve-se de um objeto ritual, o chofar, que tem a função, nas festas judaicas, de renovar a aliança com Deus. Para Reik, citado por Lacan, representa a própria voz de Javé 6 .
Se deixarmos despertar em nós ecos da cultura africana, verificamos que as batidas rítmicas dos atabaques nos cultos do candomblé – que clamam pelos Orixás, que emergem quando tocados por determinadas sintonias, repetidas tenazmente e que evocam lembranças de sons emitidos e gravados primariamente, (seria como uma espécie de lalingua sonora), são também uma forma exemplar de encarnação do objeto a.
Clínica da psicose
A psicose põe em estado puro o objeto voz. Em Novas observações sobre as neuropsicoses de defesa, de 1896, Freud dá o exemplo da Sra. P, para teorizar sobre as alucinações auditivas: ...não eram outra coisa que fragmentos do conteúdo das vivências de infância reprimidas, sintomas do retorno do recalcado... e ele associava as vozes ao trauma infantil. A repressão servia para entender os sintomas neuróticos e o mecanismo psicótico também.
Para Lacan as hipóteses causais para a psicose, seja a foraclusão ou o desenganche dos registros RSI, criam obstáculo à produção do objeto a e determinam uma clínica diferencial entre neurose e psicose. A loucura está baseada na crença de ser o que se é (eu = eu), desconhecendo radicalmente que o eu não é sem o Outro7 . Esta condição afasta, teoricamente, a extração do objeto a pelo psicótico.
O psicótico, por não ter a dimensão simbólica, que significantiza e nomeia o objeto, produz um algo a mais como vindo do Outro e lhe dá nome e consistência – ele faz o que o neurótico tenta fazer, mas não consegue8 .
Lacan, desde cedo associa a psicose à liberdade. Em 1946, define o louco como um ser livre e, em 1967, dirigindo-se aos psiquiatras, define a loucura considerando o objeto a: “o louco é livre não porque tenha no bolso a imagem ideal que o afasta da desordem do mundo, mas sim porque tem no bolso sua causa, o objeto a”10 .
Ter a causa no bolso é o que separa o psicótico dos efeitos de desejo do significante. Ser livre é não estar preso ao Outro, não depender do Outro, porque tem o objeto a no real, a sua disposição. A liberdade é não constituir a alteridade, e ao louco, por isso mesmo, não lhe falta um objeto agalmático a buscar no campo do Outro11 . Pelo contrário, ele passa a ser o referente para este Outro e para enfrentá-lo é necessário ter coragem para inventar um saber de verdade, um gozo de um Outro inexistente, algo que burla a falta de significação fálica, para construir seu delírio e preencher o buraco no Outro.
A clínica que desenvolvo com John, neste sentido, é exemplar. Trata-se de um jovem estudante, que aos 19 anos começa a ter uma conduta apragmática e heteroagressiva. Durante as entrevistas iniciais, diz que ouve uma vozinha, que passa a lhe comandar a vida; os imperativos são variados: vá a igreja, atravesse a rua; volte pra casa, etc. Esta voz não o divide, como a um sujeito neurótico, mas o remete à fantasia do corpo despedaçado e o faz encarnar o objeto-voz, marcando-o indelevelmente, porque vem alojar-se no lugar do que lhe foi foracluído. Trata-se da intrusão do Outro que, pela via do objeto voz, não obedece a limites; quando ele escuta a voz, não há possibilidade de barrar este som inaudível, que penetra e fixa-se em seu corpo.
Os efeitos da encarnação deste objeto vocal se produzem na assunção de um modo de gozo mítico que modifica sua relação com o Outro – a família, os amigos, os colegas de escola, etc. Neste caso, também há um gozo sem símbolo, mas não é configurado como objeto a. Esta experiência coloca o sujeito na condição de ser objeto do gozo do Outro, encarnado em Deus; ele não se dirige ao outro semelhante, senão diretamente ao grande Outro, de quem ouve as mensagens que lhe orienta na vida.
Para este sujeito, o objeto-voz era portador de um poder que o vivificava e o liberava do aprisionamento familiar, mas paradoxalmente lhe remetia à sua avozinha, católica praticante, que o introduz na vida religiosa e o faz temente a Deus. É a vozinha do Altíssimo, que determina sua vida cotidiana e seu destino também; é uma identificação ideal, a Deus, que encobre o seu ser e faz aparecer o delírio.
Com o tratamento o sujeito descobriu um modo singular de lidar com o Outro e vai, progressivamente, desembaraçando-se deste gozo invasivo. Diz ele:...eu, às vezes, ouço a vozinha, mas não obedeço mais. É o efeito da transferência que o faz não responder mais ao imperativo vocal. Com o estudo universitário, que já leva 10 anos, ele vem apaziguando-se com seu gozo e, há muito tempo não fala mais do tema, apesar de conservar hábitos religiosos ortodoxos.
A vozinha funcionou, neste caso, como uma reparação do Outro, uma resposta/reconciliação com o pai autoritário que lhe infligia normas rígidas de comportamento; é uma resposta ao Outro frente a perplexidade do sujeito sobre si mesmo.
Conclusão
O objeto a não é o objeto do desejo que se busca revelar em uma análise, mas sua causa. Miller destaca esta reviravolta conceitual que Lacan opera no Seminário 10: passar da vertente da intencionalidade (que tem diante de si o objeto), para buscar a causalidade do objeto: o verdadeiro objeto de que se trata não está adiante, mas atrás12
. O processo de situar a função do a – na dimensão de causa do desejo – se revela na análise do sintoma do neurótico, com a extração deste objeto.
O sujeito neurótico chega ao analista querendo o objeto a do analista; o psicótico já o traz, mas ele quer do analista uma ajuda para constituir-se como sujeito na borda deste real13 ; ele demanda sair da morte subjetiva que lhe foi determinada pela foraclusão, vilã que retira do sujeito a possibilidade de identificação ao falo e, em conseqüência, a impossibilidade de produção do objeto a.
Esta elaboração se baseia no pressuposto que encontramos no Seminário 10: o sujeito se constitui e se completa no comando da voz, que é um objeto tributário da relação com o Outro. Na psicose, segundo Freud, o investimento libidinal se dá no eu e por isso mesmo, não está no campo do Outro o que impossibilita a extração do objeto a.
Mas, há uma questão que me intriga e penso também a todos aqueles que trabalham com psicóticos: será que, considerando o caso único e as psicoses ordinárias não é possível a extração do objeto a na psicose?
Eu não estou sozinho nesta questão. Na Abertura da Seção Clínica14 , 1977, Miller estabelece o seguinte diálogo com Lacan:
Miller: Na paranóia o significante representa um sujeito para um outro significante?
Lacan: Na paranóia o significante representa um sujeito para um outro significante.
Miller: E o Sr. pode situar nela fading, objeto a (...)?
Lacan: Exatamente.
Miller: Isso é algo a se demonstrar.
Lacan: É certamente a se demonstrar, é verdade, mas não o demonstrarei esta noite.
Eu tampouco vou demonstrar, mas gostaria de trazer a baila esta questão para discussão neste VII Congresso.
Eu não poderia encerrar esta participação, sem comentar uma imprudência que cometi há mais de 30 anos, quando entrevistando, em um serviço de emergência, um sujeito psicótico, lhe perguntei: você ouve vozes? – e ele, encostando um rádio de pilha no ouvido, responde tranquilamente: claro Dr., no meu portátil. Sem dúvida, era necessária uma outra manobra, via transferência, para constatar que o objeto vocal, apesar de estar à disposição, nem sempre é trazido no bolso pelo psicótico. É necessário um trabalho de extração pelo analista.
Notas:
* Apresentado na Plenária de abertura do VII Congresso da EBP, Salvador, 28/04/07 < A variedade clínica dos objetos a>; com Leonardo Gorostiza e Sérgio Laia.
1 Miller, J.A., Introdución a la clínica lacaniana, p. 59, ELP-RBA, 2006
2 Lacan, Seminário El Sinthome, Paidós, p. 83 [Lhe apliquei o nome de objeto devido a que o objeto é ob, obstáculo a expansão do imaginário concêntrico, isto é, englobante”]
3 Estou acompanhando o trabalho de Vicente Palomera, in Papers, Voz que sonoriza o olhar
4 Pronunciada em Roma, 17/07/06, apresentando o tema do Congresso da AMP.
5 Lacan, De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, in Escritos, p.539; (quando fala da alucinação verbal motora)
6 Lacan, S eminário 10, p. 268
7 Miller, Donc, aula de 26/01/94
8 Conforme Marcus A. Vieira, O fulano virtual, inédito
9 Acerca da causalidade psíquica: “Longe de que a loucura seja para a liberdade um insulto é sua mais fiel companheira”. (S eguindo Heidegger: liberdade de ser o ente que é...revelar a essência da verdade)
10 Citado por Chorne, M., Gallano, C., y Glasserman, M., in Lacan y la locura, Uno por Uno 24/25, p.27, resumindo trecho de, petit discours aux psychiatres de Sainte-Anne, Lacan 1967
11 Chorne, M., Gallano, C., y Glasserman, M., in Lacan y la locura, Uno por Uno 24/25, p.27
12 Citado por Miller in O. Lacaniana, 43, p. 48
13 Chorne, M., Gallano, C., y Glasserman, M., in Lacan y la locura, Uno por Uno 24/25, p.27
14 Publicada em O. Lacaniana 30
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FERENCZI E LACAN: DUAS ABORDAGENS DA VARIEDADE DOS OBJETOS a NA EXPERIÊNCIA PSICANALÍTICA*
Sérgio Laia**
laia.bhe@terra.com.br |
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No final de minha primeira contribuição publicada em Papers, bem como na sua versão reduzida, apresentada no lançamento em Buenos Aires, no último dia 27 de março, do VI Congresso da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), levantei duas hipóteses de trabalho a partir da conferência de Jacques-Alain Miller que serve de argumento a esse nosso próximo Congresso1. A primeira hipótese é que a experiência analítica nos daria, considerando os registros dos objetos a na natureza, na cultura e na sublimação – um quarto registro desse objeto: o objeto-causa. A segunda hipótese, que poderá ser tomada como uma espécie de corolário da primeira, sustenta que essa experiência seria o registro efetivamente capaz de amarrar os três outros que, então, sem a ação borromeana desse quarto registro, tenderiam a ser experimentados como desarticulados.
Neste texto, pretendo colocar à prova tais hipóteses servindo-me das considerações de Ferenczi sobre a “técnica ativa”2 para, graças ao registro do objeto a como objeto-causa, tematizar como a orientação lacaniana praticada no âmbito da AMP e do Campo Freudiano responde de modo diferente à variedade dos objetos a na experiência analítica.
Ferenczi – que eu não havia citado entre os pós-freudianos mencionados na primeira contribuição publicada em Papers – é um pioneiro na tentativa de se obter uma redução temporal do tratamento psicanalítico e seus trabalhos sobre a técnica ativa tornaram-se, historicamente, uma espécie de “divisor de águas” no que concerne ao campo das “terapias breves de base analítica”3. Sua concepção da “atividade” como uma “técnica” a ser utilizada no tratamento analítico é uma resposta a circunstâncias em que tal tratamento deixa de experimentar, durante um tempo considerável, qualquer tipo de melhora ou progresso para o analisando. A atividade, portanto, visa “ultrapassar os pontos mortos do trabalho analítico”4, sobretudo quando os meios passivos utilizados pelo analista (escutar e interpretar), bem como as elaborações já realizadas pelo analisando, não conseguem mais dar cabo da “estagnação” na qual um tratamento pode chegar. Neste momento em que a AMP e o Campo Freudiano se interessam pelos “efeitos terapêuticos rápidos” e pelos “tratamentos de curta duração”, pareceu-me importante tematizar criticamente o esforço de Ferenczi em seguir o trajeto da libido para evidenciar os objetos em torno dos quais ela se fixa a ponto de fazer o tratamento se estagnar ou mesmo se prolongar.
O uso da “técnica ativa” convoca os analistas a exortarem que o paciente faça ou deixe de fazer algum ato. Assim, nos casos de fobia que não se resolvem com o tratamento psicanalítico tradicional, a tarefa do analista poderia ser a de levar o fóbico a “realizar algumas ações desagradáveis”, mas, em outros casos, caracterizados por uma insistente presença de masturbação, de tiques ou de excitações de outras partes do corpo, a atividade implicaria em fazer o paciente “renunciar a algumas ações agradáveis”5 . Além desse tipo de incidência sobre os atos do paciente, a atividade poderia implicar a restrição da própria atividade associativa6 ou, então, nos casos em que há “uma atividade de fantasia... particularmente pobre”, poderia recorrer, inclusive, a “fantasias provocadas”7 .
A capacidade da atividade à la Ferenczi acelerar um tratamento estagnado não se separa do interesse desse psicanalista em seguir os trajetos da libido nos corpos de seus analisantes, ou seja, de detectar, em cada caso estagnado, as zonas erógenas onde a libido se alojou. Ao visar assim a libido, a “técnica ativa”, por mais que às vezes nos evoque (sobretudo quanto às fobias) as práticas do tipo TCC ou (quanto à histeria) a utilização “pré-psicanalítica” da hipnose para provocar uma ab-reação ao trauma, ainda consegue se sustentar como uma experiência psicanalítica. Nesse contexto, vale destacar a seguinte passagem de “Prolongamentos da ‘técnica ativa’ em psicanálise”: “quando estimulamos o que é inibido e inibimos o que não é, esperamos apenas provocar uma nova repartição da energia psíquica do doente [sobretudo de sua energia libidinal], susceptível de favorecer a atualização do material recalcado”8. Nessa “repartição libidinal” que favorece o tratamento do recalcado, poderemos encontrar o esforço de Ferenczi para abordar uma análise como o que, graças a Jacques-Alain Miller, pude propor como “um processo de localização, de tratamento e talvez mesmo de redescoberta de zonas erógenas”9 .
Ao longo de seus textos sobre a “técnica ativa”, Ferenczi nos oferece várias vinhetas clínicas. As hipóteses que pretendo colocar à prova aqui me levam a concentrar no caso de uma musicista croata10 perpassada por três persistentes sintomas: embora tivesse um considerável talento como pianista, quando ia tocar em público, ficava ruborizada e se aterrorizava; apesar de não ter qualquer má formação física, sempre ficava transtornada com o olhar dos outros sobre o seu peito, pois o achava muito volumoso; temia constantemente ter mau hálito, mas suas constantes consultas a especialistas nada encontravam.
Durante uma sessão, essa musicista se lembra de uma canção popular que a irmã mais nova (sempre muito tirana com ela) cantava de modo insistente. Pautado pela atividade, Ferenczi solicita à paciente que cantasse essa música. Com muita hesitação, a analisanda acaba atendendo a esse pedido e se lembra de que a irmã entoava a canção fazendo gestos marcados por uma certa obscenidade. Segue-se, então, uma nova exortação do analista para que ela repita exatamente toda a encenação feita pela irmã. Com muito custo, ela acaba consentindo e descobrindo, no revés de seu temor de ser vista, de ter um peito volumoso ou de sua modéstia, seu gosto (latente) pela exibição. Aparecem, ao longo das sessões, lembranças jamais evocadas antes, relacionadas à primeira infância da paciente: antes do nascimento de um irmão, ela era uma “diabinha” e, a partir desse nascimento, torna-se ao mesmo tempo envergonhada e assolada pela “inveja do pênis”11 . Ferenczi prossegue com suas exortações para que a musicista se exiba ao longo do tratamento, inclusive tocando piano. Da execução desse instrumento, aparece a significação de seu temor de fazê-lo em público: os “exercícios de dedilhado” evocam-lhe “fantasias de masturbação” e a “vergonha vinculada a essas fantasias”12 . Por fim, ao chegar às “tendências mais escondidas”, o tratamento viabiliza a decifração do sintoma do mau hálito a partir do trajeto no qual a libido associa duas partes que a civilização prefere manter como bem distintas: “à medida que ela nutria a idéia de soltar gases, contraía ritmicamente seus esfíncteres” e, para não enfrentar tais preocupações com seu “esfíncter anal” 13 , desloca para a boca o mal cheiro.
A atividade serve então a Ferenczi para retirar a “satisfação auto-erótica dos esconderijos onde ela se abrigava”14 e, nessa retirada, consegue fazer o tratamento arrancar dos “pontos mortos” em que havia parado. Encontramos, também, nessa vinheta clínica, a presença das cinco formas do objeto a evidenciadas por Lacan no Seminário X: o seio, a partir do temor relacionado ao “peito volumoso” e à “boca malcheirosa” persistentemente inexistentes; as fezes, desmaterializadas no mau hálito, estão também, de modo metonímico, nos gases e no ritmo das contrações esfincterianas; o falo, na inveja do pênis e na metonímia (masturbatória) do dedilhado; o olhar, na timidez e na vergonha que ocultam um gosto especial pela exibição; a voz toma corpo na canção e também nos gases. Por fim, há ainda, ao longo da experiência analítica dirigida por Ferenczi, todo um trabalho de amarração dos registros do objeto a na natureza (a partir do que é recortado como zona erógena corporal), na cultura (a vergonha perante ao que evoca a satisfação sexual recalcada) e na sublimação (a dedicação da paciente à música como desvio de uma prática de satisfação auto-erótica).
Assim, a experiência neurótica de uma desarticulação insistente da variedade e dos registros do que Lacan chamará de objeto a, bem como as perturbações provocadas especialmente por três sintomas, não deixam de ganhar uma amarração graças ao consentimento da musicista croata com a experiência analítica. Em outros termos: se, tal como nos citou Carmelo Licitra-Rosa em seu trabalho para Papers, Lacan afirma, no Seminário X, que o “objeto parcial é uma invenção do neurótico”15 , a parcialidade do objeto, desdobrada em suas cinco dimensões ou nos registros da natureza, da cultura e da sublimação, é bem o que encontramos no caso da musicista croata. Tal parcialidade a perturba e produz uma dispersão em seu corpo histérico. O encontro com Ferenczi lhe proporciona alguma articulação, na medida em que esse analista, como é próprio também a outros pós-freudianos, aposta na genitalidade como um modo de amarrar a dispersão dos objetos parciais. Daí, a importância dada por Ferenczi, nesse e em outros casos conduzidos com o recurso da “técnica ativa”, à descoberta do “onanismo inconsciente” e também sua concepção de que “a formação dos sintomas cessa se conseguimos reconduzir aos órgãos genitais a libido utilizada de maneira anormal”16 .
Entretanto, essa recondução do parcial à genitalidade concebida como uso normal da libido está bastante aquém do que Jacques-Alain Miller, a partir do Seminário X de Lacan, chamou de “lógica encarnada do objeto a”17 . A genitalidade como amarração da parcialidade ou mesmo a caracterização da parcialidade como “maneira anormal” de utilização da libido só não são uma limitação dos objetos libidinais ao que seria uma dimensão unicamente orgânica porque, por exemplo, na vinheta clínica de Ferenczi, as formas supostamente naturais desse objeto, as partes recortadas do corpo da musicista como “zonas erógenas” são tomadas pelo sentido sexual que Freud nos mostrou como extrair da decifração dos sintomas. Entretanto, mesmo que a aplicação do sentido sexual aos objetos que caem do corpo ou ao que Freud chamava de “economia libidinal” indica uma espécie de “desnaturalização” desses objetos, ela não é suficiente para designar uma lógica.
A experiência psicanalítica terá de contar com Lacan para que uma “lógica encarnada do objeto a” tome corpo e ganhe operacionalidade clínica. Retornando à vinheta que extraí de Ferenczi, eu diria que seu recurso à genitalidade como amarração do parcial o impede de processar o que Vicente Palomera, na sua contribuição para o primeiro número de Papers, chamou de “esvaziamento da substância do objeto a” ou o que Diana Wolodarsky, nessa mesma publicação eletrônica, demonstrou como a natureza de semblante do objeto a, na medida em que ele não é propriamente um objeto real18 . Em outros termos, graças a uma busca pelas zonas erógenas onde a libido se escondeu e a uma certa circunscrição dos objetos parciais, a “técnica ativa” permite Ferenczi lidar com os “pontos mortos” que um tratamento analítico pode atingir. Contudo, esse psicanalista não consegue se separar de um certo realismo naturalista que o impede de tomar, como uma “invenção do neurótico”, os objetos em torno dos quais gira a libido do analisando, ou seja, ele não considera que os objetos da pulsão, na variabilidade com que Freud os caracterizou, são “semblantes” contra o quais o neurótico procura se defender desse outro tipo de substância – o gozo – que se imiscui nas partes de seu corpo destacáveis como “zonas erógenas”.
Uma vez que Lacan consegue – e aqui retorno aos textos de Vicente Palomera e de Diana Wolodarsky – esvaziar o objeto a de substância, também poderá se distanciar da concepção da genitalidade como amarração e mesmo unificação da variedade do parcial. Daí, a relevância da citação que Vicente Palomera retira do Seminário XXIII: “o objeto a é apenas um único e mesmo objeto” 19 e – acrescentaria agora – seu esvaziamento do que lhe daria alguma substância não impede sua contaminação por esse outro tipo de substância que Lacan chamou de gozo. Nesse viés, os modos como o objeto a se destaca não apenas do corpo, mas também no corpo (pois conforme conclui Diana Wolodarsky, tal objeto produz gozo e se enraíza no corpo) são o que nos permite decompô-lo em suas cinco formas: seio, fezes, falo, olhar e voz. Assim, na orientação lacaniana promovida pela AMP, o que dá unicidade às parcialidades características do objeto a não é a genitalidade, mas o tratamento lógico com que, inclusive para além do sentido sexual, Lacan nos ensinou a buscar sua localização no que cai dos corpos. Graças a essa “lógica encarnada”, podemos sustentar que o objeto a, na variedade de suas dimensões corporais, é sempre um único e mesmo objeto porque guarda a forma de um furo que, no corpo, aparece nos orifícios onde o gozo se aloja. Essa aproximação entre o furo próprio ao objeto a e sua concepção como “um único e mesmo objeto” pode ser ainda melhor elucidada se evocamos uma outra passagem do Seminário XXIII, quando Lacan destaca a orelha como o orifício corporal “mais importante” porque ela, respondendo ao objeto voz, “não pode ser tampada, cerrada e fechada”20
Eu diria que Ferenczi, em seu afã de dar a partida no tratamento que se encontra em “ponto morto”, excede-se ao buscar ativamente – e de modo realístico-naturalista –, no corpo de seus analisantes, o que dificulta o tratamento de prosseguir e mesmo de se concluir. Nesse viés, o sentido sexual que ele deduz das zonas erógenas onde a libido se esconde o impede tanto de localizar o furo em torno do qual elas se formam, quanto de aceder, por exemplo, à pertinente designação que Catherine Lazarus-Mattet nos permite fazer do objeto a como uma espécie de “marca bordada no corpo”21 .
A “técnica ativa”, embora utilizada com um recurso para apreender os objetos em torno dos quais as pulsões se satisfazem, não comporta um tratamento lógico desses objetos cuja presença, conforme constatamos na experiência psicanalítica orientada pelo ensino de Lacan, pode tanto emperrar o trabalho analítico, a decifração do sintoma e a conclusão de uma análise, quanto fazer com que esse tratamento avance de modo vivo e efetivo rumo a seu fim. Entretanto, se o próprio Ferenczi aborda esses momentos de estagnação do tratamento como “pontos mortos” na medida em que neles o trabalho associativo do analisando se detém, é possível contrapô-lo já ao próprio Freud.
Ao se insurgir contra a estagnação da experiência analítica procurando, com a “técnica ativa”, extrair a satisfação auto-erótica que o neurótico guarda como um segredo, Ferenczi não deixa de nos mostrar as relações entre a localização dos objetos que abrigam secreta ou sublimadamente tal satisfação e a possibilidade de se chegar – num tempo curto ou longo – a uma conclusão do tratamento analítico. Ora, segundo Freud, se a associação do analisando emperra, é porque “algo no material complexivo... serve para ser transferido para a figura do médico”22, ou seja, a libido passa a se concentrar no analista. Logo, a limitação de Ferenczi às dimensões realístico-naturalistas dos objetos em torno dos quais giram a satisfação pulsional o impede de considerar o próprio analista como um objeto que, ao concentrar a libido do analisando, pode estar em jogo nos momentos de estagnação do processo analítico sem deixar de ser objeto-causa de uma análise.
A assimilação lacaniana do analista como objeto-causa, objeto a, é bem diferente da convocação ferencziana do analista como “agente provocador”23 . Afinal, enquanto “provocar” é um ato que espera uma reação, convoca uma resposta e, portanto, se inclui numa seqüência, numa cadeia, o objeto-causa é proveniente de um ato que irrompe fazendo corte numa série, demarcando um furo, um vazio com o qual o analisando terá que se haver. Assim, na “técnica ativa”, o analista acaba dando prosseguimento ao trabalho do analisando e, devido a essa interação mútua que hoje tem ressonâncias na clínica de um Owen Renik24, eu diria, evocando mais uma vez o argumento de Jacques-Alain Miller para o próximo Congresso da AMP, que o analisando é transmutado em uma espécie de “obra” do analista e que Ferenczi desconhece o objeto-causa ao qual uma análise reduz o analista. Em uma outra perspectiva, no corte mesmo de uma seqüência, o objeto-causa ao qual um analista é reduzido em uma análise dá lugar a um vazio no qual o analisando encontrará as chances para deixar de desconhecer o objeto a em torno do qual gira sua satisfação pulsional.
* Trabalho realizado, a convite de Ram Mandil (então Presidente da Escola Brasileira de Psicanálise, EBP) para apresentação no VII Congresso dessa Escola, que aconteceu em Salvador, nos dias 28 e 29 de abril de 2007, sob o título: “A variedade clínica do objetos a”. Trata-se de um texto que faz parte das minhas elaborações, para a preparação do VI Congresso da AMP, como membro do Comitê de Ação da Escola Una (Association Mondiale de Psychanalyse - AMP) e de uma investigação financiada pelo Programa de Pesquisa e Iniciação Científica da Universidade FUMEC (ProPIC-FUMEC).
Notas:
** Analista Praticante (AP), Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Professor Titular IV da Universidade FUMEC; Mestre em Filsofia e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
1 O texto que publiquei em Papers, n. 1 (versão 2006-2008), “Quatro registros do objeto a: um roteiro de trabalho”, foi difundido na internet, entre março e abril de 2007, através das listas eletrônicas das Escolas da AMP (AMP-Uqbar, EBP-Veredas, ECF-messager, ELP-Debates, EOL-Debates, NLS-messager e SLP-Corriere) e também se encontra publicado no seguinte endereço:
http://www.amp2008.com/pt/template.asp?textos/papers/001.html
A versão mais reduzida desse texto, intitulada “Quatro registros do objeto a”, pode ser encontrada na internet:
http://www.amp2008.com/pt/template.asp?textos/presenta_bn/laia.html
Por sua vez, a conferência de Jacques-Alain Miller, “Os objetos a na experiência psicanalítica”, foi publicada no número 46 da revista Opção Lacaniana (São Paulo, outubro de 2006) e encontra-se disponível também na internet:
http://www.amp2008.com/pt/template.asp?textos/miller.html
2 Destaco cinco artigos de Ferenczi sobre a “técnica ativa”: “Dificuldades técnicas de uma análise de histeria” (1919), “Prolongamentos da técnica ativa em psicanálise” (1921), “Fantasias provocadas” (1924), “Psicanálise dos hábitos sexuais” (1925) e “Contra-indicações da técnica ativa em psicanálise” (1926). Para este texto, utilizei a tradução francesa desses artigos, publicada em: FERENCZI, Sandor. Psychanalyse III: oeuvres complètes, tome III (1919-1926). Paris: Payot, 1974.
3 Para maior detalhamento sobre o que me leva a destacar a importância de Ferenczi concernente às “terapias breves” de base analítica, ver: BALINT, Michael, BALINT, Enid and ORNSTEIN, Paul H. Focal psychotherapy. An exemple of applied psychoanalysis. London: Tavistock Publications, 1971, p. 4-16; HEGENBERG, Mauro. Psicoterapia Breve. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004, p. 19-52.
4 FERENCZI, Sandor. Difficultés techniques d’une analyse d’hystérie (1919). In: Psychanalyse III..., p. 22.
5 FERENCZI, Sandor. Prolongements de la “technique active” en psychanalyse (1920). In: Psychanalyse III..., p. 119 e 120.
6 Cf. FERENCZI, Sandor. Les fantasmes provoqués (1924). In: Psychanalyse III..., p. 239.
7 FERENCZI, Sandor. Les fantasmes provoqués (1924). In: Psychanalyse III..., p. 238. Nesse texto, Ferenczi chega mesmo a isolar três tipos de fantasias a serem provocadas: “1. fantasias de transferência negativas ou positivas; 2. fantasias relativas a lembranças infantis; 3. fantasias masturbatórias” (p. 240). Ele também ilustra a aplicação dessas “fantasias provocadas” em algumas situações clínicas (p. 241-243).
8 FERENCZI, Sandor. Prolongements de la “technique active” en psychanalyse (1920). In: Psychanalyse III..., p. 131.
9 Ver: “Quatro registros do objeto a: um roteiro de trabalho” e “Quatro registros do objeto a”, disponibilizados na internet em endereços citados, acima, na nota (1).
10 Cf. FERENCZI, Sandor. Prolongements de la “technique active” en psychanalyse (1920). In: Psychanalyse III..., p. 120-125.
11 FERENCZI, Sandor. Prolongements de la “technique active” en psychanalyse (1920). In: Psychanalyse III..., p. 122.
12 FERENCZI, Sandor. Prolongements de la “technique active” en psychanalyse (1920). In: Psychanalyse III..., p. 122.
13 FERENCZI, Sandor. Prolongements de la “technique active” en psychanalyse (1920). In: Psychanalyse III..., p.122.
14 FERENCZI, Sandor. Difficultés techniques d’une analyse d’hystérie. In: Psychanalyse III..., p. 18.
15 O texto de Carmelo Licitra-Rosa, intitulado “Nota introdutória ao estudo do objeto a”, pode ser encontrado em:
http://www.amp2008.com/pt/template.asp?textos/papers/001.html
16 FERENCZI, Sandor. Difficultés techniques d’une analyse d’hystérie (1919). In: Psychanalyse III..., p. 23.
17 Cf. texto “Os objetos a na experiência psicanalítica”, já citado acima, na nota (1).
18 Os textos de Vicente Palomera e Diana Wolodarsky se intitulam, respectivamente, “Uma voz que sonoriza o olhar” e “A natureza do objeto a”. Eles estão disponíveis no seguinte endereço:
http://www.amp2008.com/pt/template.asp?textos/papers/001.html
19 Cf. LACAN, Jacques. Le Séminaire.Livre XXIII: le sinthome (1975-1976). Paris : Seuil, 2005, p. 86.
20 Cf. LACAN, Jacques. Le Séminaire.Livre XXIII: le sinthome..., p. 17.
21 Cf. “Bordados em torno do olho”, texto disponível em:
http://www.amp2008.com/pt/template.asp?textos/papers/001.html
22 FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 138.
23 É importante ressaltar que, em alguns textos sobre a “técnica ativa”, possivelmente pressionado pelas críticas que recebia e visando um maior esclarecimento do que pretendia, Ferenczi acaba afirmando que a atividade seria indicada ao analisando e não exatamente ao analista, pois é o analisando que deveria “eventualmente ser encorajado a realizar algumas ações”; FERENCZI, Sandor. Les contre-indications de la technique active (1926). In: Psychanalyse III..., 1926, p. 367. A experiência com a “técnica ativa” também faz Ferenczi atenuar o modo como o analista deveria utilizá-la: evocando sua posição “de que era sempre o paciente, e jamais o médico, que podia ser ‘ativo’”, ele constata “que devemos nos contentar em interpretar as tendências a agir, escondidas, do paciente, para apoiar as frágeis tentativas de ultrapassar as inibições neuróticas que ainda subsistem, sem insistir de início sobre a aplicação de medidas de coerção, e mesmo sem sequer aconselhá-las”; FERENCZI, Sandor. Elasticité de la technique psychanalytique (1928). In: Psychanalyse IV: oeuvres complètes, tome IV (1927-1933). Paris: Payot, 1982, p. 61
24 Agradeço a Leonardo Gorostiza por ter me evocado, no VII Congresso da EBP, os possíveis desdobramentos da técnica ativa de Ferenczi na prática psicanalítica sustentada por Owen Renik. Em um debate que aconteceu na Societé Psychanalytique de Paris, e que pode ser encontrado na internet, o próprio Owen Renik, respondendo um comentário de Bernard Penot, reconhece uma certa aproximação de seu trabalho com o de Ferenczi:
http://www.spp.asso.fr/Main/DebatsSansFrontiere/Intersubjectivisme/Items/Reponses/5.htm
Para uma amostra do trabalho desse psicanalista californiano, ver, também: RENIK, Owen. Playing one’s cards face up in analysis: an approach to the problem of the self-disclosure. Psychoanalytic Quarterly, n. 64, p. 521-539, 1999; RENIK, Owen. L’ideal de l’analyste anonyme et le problème de la “déclosion”. Ornicar? Revue du Champ freudian, nº 51, p. 61-86. Para um cotejamento entre a clínica de Renik e a orientação lacaniana, indico, nesse mesmo número da revista Ornicar?, “Les paradoxes pragmatiques de Owen Renik”, texto publicado por Éric Laurent; há ainda “Contre-transfert et subjectivité” (principalmente p. 31-39) e “Savoir du contre-transfert et savoir de l’inconscient” (sobretudo p. 62-68), assinados respectivamente por Jacques-Alain Miller e Éric Laurent, em: La Cause freudienne, n. 53, février 2003. |
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